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informes - ABONG

46420/05/2010 a 02/06/2010

Entrevista com Antonia Melo – liderança do Movimento Xingu Vivo Para Sempre

A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte tem gerado inúmeras discussões. De um lado, construtoras e representantes do agronegócio dizem maravilhas sobre a obra. De outro, movimentos sociais, ONGs, comunidades originais e ambientalistas chamam a atenção para a grande catástrofe ambiental e social que a usina trará para a região Amazônica, gerando pouca energia em relação ao impacto que causará, beneficiando somente interesses privados.

 

Mas, as intensas mobilizações capitaneadas pelos movimentos e populações da região conseguiram furar o bloqueio da grande imprensa e apareceram nos principais veículos de comunicação brasileiros e internacionais. A luta atraiu a atenção de ativistas de outros países, que foram à região prestar solidariedade e se manifestar contra a instalação de Belo Monte. Como em poucos momentos, foi possível colocar para a sociedade uma visão contra-hegemônica sobre determinado tema.


Entre os protagonistas da luta contra a construção de Belo Monte está o Xingu Vivo Para Sempre. Antonia Melo, coordenadora do movimento, coloca, em entrevista concedida à ABONG, o contexto e perspectivas de uma briga que ainda está longe de terminar, abordando os impactos da obra da usina para as populações da Amazônia e discutindo também o papel fundamental das mulheres nas mobilizações.

 

Entrevista

1. Segundo o governo federal, a usina de Belo Monte deverá melhorar o fornecimento de energia para a região Amazônica. Mas, os movimentos sociais da região questionam o enorme impacto ambiental e social da obra. O que acontecerá com a região se a usina for efetivamente construída? De que forma o meio ambiente e as populações locais serão prejudicados?


A região seria  literalmente  destruída  em todos os aspectos ambientais,  sociais, étnicos, culturais e econômicos, com a destruição ambiental da fauna e flora e da vida das pessoas. Famílias sendo expulsas de suas casas, de suas terras, perdendo seus bens, populações que há décadas vivem e convivem com suas raízes e fortes laços culturais de geração em geração,  como, por exemplo, os(as) indígenas, ribeirinhos(as), pescadores(as), extrativistas, agricultores(as) e mesmo as famílias que moram nas cidades. A destruição econômica pelo saque e morte dos recursos naturais, florestas, águas, rios, igarapés, terras, peixes, produtos agrícolas, perdas de costumes, sítios sagrados como cemitérios, locais de rituais, desestruturação da rede social, perda das relações familiares, de vizinhança, de solidariedade, se perde para as futuras gerações a história de vida destes povos. A região seria prejudicada com a vinda de mais de 100 mil pessoas, que trariam novas doenças, aumento da violência, prostituição, e prostituição infantil, exacerbando conflitos sociais, fundiários, potencializando as invasões das Unidades de Conservação e terras indígenas que juntas totalizam mais da metade do território da bacia hidrográfica do Rio Xingu.

 

2. A quem realmente interessa e quais grupos econômicos se beneficiarão da construção de Belo Monte?


As grandes construtoras e grupos econômicos eletrointensivos, responsáveis  pela exploração dos minérios e produção de alumínio voltada para o mercado  de exportação e os grupos políticos  que se beneficiam do financiamento de suas campanhas eleitorais.

 

3. As mobilizações populares contra a construção da usina alcançaram vitórias e receberam boa cobertura da imprensa nacional e internacional. Como os protestos foram organizados e quais movimentos participam deles?


É verdade. Além do trabalho de base feito com as comunidades da região, tudo isso só está sendo possível através de uma ampla articulação e aliança do Movimento Xingu Vivo para Sempre com importantes atores(atrizes) sociais: pesquisadores(as) de diversas instituições nacionais e internacionais, movimentos e redes sociais, instituições e organismos da Igreja Católica (Prelazia do Xingu), Movimentos Indígenas e organizações da sociedade civil (de direitos humanos, socioambientais, indigenistas). A adesão de celebridades internacionais (James Cameron e Sigourney Weaver), engajadas na defesa de questões socioambientais, trouxe ampla visibilidade internacional e fomentou o interesse por parte da mídia e da sociedade brasileira. Todos esses atores(atrizes) lograram se unir em torno de uma causa comum que é a defesa do Rio Xingu e de seus povos.

