ABONG -  - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

associe-se

conheça nossas associadas

Procure pelo nome em um dos campos abaixo:

selecione
selecione

Ou faça aqui uma busca detalhada:

selecione
selecione
selecione
selecione
  • APOIO

    • Misereor
  • REDES

    • FIP
informes - ABONG

50908/04/2013 a 02/05/2013

Entidades brasileiras e tunisianas se unem no combate ao racismo

A partir da iniciativa da Abong de aproximar movimentos negros brasileiros com o tunisiano na luta contra o racismo, organizações dos dois países se reuniram antes e durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2013, na Tunísia, para trocar experiências, debater a questão racial e construir uma agenda comum de atuação. Um seminário em 21 e 22 de março, somado a reuniões e atividades promovidas durante o FSM, possibilitou a redação conjunta de uma carta aberta de combate ao racismo na Tunísia (leia aqui), além da consolidação de parcerias para realização de novos seminários no Brasil e na Tunísia. “Foi muito importante, porque o racismo aqui não é reconhecido pela maior parte da população, como acontecia no Brasil há 20 anos. A maior parte das pessoas que se identificam como brancas não reconhecem a existência de racismo. E boa parte da população negra, vítima de racismo, também tem dificuldades de reconhecer a discriminação”, explica Damien Hazard, da direção executiva da Abong.

 

Além da associação, estiveram presentes nas atividades representantes da Unegro e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen). “No seminário, pudemos conhecer melhor realidade das relações raciais na Tunísia. Foi feito levantamento de fatos concretos de racismo, chegando ao ponto de ser colocado que, no Sul, o registro de nascimento traz a palavra livre para ser referir ao branco, e escravo, para se referir ao negro”, explica Gilberto Leal, da Conen. Há também problemas entre famílias em caso de relacionamento conjugal interracial e, “no Sul, brancos e negros são enterrados em locais diferentes”, complementa Hazard.

 

Nos encontros, foi possível debater a temática da discriminação racial com diversas entidades tunisianas, com destaque para a ADAM, única organização negra do país. “Falamos sobre cotas, por exemplo, aqui chamadas de ‘discriminação positiva’. Então apresentei o conceito de ação afirmativa. Várias pessoas questionaram, mas lembrei que políticas universais e focalizadas não são contraditórias, e sim complementares, pois tratar o desigual de forma igual só faz perpetuar desigualdade”, afirma Hazard.

 

Nesse sentido, um dos pontos importantes do debate foi a relação entre combate à discriminação racial e fortalecimento da democracia. “É importante ressaltar que a questão do racismo na democracia afeta toda a população, como o machismo”, entende Hazard. Nesse sentido, cabe à ADAM protagonizar a luta contra o racismo, mas ao mesmo tempo construir alianças com os movimentos sociais do país envolvidos na luta por democracia.

 

Maha Abdelhamid, ativista negra tunisiana, da ADAM, afirma que as atividades foram muito importantes para a entidade e a luta das pessoas negras tunisianas, pela possibilidade de trocar experiências com outras organizações. “As discussões deram oportunidade de olhar crítico para nossas abordagens e formas de atuação. Temos muito a aprender com as experiências existentes, por exemplo, em relação à importância de lutar junto às pessoas mais marginalizadas no país”. Maha explica que a história de luta do movimento negro brasileiro, já fortemente consolidado, traz objetivos e métodos bem definidos. “A ADAM segue procurando por isso. Sabemos o que queremos exatamente: visibilidade da população negra e igualdade em todas as situações. Mas buscamos por formas de atuação. Grande parte da sociedade tunisiana não reconhece o racismo, e esse reconhecimento é o primeiro passo para lutar junto”.

 

A ADAM foi fundada em maio de 2012, após intensos debates sobre a questão racial e a discriminação no interior das mobilizações por democracia. “Os protestos foram ótima ocasião para dizer que o povo tunisiano não é apenas branco. Os negros participaram da resistência contra a ocupação francesa e agora na Revolução, e têm direitos à justiça social e dignidade em suas vidas”. Além das manifestações de racismo acima apontadas, Maha destaca também suas dimensões sociais, culturais, políticas e econômicas. “Os negros são vistos como pessoas diferentes, são cidadãos de segunda categoria. E as mulheres negras são duas vezes mais discriminadas, pela questão racial e de gênero. São vistas como símbolo sexual”. Não há pessoas negras na política ou em cargos de chefia. “No período ditatorial havia apenas um embaixador negro, que tinha por função apenas a representação política em países da África subsaariana, nunca num país europeu. Há a preocupação em apresentar a Tunísia no exterior como país branco”, explica Maha.

