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51705/12/2013 a 06/02/2014

Carta aberta ao camarada Emir Sader

Carta aberta de autoria de Mauri Cruz, diretor estadual da Abong no Rio Grande do Sul, em resposta a artigo do sociólogo Emir Sader, publicado em seu blog na Carta Maior.


Camarada Emir,

 

A admiração e o apreço não impedem que ocorram momentos de decepção, o que provoca a necessidade da crítica. É o que me ocorreu ao ler o seu artigo sobre o Fórum Social e o papel que as ONGs teriam neste processo de articulação da luta anticapitalista internacional.

 

Sou militante do PT desde 1981 e acredito sinceramente que os partidos de esquerda são uma das ferramentas de luta mais importantes da classe trabalhadora. Mas, aprendi dentro desta mesma militância petista que um estado, mesmo que socialista, somente será verdadeiramente democrático ao lado de uma sociedade civil autônoma e organizada. Aliás, esta concepção está expressa nas teses do V Encontro do PT, com a produção das quais me orgulho de ter contribuído. Desde aquela época, esta visão vitoriosa combatia outra concepção, que dava poder exclusivo ao Partido nos processos de transformação e delegava a uma função subalterna os movimentos sindicais e sociais. A história provou que as teses do V Encontro estavam
corretas e os movimentos sociais ajudaram o PT a mudar o Brasil.

 

Caro Emir, ao rotular as ONGs como culpadas pelos rumos do FSM e, principalmente, por aquilo que denominas de fracasso, estás a cometer um erro baseado na crítica fácil motivada por sei lá qual intenção ou no desconhecimento do que tem sido o Fórum Social nestes doze anos. Afirmo sem medo de errar que as dificuldades dos fóruns sociais são muito grandes, mas não decorrem da atuação de ONGs brasileiras ou europeias e estão bem além do que elas fazem ou deixam de fazer.

 

Só para citar dois exemplos, remeto ao FSM Palestina Livre realizado em Porto Alegre, em 2012, por iniciativa das centrais sindicais onde, diga-se de passagem,  não houve atuação de nenhuma ONG na sua organização. Esta edição do fórum social enfrentou os mesmo problemas e dilemas que as demais edições do evento, tanto que, ao final, a carta de declaração foi duramente criticada pelo MST e pela Via Campesina. O que as ONGs têm a ver com isso?

 

Em 2013, a tentativa de realização de um FSTemático, em janeiro, também em Porto Alegre, sofreu sérios problemas de articulação política e institucional com críticas na forma como setores da Administração Municipal atuaram na sua organização, tanto que algumas centrais sindicais e movimentos de mulheres se
retiraram do evento dias antes de sua realização. Pergunto, camarada Emir, o que as ONGs têm a ver com isso?

 

A verdade é que os processos políticos e a metodologia vivenciada por dentro do fórum social, com grande horizontalidade e direito de participação de qualquer segmento ou grupo de pessoas declaradamente anticapitalista e democrático, é sim uma tarefa muito difícil. As esquerdas e os movimentos de massas
tradicionais, por viverem na luta direta cotidianamente,  têm dificuldades em difundir a cultura da livre participação. É claro, precisam cerrar fileiras contra os inimigos e não dar espaço para vacilações e dúvidas. Mas a construção da unidade entre diferentes é um desafio muito mais complexo, meu camarada.

 

Tirando a frágil experiência do fórum social, qual exemplo internacional poderíamos citar onde as esquerdas e os movimentos libertários do mundo tentam se reunir para construir projetos e processos unitários e comuns? Quais? Cite um.

 

Agora, interpretar estes dilemas do fórum social como sendo diversionismo neoliberal das ONGs embaladas por concepções concebidas na tese do estado mínimo é pura maldade e uma tremenda falta de senso crítico. Afinal, foram os partidos de esquerda europeus quem cederam às teses neoliberais, aderindo a políticas de redução dos direitos sociais e da redução do déficit público. Foram os dirigentes destes partidos que se afastaram da sociedade organizada e se aproximaram do grande capital.

 

Por outro lado, é na América Latina e por força dos milhares de movimentos sociais libertários que a estratégia adesista ao neoliberalismo foi questionada e enfrentada. E os governo de centro esquerda no Brasil ou em qualquer outro país latino americano não seriam o que são sem o apoio crítico das organizações e dos movimentos sociais, dentre elas, as ONGs.

 

É preciso reconhecer que, tradicionalmente, os partidos de esquerda guardam uma cultura autoritária que afasta novos atores e movimentos sociais da suas fileiras. Ainda mais quando estão no poder. É preciso sim, que os movimentos sociais mantenham uma distância crítica e autônoma dos governos de centro
esquerda para garantir que não hajam vacilações e adesismos ao projeto do grande capital. Nosso papel, como movimento social, é empurrar de fora pra dentro, para que o Estado deixe de ser aparelho dos interesses do grande capital.

 

Por isso, o fórum social tem sido um dos únicos espaços internacionais onde novos sujeitos e atores sociais se encontram, articulam, se conhecem e reconhecem, experimentando novas formas de construção de alianças com base no diálogo e respeito das diferenças e diversidades. Onde mais um cadeirante de movimento da mobilidade teria espaço para defender sua luta que, convenhamos, não é menos importante que a redução da jornada de trabalho ou a reforma agrária? Onde mais as mulheres negras das religiões afrodescendentes se fariam ouvir pelos líderes brancos dos movimentos sindicais e populares? Onde mais os novos movimentos libertários da Primavera Árabe poderiam se reunir para discutir o seu futuro agora que há retrocessos e descaminhos na revolução democrática que estava nascendo? Aliás, o FSM da Tunísia foi um excelente espaço para que isto ocorresse. Tu fostes lá, camarada Emir? Não? Então, criticas o fórum social de que lugar? De ouvir falar?

 

Também não é verdade que os processos do fórum social têm aversão aos partidos ou aos governos. Em todas as edições ocorridas no Brasil, as organizações promotoras, dentre elas as ONGs, realizaram atividades privilegiadas e com o destaque que mereceram o Presidente Lula e a Presidenta Dilma. Num diálogo franco e fraterno. Mas onde não houve espaço para idolatrias ou endeusamentos. Nem me
parece ser o caso ou o desejo deles.

 

Camarada Emir, não me parece que o fórum social esteja tão em crise quanto imaginas e nem que as ONGs tenham tanto poder sobre ele quanto desejas. É verdade que a dinâmica do fórum social vive sérios problemas de governança e de financiamento. Não poderia ser diferente. No Brasil, por exemplo, temos sete centrais sindicais, cada uma se referenciando em um partido político. É a mais pura demonstração de que construir a unidade no seio da classe trabalhadora não é tarefa fácil. Imagine tentar construir esta unidade internacionalmente com tantos movimentos e atores diferentes. É um desafio muito maior. Por isso, não coloque nas costas das ONGs a culpa de problemas que estão muito além delas. Talvez, camarada Emir, tua crítica seja a um ator em particular ou a um adversário em específico, mas aí, teu ódio obscurece tua inteligência. Continuo te admirando por todas as outras coisas que pensas e que fazes, mas apelo para que reveja tua opinião sobre o fórum social e as ONGs, teu equívoco te empobrece.

 

Um fraterno abraço.

 

Mauri Cruz, diretor estadual da Abong no Rio Grande do Sul

 

Filiado ao PT Porto Alegre

 

mauricruz@idhes.org.br



Veja aqui artigo de Emir Sader.

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