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50529/11/2012 a 18/12/2012

As Aparências não Enganam

por Taciana Gouveia, socióloga, responsável pela coordenação pedagógica do curso Formação em Direitos Humanos promovido pela Ação Educativa.

 

A cidade de São Paulo tem vivido nos últimos tempos uma onda de violência. Frase quase banal por conter algumas imprecisões, a começar pela impossibilidade de definir qual o tempo a que se está a se referir: os últimos dois meses? Desde junho? Desde 2006? Desde sempre? Também incerta é a ideia de onda. Supõe-se com essa palavra expressar um movimento atípico, algo que surge repentina ou ciclicamente em um mar de constante calmaria? Ou a metáfora da onda se relaciona a algo que avassala, arrasta, destrói sem que nada se possa fazer a não ser esperar que ela reflua e, enquanto isto não ocorre, aqueles/as que podem se refugiam em lugares distantes da praia metafórica onde a onda quebra?

 

Em sendo imprecisa a frase, as possibilidades de entendimento, explicação e solução dos problemas terminam por ser fluidas, diversas, antagônicas. Usam-se dados, teorias, narrativas, estatísticas. Interpretam-se ideologicamente os números, as tipologias dos atos violentos. Nomina-se os sujeitos quase que dicotomicamente: “heróis / bandidos”. Quase porque há aqueles/as (mais aqueles que aquelas) que são os “quase”, “os quase bandidos”. Quase não por suposição de inocência daqueles que foram assassinados ou baleados, mas uma concepção de que os jovens pobres, em sua maioria negros que moram nas periferias, estão sempre a um passo da criminalidade, exatamente por serem jovens, negros e moradores de periferias.

 

Pode-se objetar que esta visão que apresento é aquela produzida pela mídia conservadora que reproduz literalmente a concepção dos responsáveis pela política de segurança pública paulista. Ainda que assim seja, não me parece possível sustentar que seja apenas assim. Em pesquisa recente do Datafolha (25/11/2012), 43% das pessoas entrevistadas consideram que o policial que em suas horas de folga faz parte de grupos de extermínio e mata “bandidos” não deve ser punido. Um percentual tão alto de pessoas que legitimam os grupos de extermínio e a atuação de policiais nos mesmos diz muito das dinâmicas da sociedade da qual fazem parte. A violência simbólica contida em tais opiniões demonstram que os atos de brutalidade não são uma “onda”, em seu movimento de ir e vir, mas sim uma lógica que estrutura o cotidiano de uma cidade como São Paulo. A violência física não é apenas uma forma brutal de resolução dos conflitos, ela é a suposição ideológica de que existem pessoas que podem simplesmente ser eliminadas.

 

Gente que não importa, anônimos que são agrupados em um nome sem nomes, “bandidos”, ou no máximo moradores de periferias. Nas notícias, os policiais são nominados. Os “outros” jamais. Os moradores das periferias só ganham a dignidade de um nome próprio quando se tornam “personagens” de jornais e revistas de domingo. Por vezes encontramos nos depoimentos das pessoas em algumas materiais jornalísticas a expressão “trabalhador” para explicar que alguém que foi assassinado não deveria ter sido. Poucos/as se perguntam sobre o subentendido dessa expressão: e se não for trabalhador/a, pode ser assassinado/ a? As palavras falam.

 

As palavras calam. Há quem se cale. Quem se cala? Todos/as aqueles/as que diante da dura concretude do que vem acontecendo em São Paulo preferem o caminho da evitação. Evita-se os lugares onde a brutalidade mais fortemente se realiza. Evita-se o encontro com as pessoas ideologicamente identificadas como estando diretamente concernidas nos conflitos. Evita-se conversas sobre o tema. Evita-se ter notícias. Nega-se realidade e evidências. “O silêncio conivente diante da chacina”. Ainda que o silêncio pareça ser menos letal que os atos de violência física bem como as expressões de violência simbólica daqueles/as que legitimam os assassinatos praticados pela polícia, pelos grupos de extermínios ou mesmo as ações do chamado crime organizado, isto não quer dizer ele não tenha efeitos, que não cause danos. E em que pese muitas vezes o silêncio ser justificado pelo medo ou impotência, não é possível considerar a escolha por evitar qualquer manifestação sobre a brutalidade como sendo pessoal. Ela é uma escolha política em não tomar partido, supondo assim não fazer parte. Suposição irreal porque ao silenciar se reforça a lógica que se quer evitar.

 

Na temporalidade não linear da vida que corre e ocorre, em outubro de 2012 o massacre do Carandiru completou 20 anos. Um tempo aparentemente longo, uma tragédia que se deseja como fazendo parte de um passado que não se repetirá. Mas as aparências não enganam, pois a lógica que produziu aquele massacre segue no presente produzindo as mortes cotidianas. Os versos compostos por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1993 continuam a ser a expressão exata do que as armas matam, as palavras ferem e o silêncio mantém: “... ver a fila de soldados, quase todos pretos / dando porrada na nuca de malandros pretos/ de ladrões mulatos e outros quase brancos/ tratados como pretos/ só pra mostrar aos outros quase pretos (E são quase todos pretos) / e aos quase brancos pobres como pretos / como é que pretos, pobres e mulatos/  e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados (...) E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”.

 

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