ABONG -  - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

associe-se

conheça nossas associadas

Procure pelo nome em um dos campos abaixo:

selecione
selecione

Ou faça aqui uma busca detalhada:

selecione
selecione
selecione
selecione
  • APOIO

    • CIVICUS
  • REDES

    • Mesa de Articulación
informes - ABONG

49106/10/2011 a 03/11/2011

Lilian Celiberti expõe desafios para a transformação social e o papel das organizações da sociedade civil

Em 19 e 20 de setembro, a Abong realizou, em São Paulo, SP, seminário internacional em comemoração aos 20 anos da associação. As conferências e painéis temáticos possibilitaram analisar a complexidade do campo de atuação das organizações da sociedade civil, bem como fortalecer sua ação política na disputa por novos paradigmas de desenvolvimento, pela radicalização da democracia e efetivação dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais (DHESCAs). A conferência de abertura contou com a presença de Lilian Celiberti, feminista e ativista política uruguaia, que falou sobre “Sociedade Civil na América Latina – conjuntura atual e perspectivas”, com enfoque nos desafios na luta pela efetivação de direitos e nas visões sobre a subjetividade e vida cotidiana da opressão sobre sujeitos.

 

Lilian iniciou sua explanação pela contextualização histórica do momento atual na América Latina e no planeta em que vivemos, caracterizado pelas crises financeira e climática, que colocam em questão o debate sobre a crise civilizatória. “A instutentabilidade do modelo questiona a possibilidade de desenvolvimento, de avanço”. Na Espanha, exemplifica Lilian, o sistema político cada vez mais fecha espaços e há uma “massa de gente de indignados, com pluralidade enorme, pois indignação é sentimento, não é postura política”. A construção de alternativas é, portanto, um “processo tremendamente complexo e que nos está desafiando”.

 

Nesse sentido, a feminista entende que a resposta para os desafios colocados pressupõe algumas rupturas. “A descolonização do pensamento teórico e político é uma tarefa que devemos fazer em diálogo com nossas próprias trajetórias intelectuais e vivências cotidianas”. Para construir novos olhares, entende, é preciso construir novas possibilidades teóricas a partir de vozes diferentes, que não se expressam com a cultura e linguagem com a qual nos expressamos.

 

Citando a música Vamos a Portarnos Mal, do grupo Calle 13 (leia aqui a letra), Lilian ressaltou a postura de expressão de indignação profunda a partir de outras maneiras de pensar e agir, e por uma estética diferente daquela a que sua geração se expressava. “É necessária uma nova utopia, colocar olhar crítico e imaginativo aos problemas sociais é enorme desafio, sobretudo para nossas organizações”. É partir deste ponto que se pode pensar em onde estamos parados e quais são nossos desafios.

 

Além disso, há mudanças políticas no contexto da América Latina, que colocam reivindicações e elaborações de movimentos historicamente excluídos dos debates públicos. “Experimenta-se caminhos pós-neoliberais, com um protagonismo do Estado na luta contra as desigualdades. Este campo de experimentação, com horizontes novos, é um processo contraditório de transformação política”. Lilian ressalta que as contradições se explicitam nas relações entre Estado, sociedade e mercado. “Os governos chamados progressistas colocam na agenda expectativas da sociedade relacionadas a nova concepção de direitos, incluindo a mãe terra, por exemplo”. São logros e mudanças na institucionalidade democrática que estabelecem amplo campo de disputa, com a articulação econômica, social e ambiental.

 

É nesse contexto que se explicitam as contradições entre a ampliação dos debates públicos, o surgimento das novas vozes autorizadas a participar no debate público, e da democracia enquanto um limite, na medida em que nem todas as vozes são incluídas. “Quem são os que estão convidados à mesa de debates? Até aonde vai o diálogo? Um exemplo dramático é a marcha dos indígenas na Bolívia (leia aqui sobre o tema)”. Lilian lembra que a criminalização de movimentos permanece mesmo em contexto de construção dos chamados estados plurinacionais. “Permanece a disputa por legitimidade. A criminalização e a ausência de diálogo permanecem como elementos em comuns na relação com territórios indígenas na construção de hidroelétricas”. Ela exemplificou pela afirmação, do presidente boliviano Evo Morales, de que a marcha não é séria, que os indígenas estão sendo “usados”. Ou seja, permanece a lógica da desqualificação daqueles que não pensam conforme o estabelecido. “Nada mais patriarcal que a ação de tirar voz daquela comunidade”.

 

Para Lilian, essas tensões podem levar ao risco de fechar o espaço político, assim como a concentração de poder no Executivo, uma herança do processo capitalista nos nossos países. “As reformas constitucionais consagraram a predominância dos Executivos, que são atravessados por processos de corrupção e patrimonialismo”.

 

A uruguaia também coloca como fundamental questionar o modelo de produção capitalista para ir além das políticas assistenciais no combate às desigualdades. “Os governos progressistas valorizam a exportação de matéria prima. Não podemos ter ação por direitos e bens comuns se não questionamos este modelo”. Desse modo, aponta Lilian, o combate à pobreza não pode ser pelo aumento da riqueza, mas por mudanças sistêmicas.

 

Assim, a resistência coloca novos debates da agenda pública, com tensão e disputa. O terreno para ação política desde a sociedade civil é uma conquista, além do espaçamento dos limites da política. “As lutas sociais levaram as lutas políticas para fora das hierarquias formais, gerando demandas que modificam a agenda pública”. É dessa forma que os temas da política se sobrepõem ao lugar de debate.

 

Nesse contexto, é fundamental, para Lilian, que se debata qual papel deve ser desempenhado pelas organizações da sociedade civil. “Saúdo a mudança de assinatura da Abong, para organizações em defesa dos direitos e bens comuns. Este campo tem necessidade de definir fronteiras, para definir campo de ação”. Ela acrescenta que os princípios de Istambul (leia aqui) deveriam definir este campo de ação.

 

A polarização política tende a levar à criminalização dos protestos sociais, “sobretudo quando se questiona o modelo de desenvolvimento produtivista”. O debate político acerca dessa temática é central, assim como repensar as formas de organização e financiamento das próprias atividades das organizações. “Exigimos democratização dos Estados porque construímos isso nas organizações, e trabalhamos para que outros atores tenham voz. Ou seja, temos grandes tarefas entre nossas organizações”.

 

Dessa forma, para construir direitos e enfrentar a criminalização é necessário debater tais questões, e lutar para que organizações não se transformem em terceirização do Estado para a execução de política pública. “Necessitamos colocar a imaginação no centro da nossa ação política, para romper também com nossas barreiras internas, de especialização, de campos cerrados, conquistar a esperança neste mundo é um desafio político da maior intensidade”. E serão práticas concretas de nossas organizações que poderão apontar caminhos para a transformação da realidade.

 

Veja aqui o vídeo completo do debate.

 

lerler
  • PROJETOS

    • Observatório da Sociedade Civil

Rua General Jardim, 660 - Cj. 71 - Osasco- CEP: 01223-010 - São Paulo - SP - Tel.: 11 3237-2122

Horário de funcionamento do escritório: segunda à sábado, das 9h às 19h

design amatraca