 

Para Gilberto, o primeiro desafio colocado à entidade tunisiana é travar o debate na sociedade como um todo e conquistar adeptos. “Por incrível que pareça, do ponto de vista de organização especificamente de luta contra o racismo, a ADAM é a primeira entidade negra na região do Norte da África”. A proposta da Conen é fortalecer a troca de experiências entre as conquistas do movimento negro no Brasil e a atuação tunisiana no processo pós-revolucionário. “Na concepção das pessoas, a revolução não acabou, então o melhor para a ADAM é se inserir não apenas nos debates sobre racismo, mas em todas as questões da sociedade”.

 

A população negra na Tunísia

 

Apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre a porcentagem de negros na população tunisiana, a estimativa hoje é de 15%. A historiografia aponta a presença de população negra no Norte da África já no período da Antiguidade, mas com maior influxo populacional a partir do período Medieval. Maha conta que, nesta época, havia tráfico de escravos negros organizado por árabes na região da Tunísia, que intermediava a África Subsaariana e o Mediterrâneo. “Todo tipo de comércio da África Subsaariana passava pelo norte da África, e particularmente o comércio de escravos, que começou com a conquista árabe no século XII, mas teve seu ápice nos anos séculos XVII e XVIII, principalmente na região Sul da Tunísia, para trabalhos agrícolas”, explica. Outra origem da população negra é a guerra entre Líbia e Itália, que levou à migração para a Tunísia. “Há também pessoas negras vindas do Sudão nos séculos XVII e XVIII, para trabalhar no comércio”. No Norte, havia escravidão branca em trabalhos para famílias aristocratas.

 

A primeira lei de combate à escravidão no país data de 1846, e foi instituída “por pressão do exterior, mais especificamente França e Inglaterra. Mas em relação à escravidão negra, houve resistência dos escravagistas, pela importância no trabalho agrícola”. A escravidão negra continuou de forma clandestina até 1890, quando ocorre a chamada segunda abolição, “uma lei que obrigou a libertação dos escravos, sob pena de multas e prisão para quem os mantivesse”. Após a abolição, afirma Maha, a população negra não foi incluída social e economicamente, “permaneceu marginalizada e dependente da população branca. As mulheres continuaram trabalhando para famílias e os homens no campo”. Nos tempos recentes, após a independência política em relação à França, houve “certa evolução, com políticas voltadas à população marginalizada”. No entanto, a população negra “nunca se uniu para reivindicar seus direitos”.

 

Pan-africanismo

 

Nesse sentido, as atividades que aconteceram durante o FSM abordaram também questões sobre o Pan-africanismo. “Não dá para entender a África sem conhecer seu processo político, o que contribuiu para o mundo”, explica Gilberto. Na medida em que o FSM é um processo de debate sobre o modelo de sociedade que desejamos, de luta por justiça social e ambiental, “não dá para entender ou se envolver no debate sobre futuro da África sem conhecer o que politicamente foi construído como alicerce no passado, e o Pan-africanismo é um desses elementos. É um processo político e cultural, construído fora da África, na diáspora, pelos negros e negras”. Para Gilberto, o FSM não está completo enquanto processo se não entender o Pan-africanismo. “É fundamental inserir esse debate no fórum, e africanos devem entender esse processo. É instrumento que deve ir à raiz dos problemas do continente africano. O Pan-africanismo do século XXI tem desafio de fazer análise crítica endógena na África, e para as relações de África com outros continentes. Também é preciso que africanos entendam o processo de luta em toda diáspora. Precisamos nos entender politicamente, o que temos de legado e de desafio”.

 

Por Hugo Fanton, de Túnis, para a Abong

 

lerler
  • PROJETOS

    • Programa de Desenvolvimento Institucional (PDI)

Rua General Jardim, 660 - Cj. 71 - Osasco- CEP: 01223-010 - São Paulo - SP - Tel.: 11 3237-2122

Horário de funcionamento do escritório: segunda à sábado, das 9h às 19h

design amatraca