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51405/09/2013 a 03/10/2013

Marcha Mundial das Mulheres realiza encontro internacional em São Paulo

O 9º Encontro da Marcha Mundial das Mulheres debateu a trajetória do feminismo na América Latina e a resistência das mulheres ao neoliberalismo.


Por Nana Medeiros, da comunicação da Abong


A cidade de São Paulo recebeu, de 26 a 31 de agosto, o 9º Encontro da Marcha Mundial das Mulheres, que reuniu mais de 1600 ativistas vindas de 40 países. Estiveram presentes na abertura do evento, Sonia Alvarez - diretora do Centro de Estudos sobre América Latina e Caribe da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos -, Sandra Morán - integrante do Comitê Internacional da MMM representando as Américas - e Nalu Farias – da coordenação nacional da MMM. Elas discursaram sobre a trajetória do feminismo na América Latina e como o movimento vem se desenvolvendo até hoje.


Feminismo e Neoliberalismo


Sonia Alvarez deu início aos debates afirmando que o desenvolvimento patriarcal neoliberal limita, reprime e criminaliza os movimentos das mulheres na América Latina há décadas. Em sua opinião, a primeira fase do neoliberalismo foi marcada por um fundamentalismo de mercado. As mulheres da América Latina, especialmente as mais pobres, frente à acumulação brutal de capital e a militarização, construíram o que Sonia caracterizou como um “exército invisível disposto a enfrentar a queda dos salários provocada por ajustes públicos, garantindo a sobrevivência das famílias e comunidades pobres”. As lutas populares dos anos 80, portanto, seriam as “sementes do feminismo” contra políticas sociais que tentavam amenizar a ditadura.

 

Em sua segunda fase, na década de 90, o neoliberalismo, segundo Sonia, coincidia com as transições democráticas por quais passavam os países da América Latina. No entanto, governos que assumiam um discurso contra o autoritarismo não faziam oposição à ditadura do mercado. Desse modo, surgiu um debate intenso entre militantes feministas que optaram por se aproximar desse novo governo e as que se mantiveram na oposição. Nesse momento, muitas feministas passaram a orientar sua luta a projetos direcionados a mulheres consideradas vulneráveis ao neoliberalismo globalizado. “Muitos movimentos feministas se consolidaram e continuaram a levantar críticas cada vez mais contundentes ao governo. No entanto, esses movimentos passaram a ser frequentemente deslegitimados e silenciados, inclusive importantes setores de indígenas e negros que atuavam há anos”.

 

De acordo com Sonia, essa etapa do neoliberalismo foi marcada pela promoção de políticas de integração dos indígenas e povos afrodescendentes à “cidadania mercantilizada”, ou seja, permitiam-se demandas mais “civilizadas”, convergindo conquistas reais desses movimentos a uma mercantilização da cidadania multicultural. O que muitos antropólogos caracterizaram na época como “o índio permitido”, segregando e calando os movimentos ou propostas que ameaçariam o neoliberalismo.

 

Hoje, Sonia acredita que estaríamos vivendo o pós-neoliberalismo, marcado pelo retorno do teor popular e nacional do movimento feminista iniciado na década de 80. “Mulheres pobres, oprimidas e marginalizadas passaram a liderar a luta pelos direitos humanos. São lutas populares contra o autoritarismo, o militarismo e o crescimento voltado para o mercado”. No entanto, os movimentos sociais estão expostos a novas angústias e novos paradoxos. O neoliberalismo estaria investindo em um capital social feminino para integrar as mulheres pobres ao mercado através de uma “máscara mais humana”, se apoderando de um discurso multicultural das políticas de integração.

 

Segundo Sonia, por um lado, haveria a expansão dos movimentos sociais com a consolidação de projetos de governos democráticos e populares de esquerda e centro-esquerda. No entanto, por outro lado, com a proliferação de governos mais democráticos, não quer dizer que foram atendidas as demandas que, de algum modo, não são consonantes com o sistema neoliberal.

 

O feminismo na América Latina


Sandra Morán destacou a importância da luta coletiva no movimento feminista. Para ela, os países do sul possuem um feminismo próprio, caracterizado como uma resposta às necessidades das mulheres submetidas ao neoliberalismo e ao militarismo.

 

Segundo Miriam Nobre - coordenadora do Secretariado Internacional da Marcha MMM - ao mesmo tempo em que a América do Sul possui situações e problemas particulares, existe diálogo entre os desafios de cada país, a exemplo da militarização. “Achamos que não temos esse problema no Brasil, mas quando paramos para analisar, a verdade é que a repressão militar ocorre todos os dias em nossas favelas. Acabamos incorporando temas que, inicialmente, não parecem semelhantes aos nossos”.

