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informes - ABONG

51301/08/2013 a 05/09/2013

Papa Francisco: rupturas e continuidades

Na noite de 11 de outubro de 1962, após a sessão de abertura do Concílio Vaticano II e diante de milhares de fiéis presentes na Praça de São Pedro com velas e em oração, o Papa João XXIII saiu à janela. De improviso, proferiu palavras que ficariam conhecidas como o “Discurso da Lua”: “parece que até a lua antecipou-se nesta noite – observai-a no alto – para contemplar este espetáculo (...). A minha pessoa não conta para nada, quem vos fala é um irmão, que se tornou pai por vontade de Nosso Senhor, mas tudo junto – paternidade e fraternidade – é graça de Deus, tudo, tudo (...). Quando regressardes à casa, encontrareis as vossas crianças. Fazei uma carícia às vossas crianças e dizei: ‘esta é a carícia do Papa’. Encontrareis algumas lágrimas por enxugar, fazei alguma coisa…dizei uma boa palavra: ‘o Papa está conosco, especialmente nas horas de tristeza e de amargura’”.

 

Era um momento de mudanças na Igreja Católica, que pela realização de um Concílio Ecumênico buscaria “atualizações”, “com a prudente coordenação da colaboração mútua”. Passados 50 anos, novamente um papa retoma palavras de acolhimento e transformação, em referência direta à teologia e à eclesiologia do século XX, em especial às do Concílio Vaticano II: “hoje a todos vocês, especialmente aos moradores dessa Comunidade de Varginha, quero dizer: Vocês não estão sozinhos, a Igreja está com vocês, o Papa está com vocês”.

 

Assim, o “Bispo de Roma”, Francisco, encerrou seu discurso na comunidade que faz parte do Conjunto de Favelas de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A atividade integrou sua visita ao Brasil, durante a 28ª Jornada Mundial da Juventude, e se caracterizou pela ênfase do discurso na necessidade de superação das desigualdades sociais e econômicas, no combate à pobreza e às injustiças. “O Papa conclamou por reformas dentro da Igreja, com uma postura bem diferente dos antecessores. Isso cria muita expectativa. Depois de um período tão opressivo, é uma guinada”, afirma Ivo Lesbaupin, da direção executiva da Abong e do Iser Assessoria.

 

Além de apontar para mudanças na relação da Igreja com a sociedade, coloca-se a possibilidade de mudança na estrutura de funcionamento da Igreja. “Toda burocracia do Pontificado, a Igreja Internacional, se apoia na burocracia da Cúria. Como vivem no próprio Vaticano, é uma burocracia que se nutre dela mesma, reforçando hábitos de dominação e controle. E o tema central das reuniões que precederam a escolha do Papa foi justamente a necessidade de reforma da Cúria, de quebrar o esquema burocrático conservador que impede mudanças e submete os bispos do mundo inteiro a controles e resistências”, explica Lesbaupin.

 

A isto pode remontar o próprio pedido do Papa aos fiéis no Rio de Janeiro: “rezem por mim”. A resistência que enfrenta não é pequena, na medida em que essa burocracia só reforçou seu poder nos últimos 30 anos. “O Concílio Vaticano II apontou para uma Igreja mais descentralizada, com compartilhamento de poder entre as conferências nacionais dos bispos e o Papa. Mas João Paulo II procurou quebrar isso, novamente centralizando o poder, nomeando bispos de linha mais conservadora”. A mensagem do Papa Francisco, entende Lesbaupin, é a de alguém que vai dirigir de forma colegial, compartilhando poder com as conferências episcopais. “Ele se reuniu com o Conselho Episcopal Latinoamericano – CELAM, e proferiu um dos discursos mais significativos, com crítica duríssima ao clericalismo, à Igreja centrada no poder do padre e do bispo, pedindo uma Igreja mais voltada para fora”.

 

Também a retomada da atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) esteve presente em seus discursos, com posicionamentos que fizeram referência à Conferência de Aparecida, realizada em 2007, tendo o então bispo Jorge Mario Bergoglio como relator. Na reunião com a coordenação episcopal do CELAM, em 28/7, o Papa retomou diretrizes do documento: “Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical”.

