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55007/11/2016

OPINIÃO | Comunicação e Cidadania

Por Silvio Caccia Bava para o Informes Abong*

 

Aqueles que já assistiram a fala da Ana Júlia, estudante secundarista de 16 anos, na Assembleia Legislativa do Paraná, sobre as ocupações de suas escolas e o compromisso da juventude com a educação brasileira e o futuro do país, sabem do poder de convencimento deste tipo de fala. Divulgada na internet por vários sites, essa fala, feita há dois dias, viralizou e já ultrapassou a marca de 5 milhões de visualizações no momento em que escrevo esta nota. Temos aqui o uso de uma mídia que não tem o controle direto das elites brasileiras como instrumento de politização e mobilização social.

 

Ana Júlia diz que aprendeu muito mais na luta em defesa da sua escola e da educação pública que nas salas de aula. Uma nova geração está se formando nestas lutas. Ao invés de enfrentar o tedioso e alienante currículo escolar, os alunos aprendem discutindo qual reforma curricular querem para o ensino público, o orçamento público, as isenções tributárias para empresários, a PEC 241 e o quanto se destina para educação, a importância do ensino público para a grande maioria da população, direitos de cidadania e a Constituição de 1988. Paulo Freire se sentiria feliz por ver esta moçada juntar o aprendizado com a prática social.

 

Os métodos e formas de luta são compartilhados de uma maneira cada vez mais ampla, podemos dizer mesmo que são compartilhados em escala global.  Das ocupações realizadas pelo MST às ocupações de praças públicas pelo movimento Occupy, nos Estados Unidos; pelos jovens na Puerta del Sol, na Espanha; pelos jovens gregos na sua Praça da Constituição, em Atenas. Todos buscam a denúncia das políticas impostas e o debate público na busca de soluções que respeitem os cidadãos e cidadãs e seus direitos sociais e políticos.

 

São processos que buscam mobilizações cada vez mais amplas. Para seu sucesso, precisam construir alianças, sair da zona de conforto de conviver apenas com seus pares e falar com as maiorias.  Os Fóruns Sociais Mundiais serviram para demonstrar esta possibilidade de articular o diverso e manter o foco comum na luta por direitos e pela democracia como regime político para assegurar esses direitos.

 

Os debates, seminários, aulas públicas que ocorrem nas escolas ocupadas pelos secundaristas deixariam novamente Paulo Freire feliz. Eles tratam dos interesses em disputa, identificam os protagonistas desta disputa, apresentam as formas como as elites brasileiras reafirmam seus privilégios e impõem à maioria o pesado fardo de arcar com os custos de um ajuste que só beneficia aos endinheirados.

 

Pelo Brasil afora, neste momento, estão ocorrendo inúmeros debates, seminários, reuniões, avaliações que reúnem a cidadania e focam no golpe parlamentar, no ajuste imposto pelo governo sem voto, nas políticas que promovem a destituição de direitos. Estas atividades também são estratégias de comunicação. São muitos milhares de pessoas que viveram um primeiro momento de perplexidade frente ao golpe parlamentar e que agora retomam as discussões para organizar a resistência.

 

Esses grupos que se reúnem são de vários tipos. As Frentes são articulações para organizar as manifestações de massa. Os seminários, debates são para produzir as análises que darão argumentos para a guerra das ideias, para enfrentar a ofensiva neoliberal que quer transformar os bens públicos comuns em mercadorias, quer privatizar tudo que for possível, reduzir a cidadania à condição de consumidor. Um dos desafios é articular a defesa da agenda que sai dos seminários e debates com estas mobilizações de massa.

 

Sabemos que as mobilizações são importantes mecanismos de pressão para a mudança, mas sabemos também que elas podem ser manipuladas pelos conservadores se não forem enfrentados e denunciados os argumentos que justificam o ajuste neoliberal.  Já vimos isso em 2013.  Assim, a produção de conhecimentos, as análises críticas das políticas de ajuste, assim como a produção de uma agenda de defesa de direitos tornam-se um desafio central para a unificação e avanço das lutas sociais.

 

Não há dúvida que a grande mídia se propõe a manipular a opinião pública e colocar todo cidadão ou cidadã na condição de um ser passivo e submisso às políticas que o penalizam. Mas, as crescentes mobilizações sociais vêm demonstrando que o sucesso destas tentativas de manipulação é relativo. Quando apenas 14% dos brasileiros apoiam o governo Temer, é de se perguntar quão efetivo está sendo este processo de manipulação.

 

Agora, com a aprovação da PEC 241, passaremos a sentir mais o peso do arrocho e da espoliação de direitos. É preciso deixar claro que os únicos que estão sendo penalizados são os trabalhadores, aqueles que vivem do seu trabalho. Os lucros dos capitalistas continuam sem serem tributados, os juros sobre a dívida pública continuam estratosféricos, os bancos continuam acumulando lucros independentemente da crise de desemprego ou da desaceleração da economia.

 

As estratégias de comunicação precisam incorporar a polarização do conflito promovida pelos “poderes facticos”, como denominam nossos companheiros dos países vizinhos ao grande capital.  Se os impostos se destinam a pagar R$ 600 bilhões de juros da dívida pública em 2016, quase a metade de toda receita pública, o que vai sobrar para a educação e a saúde? Slogans simples podem passar esta mensagem de denúncia da produção da desigualdade. EDUCAÇÃO SIM, JUROS NÃO! SAÚDE SIM, JUROS NÃO!

 

Não podemos dissociar as estratégias de comunicação de seus conteúdos. Quem faz isso é a propaganda enganosa das grandes companhias para convencer os incautos a comprarem seus produtos, ou comprarem a análise de que o país caminhava para o caos e para uma crise econômica sem precedentes.

 

A disputa é assimétrica, os setores golpistas controlam a grande mídia, mas com todo este controle e manipulação já fomos maioria e elegemos governos contrários aos seus interesses, mais alinhados com os interesses populares, em prefeituras, governos de Estado e mesmo no governo federal. O jogo não acabou, o jogo está sendo jogado. E a luta continua!

 

 

*Silvio Caccia Bava é diretor do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e membro do Instituto Pólis. Foi membro da direção da Abong durante oito anos.


Este é um espaço aberto à opinião de organizações associadas à Abong, entidades, coletivos e redes parceiras e movimentos sociais que atuam pela garantia de direitos e bens comuns. Os artigos publicados não refletem o posicionamento institucional da Abong.

 

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