 

Para Nalu Farias, também coordenadora da Sempreviva Organização Feminista, a SOF- a história do feminismo no Brasil caminha ao lado da história da América Latina. Muitas militantes latino-americanas não se identificavam com o feminismo institucionalizado de alguns países nem com a luta autônoma. Quando os países latino-americanos decidiram aderir à Marcha como um movimento permanente, em 2000, houve um consenso de a luta seria orientada contra o neoliberalismo e o capitalismo. “Percebemos que nenhuma luta precedeu a participação das mulheres. Em todos os confrontos, seja contra o colonialismo, a escravidão, pelo direito à terra, ou mesmo o movimento operário, entre outros, em toda a América Latina, houve intensa e crucial presença das mulheres. Possuímos tensões, claro, mas as formas como nos rebelamos contra o patriarcado tem muitas semelhanças”.

 

Para Sandra, é necessário desmitificar e viabilizar a luta feminista cada vez mais. Em sua opinião, não é da natureza do feminismo lutar individualmente. A luta é coletiva e por isso o Encontro da Marcha é tão importante, já que une mulheres do mundo inteiro. Além disso, para Sandra, a Marcha das Mulheres avança intensamente e se aproxima do povo cada vez mais. Mulheres rurais, indígenas, sem terra, entre outras, passam a se identificarem mais com o movimento e se afirmarem como feministas. Com um discurso emocionante, Sandra refletiu sobre o tipo de feminismo que se constrói atualmente. “Precisamos de um feminismo que tenha como horizonte a mudança do mundo. Um mundo não só para as mulheres, mas para todos os seres em conjunto, um mundo para a humanidade”.

 

Os desafios do movimento

 

Para Miriam Nobre, existe uma expectativa de que o Brasil, a partir da reciprocidade e integração com outros países da América Latina, possa abrir caminho para a atuação dos movimentos sociais e contribuir com alternativas ao imperialismo estadunidense e europeu. No entanto, os movimentos feministas sofrem constantes ataques, a exemplo da criminalização de suas lutas. “Nas manifestações de junho era claro que havia uma insatisfação das pessoas presentes, mas essa aparecia com significados diversos. Nós, com outros movimentos, sentimos que havia uma disputa de significados naqueles protestos. O ataque dos grupos fascistas deixou isso bem claro. Em 15 anos de militância, eu nunca tinha visto uma repressão tão grande por parte de um grupo não institucional”, afirma referindo-se à violência contra os militantes de movimentos sociais e políticos durante os protestos.

 

Além disso, Miriam denuncia que existe um processo de “ressignificação” dos discursos feministas a partir de uma visão liberal. A ideia de “meu corpo me pertence”, perpetuada pelos movimentos feministas, muitas vezes é distorcida e apropriada por setores conservadores, elitistas e midiáticos.

 

Nalu Farias afirmou que esse embate não é de hoje. "Nos anos 90 discutimos muito o modelo capitalista e patriarcal que legitimava um tipo de feminismo e deslegitimava outro. Era um momento em que só podíamos falar a partir de identidade: se sou negra, se sou branca, se sou trabalhadora rural, se sou lésbica, e assim por diante. Não queríamos pensar nossa identidade como aquilo que nos fragmentava ou como aquilo que nos colocava em contradição umas contra as outras, mas sim como aquilo que nos potencializava em nossa pluralidade”. Para ela, é importante que a Marcha continue afirmando sua auto-organização e suas alianças com outros movimentos sociais para lutar contra setores conservadores, ou mesmo a mídia, que teima em deslegitimá-los.

 

Para Jean Enriquez - integrante do Comitê Internacional da MMM e diretora executiva da Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres nas Filipinas - existe um esforço do patriarcado para manter as mulheres em casa, mas também a mídia ajuda quando, por exemplo, questiona as mulheres vítimas de estupro. A participação da mulher na vida pública vem sendo dificultada quando, ao invés de expor a cultura do estupro, a mídia a protege. “Isso dificulta a apropriação do feminismo pelas mulheres, principalmente as mais jovens.”

 

Diante de tais desafios enfrentados pelo movimento feminista, Sonia Alvarez expôs alguns questionamentos em relação à existência – ou não- de confluências entre a agenda dos movimentos populares e os atuais governos que se dizem democráticos. Considerando que nem todos os discursos feministas são aceitos ou permitidos, Sonia acredita que o desafio é descobrir como trabalhar para superar esses aparentes binarismos políticos e enfrentar os inevitáveis paradoxos com mais contundência. “O enfrentamento aos paradoxos políticos é vital para os movimentos feministas e todos os movimentos sociais. É necessário auto- reflexões e reflexões críticas para fortalecer os movimentos. São os paradoxos que fazem que os movimentos sociais se movam para frente”.

 

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