 

Para o professor Afonso Maria Ligorio Soares, cientista da religião da PUC-SP, reafirmou-se, ao longo de sua visita, a identificação do Papa enquanto Francisco, “bispo de Roma”, que é jesuíta e latinoamericano. “Desde sua primeira fala, Francisco não insiste em ser Papa: é ‘bispo de Roma’. Assim, coloca-se como irmão de episcopado na colegialidade episcopal, o primeiro entre iguais. Essa é uma teologia do papado bastante interessante, não é imperador, mas irmão de episcopado que quer estabelecer outro diálogo com as várias igrejas”, afirma. Isso traz a possibilidade de que as igrejas locais coloquem para o Vaticano os problemas e soluções que encontram em suas realidades, abrindo uma nova dinâmica, menos impositiva. Nas várias realidades em que estão presentes, as igrejas devem se sentir participantes, responsáveis, com grande autonomia de ação. “Nos últimos anos, as Conferências Episcopais se tornaram quase repetidoras de decisões do Vaticano”.

 

Ser latinoamericano, por sua vez, remonta a ênfases na periferia, na opção pelo pobre e na maneira afetuosa de ir ao encontro das pessoas. “A latinidade ficou muito evidente na passagem dele pelo Brasil”, assim como a disciplina jesuíta. “É um Papa com conhecimento da diplomacia, que sabe agir estrategicamente, dando tempo ao tempo. Essa é uma prática jesuíta conhecida, bem como sua ênfase nas questões da justiça, em levar a evangelização pelo viés da justiça social no mundo inteiro”. Além disso, seus discursos são simples, com três pontos didáticos que falam diretamente ao interlocutor. “Não são grandes elucubrações teológicas, mas ensinamentos didáticos”. Já o nome Francisco se reflete no despojamento da pompa, do luxo e na proposta de diálogo entre religiões.

 

Conferências e estrutura da Igreja

 

Em relação às possibilidades concretas de mudanças no interior da Igreja, há forte expectativa na transformação da relação entre as conferências episcopais e o Vaticano. “A CNBB teve sua espinha dorsal quebrada nas últimas décadas e resiste bravamente, sofrendo interferências diretas do Vaticano”, explica Soares. Também eventuais mudanças no critério de escolha dos bispos podem trazer forte impacto na estrutura da Igreja e sua relação com a sociedade. “Temos uma ‘safra’ de bispos que não são pastores, homens de carreira, com interesses mais doutrinais. A ênfase agora será diferente, o critério será outro, com escolha de presbíteros das periferias, das comunidades de base”.

Mas as mudanças não são imediatas. Nas últimas décadas houve uma ampla renovação do episcopado, com a formação de seminaristas dentro da perspectiva teológica de Joseph Ratzinger. “É um longo processo. Caso se mantenha essa nova linha que o Papa está imprimindo, a depender do que acontece em outubro na reforma da Cúria, poderemos ver haverá de fato uma reforma substancial, em movimento similar ao Concílio Vaticano II”.

 

Teologia da libertação

 

Também a volta do discurso da “igreja pobre para os pobres” esteve bastante presente. Não houve referência direta à Teologia da Libertação, mas uma retomada de “temas presentes nela”. Cabe lembrar que o Papa já havia remontado a essa temática em discurso realizado na ilha de Lampedusa, sobre a migração, quando criticou a “globalização da indiferença” e a tentativa de se ignorar imigrantes por parte das sociedades ricas, explica Lesbaupin.

 

Para Soares, a “Teologia de Francisco é a do Vaticano II”. Ainda que existam eventuais pontos de vista antagônicos em relação à Teologia da Libertação, a possibilidade de refletir criticamente está recolocada. “O ponto de partida está garantido: é o Vaticano II. Críticas e elogios, à luz do Vaticano II, serão bem vindos”.

 

Nas últimas duas décadas, tivemos mais de 200 teólogos censurados, proibidos de publicar e lecionar. “Não há teologia em clima assim, só repetidores daquilo que o Vaticano quer ouvir. Está sendo reinaugurado um clima propício de liberdade de reflexão teológica na Igreja”. Soares exemplifica a falta de liberdade na produção teológica com sua própria experiência de organização de um livro sobre o Papa Francisco, no começo deste ano. “Alguns colegas não aceitaram escrever, preferiram esperar, com medo de enfrentar problemas”. Nesse sentido, para além de uma possível abertura para a Teologia da Libertação, o novo clima é de liberdade “para que haja pensamento teológico no interior da Igreja, no sentido da harmonia”.

