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38615/05/2007 a 21/05/2007

OPINIÃO: Os silêncios do papa e as vozes que não calam

A semana que passou foi marcada, em todos os veículos da imprensa brasileira, pela imensa cobertura da visita do papa Bento XVI ao Brasil. Este, por sua vez, em todos os seus pronunciamentos repetiu quase que com as mesmas palavras a sua cruzada conservadora com relação à família, e com especial virulência seu discurso atentava contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

Pode-se objetar que não há novidade nenhuma nesse discurso do papa, bem como que a Igreja Católica pode ter seus dogmas e crenças e difundi-los conforme seus interesses. Isto poderia ser aceito sem maiores questionamentos se o papa se limitasse a pregar nos domínios exclusivos das igrejas e para aquelas pessoas que se identificam com tal denominação religiosa. O que nos parece um grave problema político é que tais idéias sejam propagadas até o limite da exaustão em um Estado laico – dimensão esta reafirmada pelo presidente da República em discurso na presença de Bento XVI. Ou seja, fica evidente que mesmo estando a laicidade do Estado brasileiro garantida na nossa Constituição, isto não tem sido o bastante para que ela seja realmente efetivada no nosso cotidiano, configurando-se, assim, um desrespeito aos direitos de cidadania.

O debate sobre o aborto é provavelmente o exemplo mais perverso dessa situação, na medida em que algo que deveria estar situado no marco dos direitos é deslocado por um campo de força política – sim, porque mesmo que a Igreja Católica queira passar a idéia de que cuida apenas da ordem do sagrado, sua ação ao longo da história tem sido extremamente terrena e política – para o universo da religiosidade, em que os termos do debate estão ancorados na noção de pecado. Essa estratégia é apenas uma repetição do antigo, mas sempre reatualizado, mito cristão da mulher como a origem de todas as mazelas do mundo.

Enquanto isso, as mulheres reais experimentam no seu dia a dia o peso desse mito, ao morrerem na clandestinidade, ao serem desumanizadas nos serviços de saúde quando lá chegam em processo de abortamento, ao serem discriminadas nos lugares onde vivem, nos lugares onde trabalham, ao lhes ser negado não apenas o direito de decidir, como também o direito a um debate democrático, em que os termos sejam construídos com base nos princípios republicanos, e não dos dogmas de uma denominação religiosa.

Os discursos de Bento XVI também percorriam de modo tortuoso os caminhos do enaltecimento do casamento como a única possibilidade do exercício da sexualidade "sadia" e, ao fazê-lo, negava num só golpe de palavras o direito que todas as pessoas têm de exercer livremente a sua sexualidade com prazer, alegria e respeito a si e ao outro/a. Mais uma vez, tivemos que ler, ver e ouvir alguém condenar nossas escolhas sem que nós houvéssemos lhe dado essa voz, nos tratando como rebanho, e não como sujeitos.

Entretanto, por entre a torrente de palavras, ecoavam muitos silêncios. Talvez por isso, em seus discursos, o papa tantas vezes tenha exaltado a família como o "esteio da sociedade", numa espécie de mantra que busca ocultar algo que não se deve pronunciar. E o que não se pronuncia é o que se vive e se vê: as famílias reais, que se constituem desde sempre a partir da dominação patriarcal, nas quais mulheres, adolescentes e crianças vivem sob jugo dos homens, tanto por meio da sua presença como também da sua ausência.

A família – que segundo Bento XVI é o lugar do acolhimento, do afeto e do cuidado – é, em tantos e tristes casos, o lugar em que a violência em todas as suas formas se manifesta, seja por meio da humilhação, dos maus-tratos, dos abusos sexuais e da morte. Um incontável número de mulheres, adolescentes e crianças experimentam na família o desamparo, o desprezo, a indiferença, o ódio.
Sobre isso, o papa nada tem a dizer.

Esse silêncio tão profundo deveria, mais que suas tantas palavras, nos fazer pensar, pois são todos os silêncios que não ouvimos, ou que fazemos, que impedem que as vozes dos sujeitos que vivem total ausência de direitos sejam escutadas. Essas são as palavras que nos importam, essas são as palavras que nos dizem respeito. Ainda que elas não tenham o poder de um pronunciamento feito em todos os veículos de comunicação, temos que não apenas atentar para elas, como também amplificá-las com toda potência possível.

Aproveitemos, então, o 18 de maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – para pronunciar as palavras que realmente precisam ser ditas e ouvidas. Pois são estas e outras lutas, como o direito ao aborto, à livre expressão afetivo-sexual, o combate à violência contra as mulheres que sempre devemos lembrar e jamais esquecer.

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