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54906/10/2016

EDITORIAL | Os riscos da desesperança!

Depois de três décadas da abertura democrática, o Brasil mergulha num sentimento coletivo de desesperança. As eleições municipais deste primeiro domingo de outubro tiveram um número recorde de abstenções, votos nulos e brancos. Em muitas cidades, estes números ultrapassaram a votação dos/as eleitos/as ou mesmo dos/as mais votados/as. O bombardeio midiático contra a política provocou uma onda nacional de desesperança e ceticismo com a democracia.

 

O ciclo de abertura lenta e democrática iniciado em 1985, com o advento da chamada Nova República, e que culminou com a conquista das eleições diretas em 1989, está sendo questionado cotidianamente pela mídia corporativa. A ponto de ser tratado como natural que, nesta campanha eleitoral, fossem feitos discursos com ataques explícitos contra os direitos e a representação das mulheres, contra os direitos e a representação dos/as negros/as, propagando, via processo que deveria fortalecer a democracia, um discurso de ódio e intolerância.

 

As conquistas democráticas duramente alcançadas de liberdades e direitos sociais, de busca pela igualdade, de combate às desigualdades sociais, territoriais e econômicas, o incentivo às políticas de inclusão e de reparação com aqueles setores sociais historicamente excluídos, todas estas conquistas estão em risco. A desesperança com a política, somada à incapacidade dos setores democráticos em realizar um diálogo com a base da sociedade sobre os reais interesses que estão motivando os retrocessos, está possibilitando o fortalecimento de pensamentos excludentes, pouco democráticos, motivados pelo ódio de classe e intolerância com as diferenças.

 

As forças democráticas não se deram conta do sequestro da democracia realizado pelas grandes corporações econômicas nacionais e internacionais. Pior que isso, setores dos partidos de esquerda entraram no jogo do uso privado de recursos públicos. A política tornou-se um palco da organização e realização dos interesses dos grandes conglomerados econômicos que passaram a financiar e eleger políticos/as que, nos espaços do poder público, representam seus interesses econômicos imediatos. A política, que historicamente já sofria a pressão do poder econômico, foi literalmente sequestrada e colocada a seu serviço.

 

Neste sentido, a cruzada contra a corrupção deve ser comemorada e incentivada. Prática secular no Brasil e em outros países do mundo, a corrupção é uma chaga que precisa ser combatida, denunciada e enfrentada todos os dias. Para isso, as instituições democráticas devem funcionar com liberdade e autonomia, sem controle político nem ideológico de quem quer que seja. Por isso, o papel que as empresas da grande mídia exercem sobre os poderes públicos, em especial, o pode judiciário, é um grande risco à democracia. A luta contra a corrupção, um mal histórico e perverso que sangra recursos públicos que deveriam ir para construir o bem estar dos/as brasileiros/as, tem sido usada, seletivamente, contra uma parte do segmento político, contraditoriamente, fortalecendo outra parte que tem práticas pouco republicanas no uso do recurso público. Devemos nos lembrar sempre que quando se fala de corrupção, os dados mostram que o dinheiro desviado significa 20% do montante total. A maioria, ou seja, 80% é evasão fiscal e desvio ilícito do que deveria se pago como imposto, feito pelo setor privado, indústria, agronegócio, setor rentista. A moral, quando seletiva, é imoral. Compactuar com um tratamento não isonômico no combate a um mal tão perverso como a corrupção é comprometer o próprio sentido da democracia. Esta crítica não significa, em hipótese alguma, uma compactuação com os desvios de conduta do próprio campo popular.

 

Apesar do grande número de abstenções, o resultado eleitoral acabou por legitimar o golpe implementado no País. Isto significa que a luta pela defesa dos direitos deverá se acentuar.  Nada de estranho para nós. A Abong é formada por uma geração de organizações da sociedade civil que nasceu para a democracia. Somos protagonistas de uma longa e lenta luta pela afirmação e conquista de direitos. Esta luta teve e tem como principal motivação a crença na humanidade, na possibilidade de os seres humanos construírem um mundo justo e igualitário para que todas e todos possamos viver dignamente. Nas últimas décadas, o Brasil acumulou neste sentido, construindo uma base ética de convivência democrática onde os conflitos de interesses devam ser resolvidos na arena da participação cidadã.

 

Qualquer retrocesso nos processos democráticos é uma derrota deste espírito humanista. A desesperança pode ser um perigoso combustível para soluções conservadoras e até mesmo antidemocráticas. O que nos move são as injustiças cotidianas que vemos à nossa volta e outras que, embora não vejamos, sabemos de sua existência e nos indignamos da mesma forma. Por isso, nossa missão continuará sendo a mesma. A luta contra qualquer forma de exploração, discriminação, contra as várias formas de violências praticadas contra a vida. Nos move também a alegria das juventudes, a energia vibrante do povo brasileiro que não desiste nunca de lutar por um país melhor.

 

Sabemos dos poderosos interesses que estão por detrás do retrocesso democrático. A desesperança é a arma dos/as conservadores/as. Nossa tarefa, urgente, é de reacender a esperança. Queremos mais. Uma sociedade real e radicalmente democrática, uma economia solidária que valorize e fortaleça os arranjos locais, a agroecologia e o bem estar das pessoas. O capitalismo, tal como está sendo praticado, não tem nenhuma capacidade de resolver os principais dilemas da humanidade. Nossa missão é resistir e, na resistência, continuar lutando para construção de uma sociedade fraterna, justa e democrática. Os erros de uns não irão enterrar o sonho de milhões. Nenhum direito a menos. Democracia sem fim. Juntas Somos Mais.

 

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