 

Soares destaca outras experiências teológicas importantes que podem ganhar mais vazão, como a que aborda questões de gênero, questão racial, ecológica etc. “Há iniciativa de teologia LGBT no Brasil, com experiência pastoral. Temos hoje várias tendências, correntes dentro da Igreja que se inspiram na Teologia da Libertação sem necessariamente com ela se confundir. A Teologia da Libertação gerou reflexões, evoluiu, contribuiu para a teologia mundial”. Assim, o caminho novo apontado pelo Papa é aquele que devolve a cada católico sua dignidade de batizado, podendo agir de acordo com sua consciência.

 

Moral e ética sexual

 

Uma das questões mais debatidas por movimentos sociais e organizações da sociedade civil, durante a visita do Papa, foi a (im)possibilidade de transformações na Igreja relacionadas às relações de gênero. Em pronunciamento relativo à jornada, a ONG Católicas pelo Direito de Decidir afirmou a voz e os direitos das mulheres na Igreja, enfatizando a necessidade de mudança com relação à moral e à ética sexual. “O Papa aponta para a necessidade de mudanças na Igreja, demonstra compromisso maior com o trabalho pastoral, mas mantém a visão misógina com relação à moral sexual e às mulheres”, afirma Yury Puello Orozco, da equipe de coordenação da Católicas.

Isso se exemplifica pela postura taxativa quanto à ordenação de mulheres. “A Igreja se fecha com relação a esse direito, apesar de ser uma reivindicação interna de fiéis católicas. Além disso, nega-se a possibilidade de revisão da doutrina nos posicionamentos sobre a homossexualidade, o aborto, os métodos anticoncepcionais, o direito de decidir das mulheres”. Nesse sentido, a ONG procura “passar mensagem diferente” dentro do catolicismo, “para que mulheres católicas, em situação limite, encontrem argumentos dentro do magistério. Pelo catecismo, todas as pessoas podem seguir sua consciência e tomar uma decisão, e onde existe a dúvida, há liberdade. Por isso, temos total liberdade para discordar em matéria de moral e ética sexual, e para divulgar outra voz, de mulheres católicas”.

 

A estratégia da Jornada, de não enfrentar esses temas, explicita, para Yury, a indisposição em se fazer a Igreja avançar. “A imagem que o Papa envia é positiva, de fazer crítica à forma de ostentação que vinha demonstrando a Igreja, ao modelo de Igreja que negava valores evangélicos, por apontar a prioridade de trabalhar com a sociedade e sair dos templos. Mas não há mudança com relação à moral e ética sexual, nenhuma intenção de mudar com relação aos direitos das mulheres e democracia interna da igreja”.

 

As Católicas Pelo Direito de Decidir trabalham junto com o movimento feminista na incidência política contra projetos de lei que tramitam no Congresso e são contrários aos direitos sexuais e reprodutivos. Possuem também um trabalho de formação, que desconstrói ideias religiosas discriminatórias, e promovem pesquisa de opinião sobre temáticas ligadas aos direitos das mulheres.

 

Durante a jornada, publicaram pesquisa encomendada ao IBOPE sobre o pensamento dos brasileiros a respeito de aborto, união entre pessoas do mesmo sexo, uso da pílula do dia seguinte, proibição do sacerdócio para as mulheres, celibato sacerdotal e punição para religiosos envolvidos com pedofilia ou corrupção. De acordo com os dados divulgados, se resolvesse permitir o uso da pílula do dia seguinte, a Igreja receberia o apoio total ou parcial de 82% dos católicos jovens e de 75% dos católicos com mais idade. Se decidisse aceitar a união entre pessoas do mesmo sexo seria apoiada por 56% dos jovens católicos e por 43% dos fiéis da mesma religião com mais de 31 anos (leia aqui sobre o tema http://www.catolicasonline.org.br/pesquisas/conteudo.asp?cod=3981.

 

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