ABONG -  - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

associe-se

conheça nossas associadas

Procure pelo nome em um dos campos abaixo:

selecione
selecione

Ou faça aqui uma busca detalhada:

selecione
selecione
selecione
selecione
  • APOIO

    • Instituto C&A
  • REDES

    • TTF Brasil
informes - ABONG

49420/12/2011 a 02/02/2012

Uma feminista latino-americana em Busan

por Guacira Cesar de Oliveira (CFEMEA e AMB)

 

Em novembro, viajei à Coréia para participar como delegada do 4º  Fórum de Alto Nível sobre a Efetividade da Ajuda, na cidade de Busan, representando a Articulación Feminista MarcoSur. E o que é que nós, feministas, temos a ver com isso? Muito.  Fomos nós que, junto com outros segmentos organizados da sociedade civil,  denunciamos o caráter perverso da tal ajuda (AOD) que os países ricos diziam dar aos países pobres para poderem se desenvolver.

 

Denunciamos que essa ajuda sempre esteve pautada pelas necessidades estratégicas dos países ricos (militares, econômicas, geopolíticas etc), muito mais do que pela urgência e necessidade de responder aos direitos das mulheres e homens que vivem nos países do Sul do planeta. Provamos que essa ajuda, no final das contas, foi mais para servir os interesses deles (do norte) do que a nós. Destrinchamos o caráter injusto, racista, sexista, predatório, social e ambientalmente insustentável do modelo capitalista de desenvolvimento.

 

A incidência feminista aqui, como nos debates internacionais que antecederam esse Fórum, é para enfrentar as visões hegemônicas de cooperação para o desenvolvimento, que promovem a privatização e militarização da ajuda internacional, que usam o argumento da equidade de gênero e as próprias mulheres para os propósitos de expansão do mercado e redução de gastos públicos às custas do trabalho reprodutivo (não remunerado) das mulheres.

 

Estamos nessa arena de debate internacional para defender  nosso posicionamento feminista e antirracista, construído nos nossos movimentos, a partir do nosso lugar de sujeito da transformação social. Afirmamos a nossa condição de cidadãs, titulares de direitos, não meras beneficiárias passivas das estratégias definidas por outros, não somos só vítimas à espera de proteção e socorro.

 

As organizações de mulheres no Fórum


Durante o Fórum Mundial da Sociedade Civil, aqui em Busan – Coréia, vão acontecer vários debates e oficinas auto-gestionadas, dentre essas está uma chamada pelo Fórum Mundial de Mulheres, espaço organizado por um grupo de redes:

 

  • Fórum de Mulheres da Ásia Pacífico, Lei e Desenvolvimento – APWLD ,
  • Associação de Mulheres para o Desenvolvimento – AWID
  • Coordenação da Mulher;
  • Rede de Comunicação e Desenvolvimento das Mulheres Africanas (FEMNET) e
  • Rede WIDE (Europa).

 

Essa atividade está repetindo o que deu certo em Accra – Gana (no Fórum anterior, em 2008).  Nessa iniciativa elas pretendem "desenvolver e compartilhar uma visão feminista do desenvolvimento e da cooperação para o desenvolvimento, para avançar na promoção das organizações de mulheres durante o Fórum (HLF4)".

 

O Fórum oficial vai reunir aproximadamente 2 mil delegadas/os, entre representantes dos países doadores da AOD, países receptores, de parlamentares, de organizações da sociedade civil e do setor privado, que vão avaliar os compromissos assumidos nos três fóruns anteriores (Declaração de Roma - 2003, Declaração de Paris - 2005, Agenda de Ação de Acra - 2008) e seguir adiante. No Fórum Oficial haverá uma Sessão Especial sobre Equidade de Gênero e Empoderamento das Mulheres.

 

Ajuda ou cooperação? Para o desenvolvimento ou para a garantia de direitos?

 

O novo debate, tão em voga na América Latina, para esboçar o conceito de “bem viver” ainda não foi suscitado em Busan. No Fórum Mundial da Sociedade Civil, em Busan, na Coréia, a crise do conceito de desenvolvimento se evidencia nas tentativas de requalificá-lo para reorientá-lo à garantia de direitos, ao desenvolvimento humano, sustentável, inclusivo, equitativo, justo... Nesse sentido, hoje também criticou-se muito a noção de “ajuda” e, em contraposição afirmou-se a idéia de cooperação internacional, de parceria.