 

4. Quais foram os resultados dessas grandes mobilizações?


Além do fortalecimento desta aliança e das redes sociais, tornou publico o debate e a polêmica sobre Belo Monte, a política energética brasileira e o modelo de desenvolvimento vigente para Amazônia, construído na ditadura militar e pautado na usurpação de seus recursos naturais, em que os lucros são apropriados somente por alguns  grupos privados enquanto seus  impactos são absorvidos pelas populações locais. Grande visibilidade internacional e aumento da pressão política sobre os governantes responsáveis pelo projeto. Estamos iniciando uma forte aliança dos rios Xingu, Tapajós e Madeira, e no futuro próximo promover uma mobilização em defesa dos Rios da Amazônia e contra os projetos de morte e destruição  do PAC  do Governo  Federal.

 

5. Quais são as próximas perspectivas para o movimento que quer barrar a construção de Belo Monte? Quais formas de luta serão adotadas?


Fortalecimento e expansão das alianças, apoio aos movimentos sociais e indígenas, fortalecimento das comunidades e populações locais na luta por seus direitos, ampliar a visibilidade nacional e internacional através da adesão de pessoas conhecidas e reconhecidas na luta em defesa de um mundo mais justo e socioambientalmente mais responsável. Continuar organizando as manifestações e mobilizações contra Belo Monte, sensibilizar cada vez mais a sociedade sobre a inviabilidade deste projeto que só trará morte para as populações locais e o Xingu. Pautar junto à sociedade e ao governo, a necessidade urgente de mudança deste modelo de desenvolvimento e de política energética que estão ultrapassados porque excluem os novos paradigmas socioambientais, culturais, democráticos e de respeito aos direitos fundamentais das futuras gerações. O planeta hoje exige mudanças!

 

Toda essa luta em defesa do rio Xingu esta inserida num contexto maior de defesa e garantias dos bens comuns de toda a sociedade e, portanto, esta é uma luta de todos e todas. O rio Xingu é um bem comum, de uso coletivo sendo a luta por sua defesa, uma responsabilidade coletiva.

6. As mulheres desempenham um papel protagonista nesta luta? De que forma a construção da usina vai afetá-las?


Sim, pelo empenho, incansáveis  lutadoras que, desde 1989, vêm desempenhando ações em defesa das águas, dos rios, do meio ambiente e dos direitos humanos, articuladas com diversos movimentos e organizações de mulheres no estado do Pará, mas também em nível nacional. E principalmente neste momento de iminente ameaça à vida, em que o governo Lula, juntamente com seus(uas) aliados(as) decidiram empurrar goela abaixo um projeto varias vezes abortado por conta da não-aceitação pelas populações locais, assim como pela luta travada pelos movimentos sociais e indígenas, as mulheres ocupam uma posição de destaque, à frente de diversas organizações e movimentos sociais.

 

A exemplo das inúmeras barragens construídas Brasil afora, as mulheres e as crianças são as principais vítimas deste modelo desenvolvimentista que traz a miséria, a desestruturação familiar, o desemprego e a violência nas suas diversas formas (domestica e familiar, prostituição, exploração de mão de obra barata, escrava e infantil, vitimas de doenças e fome). Perdem seus modos de vida tradicionais, o acesso aos recursos básicos que sustentam esses modos de vida, passam a viver em condições indignas de moradia, sujeitas à insegurança alimentar, ao estresse e às doenças que resultam em perdas irreparáveis como depressão, problemas psicológicos, ansiedade, insegurança quanto ao futuro, perda da identidade e de garantia de seus direitos fundamentais.

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