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informes - ABONG

47901/02/2011 a 28/02/2011

Opinião - FSM 2011: cidadania planetária em solo africano

A edição do Fórum Social Mundial 2011 em Dacar acabou no último dia 11 de fevereiro. Durante seis dias, a capital senegalesa tornou-se o palco mundial do encontro dos movimentos sociais planetários. Os números apontam em mais de 70.000 participantes, vindos de mais de 130 países de todos os continentes. Importante ressaltar que o FSM foi o resultado de mais de 70 fóruns nacionais, regionais e temáticos que foram realizados desde a última edição do evento mundial, em janeiro de 2009, em Belém, Pará.

 

Como era de se esperar, a presença africana foi a mais significativa do FSM 2011. Além de movimentos oriundos de todas as regiões do Senegal, caravanas de todo Oeste Africano e do norte do continente (Magreb) chegaram nos dias anteriores a Dacar. Essa diversidade africana foi visível durante todo o evento, mas foi na marcha de abertura que se mostrou mais expressiva. Foram principalmente as mulheres africanas e suas múltiplas vozes que marcaram o início do evento. Em todos os espaços da marcha havia mulheres com suas reivindicações: pelo fim da violência, pela sua participação política, pelos seus direitos, pelo acesso à terra, por escolas para  as  crianças e adolescentes. Segundo diversos organizadores, não se via uma marcha tão grande em Dacar desde o fim da colonização, em 1960.

 

O continente africano também esteve no centro dos debates, sob diversos aspectos. O segundo dia do evento, com o tema da África e das suas diásporas, permitiu dar visibilidade a muitas questões relacionadas. A Carta dos Migrantes, lançada nesse Fórum, deve servir de referencial para as lutas pelo direito à livre circulação e contra a xenofobia. Nesse dia, também ecoou a voz do povo saharaui, que luta pela independência do Saara ocidental; e dos que denunciam a apropriação de terras africanas e a exploração dos recursos minerais do continente por empresas transnacionais, a exploração predatória do patrimônio natural e econômico pelos atores do capitalismo neoliberal.

 

O combate aos regimes ditatoriais e a construção da democracia na África também entraram como uma questão central, com destaque para os movimentos que eclodiram recentemente na Tunísia e no Egito.  Como que consagrando a crença no poder da luta popular e num outro mundo possível, no início da última plenária, a assembleia global de encerramento do evento, foi anunciada a renúncia do presidente Mubarak!

 

Foram mais de 1000 atividades autogestionadas e 38 assembléias de convergência: da assembleia mundial dos habitantes até a do direito à comunicação, passando pela empolgante assembleia dos movimentos sociais, pelas convergências do Rio+20 ou ainda sobre o G20. Foi a oportunidade para construção de alianças entre os movimentos e de pontes entre suas lutas, cujo impacto só poderá ser percebido a longo prazo. Talvez tenha sido a edição mais inclusiva do FSM em termos de participação do movimento de pessoas com deficiência. Por outro lado, ausências importantes foram sentidas, como a dos povos indígenas latino-americanos: com apenas 15 lideranças da região panamazônica, a voz e a problemática que foram destaque da edição de Belém não pareceram ter recebido eco na edição de Dacar. De forma geral, o encontro dos povos tradicionais de continentes diferentes não ocorreu nesta edição do FSM.

 

A ABONG esteve presente em diversos espaços do FSM por meio da participação de diversas de suas associadas, assim como de membros da sua direção executiva e equipe técnica. Esteve notadamente envolvida junto a outras organizações nacionais de ONGs, reunidas na tenda do FIP – Fórum Internacional de Plataformas nacionais de ONGs. Foram realizadas mesas e debates sobre financiamento do desenvolvimento, democracia e desigualdades, mudanças climáticas, crise civilizatória e construção de paradigmas que evidenciem melhor o confronto entre modernidade, racismo, patriarcado, colonialismo interno e externo, entre outros temas. A ABONG esteve  presente também no seminário “A busca de paradigmas de civilização alternativos e a agenda da transformação social, promovido pelo GRAP (Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo  FSM). O objetivo do evento era a construção de um horizonte de superação da ordem capitalista, rumo a uma nova ordem mundial, com justiça social e ambiental. Com a presença de importantes intelectuais e ativistas, principalmente da América Latina, afirmou a perspectiva de um enfrentamento mais sistêmico do modelo neoliberal de globalização.

 

O Fórum Social Mundial 2011 enfrentou o desafio de auxiliar atores e movimentos que resistem à globalização neoliberal a construírem um horizonte de superação sistêmica da ordem capitalista, capaz de conectar e potencializar uma grande multiplicidade de lutas, dando-lhes um sentido de transição para uma ordem mundial sustentável social e ambientalmente – ou, o que é o mesmo, um mundo de justiça ambiental e social.

 

Não foram poucos os problemas logísticos e de organização, mas estes não impediram a realização da maioria das atividades previstas, ainda que em condições precárias e abaixo das esperadas. Esses problemas refletiram em grande parte tensões internas na governança do processo do FSM, e mais especificamente na gestão coletiva desta edição. Também foram o resultado de dificuldades ligadas ao contexto político senegalês, além da crise econômica que fez com que muitas agências que historicamente apóiam o FSM ficassem de fora, reduzindo drasticamente o orçamento dessa edição. O presidente do Senegal, o liberal Abdoulaye Wade, não facilitou o processo e expressou veementemente sua discordância dos valores e opiniões expressas no evento.

 

Numa mesa com o ex-presidente Lula, em atividade paralela, inclusive desafiou os participantes: “Depois de dez anos que vocês se reúnem, o que fizeram, o que conseguiram?”. Militantes de movimentos senegaleses ironizaram: “essa é uma pergunta para ele”. Caberia lembrá-lo que, durante vários anos, os participantes do Fórum Social Mundial denunciaram o caráter destrutivo do capitalismo neoliberal e foram tratados como ingênuos, sonhadores, irrealistas. Foi preciso a eclosão da crise econômica mundial em 2008 para mostrar quem eram os ingênuos. E o principal anúncio dos Fóruns era que “outro mundo é possível”, justo, democrático, participativo, inclusivo: as recentes mobilizações populares na Tunísia e no Egito acabam de mostrar que os povos podem mudar a história.

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