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informes - ABONG

51405/09/2013 a 03/10/2013

Movimentos populares ocupam conselho de medicina em São Paulo em apoio aos médicos cubanos - ONGs defendem Programa Mais Médicos

Programa do Ministério da Saúde é identificado por organizações da sociedade civil como uma alternativa à carência de médicos no interior dos estados


Em meio à disputa entre o Ministério da Saúde e as entidades corporativas dos médicos brasileiros em torno do programa Mais Médicos, a chegada de profissionais, brasileiros ou não, para atuarem na atenção básica é vista de forma positiva por ONGs e entidades que atuam em regiões carentes e distantes dos grandes centros. Nesta quinta-feira (5/9), movimentos populares de São Paulo promoveram um ato em defesa da vinda dos/as médicos/as estrangeiros, em especial de Cuba, e ocuparam a sede do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). “Estamos aqui para afirmar que saúde não é mercadoria e defender a vinda dos médicos para atender o povo brasileiro”, afirmaram os manifestantes de entidades como a Central de Movimentos Populares (CMP), Frente de Luta por Moradia (FLM), Movimento de Moradia Para Todos (MMPT) e Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), dentre outros. “Se houver qualquer boicote ao programa em São Paulo, voltaremos com mais força”, completaram.

 

Em 21/8, o governo anunciou um acordo com a Organização Pan-americana de Saúde (Opas) para trazer ao país até 4 mil profissionais cubanos ainda neste ano. Aberto primeiramente para inscrição de médicos brasileiros, dos 1.557 municípios considerados prioritários, 703 não foram escolhidos por nenhum profissional e devem receber os primeiros profissionais cubanos, com grande experiência em atenção básica. Os/as cubanos/as já começaram a desembarcar no país e alguns foram vítimas de racismo e xenofobia em ato organizado pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec).

 

Na avaliação de Alexandre Pires, coordenador geral da ONG Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, existe uma carência enorme de atendimento básico. A entidade possui sede em Recife (PE) e trabalha diretamente com habitantes de pequenas cidades do interior que dependem da agricultura familiar. “Não é incomum haver apenas um médico de plantão em uma unidade de saúde, sendo que normalmente esse médico atende de forma bem genérica e obviamente não dá conta da demanda dos municípios”.

 

Para Alexandre, não podemos apenas levar em conta o tratamento das doenças, mas também a prevenção. “É preciso considerar o contexto social e as práticas alimentares que levam a determinadas enfermidades. Precisamos de ação educativa e preventiva por parte dos médicos. A ausência dessa atenção básica acaba gerando um conjunto de problemas maiores para a população e um custo muito mais alto para o estado quando tem que arcar com especialistas”.

 

> Acesse o depoimento de Alexandre Pires

 

Joselito Luz, diretor da Associação das Pessoas com Albinismo na Bahia (APALBA), vê de perto o problema da carência de profissionais especializados. Membro de uma entidade que representa um segmento historicamente excluído, principalmente no interior dos estados, Luz alerta para a necessidade do atendimento básico mesmo em casos mais raros como o albinismo. “O Mais Médicos ajudaria pelo menos a garantir o atendimento preliminar e essencial. Desde que eu acompanho esse debate vejo que a classe médica privilegia muito o lucro decorrente de exames e procedimentos mais complexos, já que o atendimento básico não gera dinheiro para o profissional. A prevenção, que garantiria qualidade de vida e redução dos casos de emergência, é rejeitada por uma lógica capitalista”, afirma Joselito. Para ter o acesso ao atendimento, por exemplo, a APALBA conseguiu fazer um acordo com o estado e com unidades de saúde especializadas da Bahia. No entanto, essas instituições exigem laudos difíceis de conseguir por conta da falta de médicos.

 

> Acesse o depoimento de Joselito Luz

 

A realidade da falta de médicos não é diferente no sul do país, como relata Valdevir Both, do Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), e a falta de estrutura não é o motivo. “No Rio Grande do Sul tem municípios que chegam a oferecer R$ 20 mil por mês de salário, com estrutura adequada, com ambulância equipada para os encaminhamentos necessários, e mesmo assim não encontram interessados. Alguns municípios optaram em pagar o curso de medicina para seus estudantes a fim de futuramente garantir atenção médica aos seus habitantes”, afirma.

 

Em sua avaliação, o mérito do Mais Médicos está no fato de finalmente o Estado brasileiro assumir a responsabilidade de controlar uma das categorias profissionais centrais para o sistema público de saúde. “O que tem acontecido até agora é a categoria médica regulando o mercado da medicina, num corporativismo cujas consequências hoje são visíveis na ausência de profissionais interessados em trabalhar no Sistema Público”, afirma. “O Mais Médicos representa o primeiro passo para dizer aos profissionais nossos que se negam a trabalhar que se eles não têm interesse, o Estado brasileiro vai buscar mecanismos para atender essa demanda e não será mais a corporação que irá condenar milhares de cidadãos à falta de atendimento médico”.

 

> Acesse a entrevista com Valdevir Both

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