 

Até agora, não ouvi ninguém falar de que esse paradigma do desenvolvimento precisa ser superado, que o desenvolvimento do capitalismo é necessariamente excludente e inviabiliza a realização plena dos direitos por todas e cada uma das pessoas, como costumamos fazer nos nossos debates feministas e antirracistas.

 

As organizações da sociedade civil presentes nesse Fórum se preparam para enfrentar uma abordagem muito conservadora sobre desenvolvimento no Fórum Oficial (4º Fórum de Alto Nível sobre a Efetividade da Ajuda Internacional). O rascunho do documento discutido e aprovado em Busan abordou a necessidade de se formular uma “nova visão para o desenvolvimento”, orientada, antes de mais nada, ao crescimento forte, sustentável e inclusivo. De nova, essa visão não tem nada, muito menos de inclusiva e sustentável.

 

Ao se referir à importância de reduzir as desigualdades de gênero, o rascunho do documento em negociação afirma que esse é um direito e um fim da cooperação internacional. Estaria muito bom se ficasse por aí, mas na sequência diz que a redução das desigualdades de gênero é um pré-requisito para o crescimento sustentável e inclusivo. Aqui, como em outras partes do texto, essa conexão entre desenvolvimento e crescimento econômico está presente.

 

A diferença desse Fórum Oficial em relação a outros fóruns internacionais é que o consenso em torno dos compromissos políticos a serem firmados terá de ser construído com as Organizações da Sociedade Civil. Elas são parte do Fórum Oficial e, ainda que em minoria, podem, no mínimo, obstruir a discussão. A feminista Anne Schoenstein, de AWID, na sessão de abertura do evento assinalou que o papel das organizações da sociedade civil nesse Fórum mudou muito, nós podemos influenciar o documento.  Aliás, a ampliação da esfera de decisão sobre cooperação internacional é um dos aspectos mais relevantes desse processo de debate nos Fóruns de Alto Nível sobre a Efetividade da Ajuda Internacional.

 

Parte das inquietações e incômodos que mobilizam as disputas em torno de novos compromissos a serem consensuados está relacionada à distância insuperável das Metas de Desenvolvimento do Milênio, que orientaram grande parte da cooperação internacional desde 2001 e, portanto, revelam o seu fracasso.

 

Demorou... Várias feministas da Articulación Feminista MarcoSur, assim como na Articulação de Mulheres Brasileiras, insistimos nessa mesma tecla desde o começo, há uma década. Apresentamos publicamente as nossas criticas ao corte absurdo sobre a agenda da Conferencia Mundial sobre a Mulher, a negação total da agenda da Conferência de Durban (contra o racismo) e nos negamos a participar das inúmeras campanhas em favor das metas.

 

Diante desse cenário de fracasso da ajuda internacional para reduzir a pobreza, há muitas vozes aqui no Fórum da Sociedade Civil, em Busan, falando que a cooperação tem que estar orientada à garantia de direitos, a não discriminação, ao empoderamento. E que não é possível uma cooperação para resultados, do tipo metas do milênio.

 

Por hoje, para concluir, queria destacar o debate internacional que está pipocando sobre Rio + 20 (no ano que vem) face à conclusão dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em 2015. Num dos debates realizados hoje, houve quem dissesse que a Rio+20 poderia construir uma alternativa global a partir do Sul - da América Latina e a partir do Brasil. Fala-se em uma possível construção dos Objetivos de Sustentabilidade do Desenvolvimento (SDG –Sustainable Development Goals), para a superação dos MDG - Milenium Development Goals (SDG X MDG).

 

Há certo otimismo na liderança do Brasil sobre esse paradigma de sustentabilidade... Algumas expectativas internacionais das organizações da sociedade civil em relação ao governo brasileiro são bem diferentes daquelas que alimentamos no nosso próprio país e na nossa região. Mas aqui já se sabe que a grande aposta dos movimentos sociais no Brasil em relação à Rio + 20 está nas mobilizações sociais e atividades paralelas do que nas negociações oficiais.

lerler
  • PROJETOS

    • Programa de Desenvolvimento Institucional (PDI)

Rua General Jardim, 660 - Cj. 71 - São Paulo - SP - CEP: 01223-010 - Tel.: 11 3237-2122

Horário de funcionamento do escritório: segunda-feira à sexta-feira, das 9h às 19h

design amatraca