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46617/06/2010 a 30/06/2010

Um espaço todo seu

Em 1928, Virginia Wolf escreveu o livro Um Teto Todo Seu, em que discorria sobre a necessidade das mulheres terem um espaço próprio para poderem escrever. Em trabalho recentes com mulheres, tenho escutado delas formulações muito semelhantes com relação ao sentido da casa em suas vidas. Essas falas não dizem apenas da importância de um teto para dar abrigo, de um espaço para o cuidar. As mulheres afirmam que a casa é fundamental para a reflexão sobre a vida, para o pensar e o sentir sobre si e sobre o mundo.

Se o espaço da casa é necessário ao pensar, o espaço público - das ruas, dos prédios, das praças- é o espaço do agir, do estar e de fazer o mundo existir para si e para todo mundo. Mas a cada dia esses espaços - que comumente chamamos de cidades - vem se tornado um espaço do não estar, do evitar. Espaço em que se transita com rapidez de modo a se estar nele o menor tempo possível.

As cidades já foram ditas como partidas. As cidades são reconhecidas e experimentadas como segregadas, excludentes, violentas e perigosas. Mas as cidades, sejam elas de que tamanho forem, são em realidade estruturadas e dinamizadas no sentido de fortalecer a dominação. Por isso, pensar na lógica da partição ou da pura exclusão não é suficiente para transformar as cidades. Faço tal afirmação por considerar que, se analisamos as cidades apenas a partir da lógica de que há excluídos(as), corremos o risco de não enfrentar as estruturas opressivas, pois a exclusão é o modo como os grupos oprimidos são incluídos nas sociedades desiguais.

Tomemos o caso da habitação. Se as populações de baixa renda em geral só têm acesso à moradia via programas habitacionais que, se por um lado garantem o direito constitucional do acesso a uma casa, por outro tal acesso se dá muitas vezes a partir da auto-construção (mutirões) e com limitações do espaço de cada habitação e a menos de 50 metros quadrados, é porque há uma minoria que pode ter mais de uma casa do tamanho que quiser, no lugar em que escolher, bastando apenas pagar por ela. Ou seja, não é tendo apenas um teto - ainda que seja fundamental - que os(as) excluídos(as) mudam de lugar, porque as desigualdades permanecem nos modos privados da minoria se apropriar do espaço, do ar, da água, do verde, do silêncio...

Assim, penso que não há exatamente uma exclusão de pessoas do que se chama cidades, mas sim mecanismos poderosos e sutis (ainda que violentos) de pôr cada um e cada uma em "seu lugar". E esses lugares nem sempre, ou na maioria das vezes, são absolutamente segregados ou partidos. Se pensarmos bem, na experiência real das cidades os únicos espaços em que os grupos dominantes e dominados não se encontram direta e cotidianamente são exatamente as áreas mais distantes, nas periferias, nas favelas, nas ocupações. E digo diretamente porque sempre há a polícia, força máxima da manutenção dos lugares desiguais, que se faz presente não para proteger, mas sim para garantir que ninguém se coloque indevidamente.

 

Nos demais espaços das cidades, os(as) desiguais se encontram o tempo todo, ocupando os espaços que lhes são designados. Se encontram ainda que invisíveis ou melhor, invisiblizados(as). Interessante e perverso constatar que os grupos dominantes só conclamam a partição, a segregação dos muros altos e guaritas de condomínios fechados e shopping exclusivos quando da suposta ameaça ao seu patrimônio, porque os enclausuramentos em muros, grades e guaritas não são extensivos às pessoas que lá trabalham. A exploração do trabalho não causa problema algum de convivência para os grupos dominantes. Na verdade é uma das dimensões que lhe assegura a existência.

 

As trabalhadoras domésticas são talvez um exemplo mais contundente da vivência desigual nas cidades, da ausência do direito à cidade, especialmente aquelas que dormem em seus locais de trabalho. Sim, porque por mais que seja “confortável” pensar que elas “moram” onde trabalham, a realidade mostra que não há moradia digna desse nome para as domésticas. Elas apenas dormem – e mal e pouco - nos seus locais de trabalho, porque o dormir significa muitas vezes a extensão sem limites de uma jornada de trabalho que não tem hora para terminar. Porque o dormir significa uma cama em um espaço mínimo, mal arejado e divido com materiais de limpeza e outros objetos inadequados aos espaços “nobres" da casa.

 

Sem moradia, as domésticas não têm também liberdade de ir e vir, nem mesmo no espaço privado em que trabalham. Devem ser visíveis ou invisíveis conforme as ordem do(a) dono(a) da casa. Se por ventura têm permissão para sair à noite, não podem ir muito longe, porque devem retornar a uma determinada hora estipulada por outros(as) e não por elas. Desfrutar de descanso e lazer no bairro onde estão é impossível, pois há interditos diversos, desde o preço que é cobrado nesses lugares até os incômodos olhares que lhes dizem que não podem estar ali.

 

Passear pelas ruas é perigoso, dado que os prédios e seus muros e grades altas fazem com que as calçadas – ponto de transição entre o privado e o público - se tornem espaços vazios. O transporte coletivo, já insuficiente durante o dia, torna-se escasso à noite. Assim, resta-lhes o aprisionamento por trás das grades e muros, convivendo apenas com outras trabalhadoras domésticas. Essa situação chega ao limite quando sabemos que é comum as trabalhadoras domésticas terem a sua folga semanal negada, porque tal direito irá atrapalhar o lazer dos(as) patrões e patroas.

 

Há pouco tempo ouvi de uma trabalhadora doméstica o seguinte relato: depois de anos trabalhando sem folga semanal, num dado momento, ela teve “permissão” para exercer esse direito. Acontece que ela não tinha tinha amigos(as) ou família na cidade, nem sequer conhecia a cidade, mas precisa – e desejava - se afastar por algumas horas daquele espaço que não era sua casa. Assim, ela tomava um ônibus e ia para o centro, onde vagava por horas e horas sozinha e em silêncio.

 

Sua atenção se voltava apenas para não se distanciar do ponto de ônibus. O espaço público, ela também o sabia, não era seu, não lhe era próprio, mas ali no mais absoluto anonimato ela podia ficar por uns momentos em posse de si mesma, ainda que invisível, ainda que deslocada.

 

A história dessa trabalhadora não é antiga, nem é uma exceção. É a regra da vida cotidiana de muitas e muitas pessoas. É a lógica das cidades que, menos que segregar, oprimem, localizando desigualmente, invisibilizando ao negar o sentido de existência àqueles(as) que só podem ser sendo a não-parte de um todo que, neste caso, é infinitamente menor que a soma das partes.

 

Assim, o direito à cidade só se efetivará em sua plenitude quando a nossa luta não se reduzir à inclusão das pessoas no restrito espaço de um teto de 40 metros quadrados, mas for o entendimento e ação de que um espaço todo seu significa que todos os espaços são de todas e todos, que sentir-se em abrigo não requer apenas um teto, mas também espaços abertos onde possamos nos mover em liberdade construindo existências dignas em espaços que sejam todos nossos.

 

Por Taciana Gouveia, educadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia.

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