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52806/11/2014 a 04/12/2014

Mulheres agricultoras transformam suas vidas no Semiárido brasileiro

“Queria ser poetisa pra tudo poder escrever

Em rima, versos, cordéis, que todos pudessem ler
E dar boas gargalhadas na alegria de viver
Hoje eu quero escrever, sobre um bicho em extinção
Era muito autoritário, de leste, oeste e Sertão
Com desculpa esfarrapada desde o tempo de Adão
Uma cultura que houve sem Deus e a criação
Quando a desobediência fez cair em tentação
Os dois comeram os frutos, mas o que disse Adão?
Foi a mulher quem me deu, ela quem primeiro viu!
Jogou toda a culpa em Eva, foi um verdadeiro breu.
Eva não se defendeu e toda a culpa assumiu.”


Luzia Bezerra da Silva, Itatiuba, Paraíba

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É também através dos versos, como este acima, que dona Lita, como é conhecida a agricultora Luzia Bezerra Silva, da comunidade Serra Velha, em Itatiuba, na Paraíba, reflete sobre a situação de opressão que muitas mulheres ainda sofrem e a importância de que elas não se deixem ser tomadas por essa situação. Reflexão também feita pela agricultora Maria Madalena Oliveira Leite, de Montes Claros, em Minas Gerais, conhecida como dona Nenzinha. “A gente às vezes trabalha mais que os homens porque sabemos que o que a gente faz hoje não é só ajuda, a gente trabalha em tudo. Tem gente que diz que mulher é fraca, mas não tem isso de fraqueza não, mulher é forte e inteligente”, diz.

Mulheres como dona Lita e dona Nezinha conhecem seus direitos e passam a se reconhecer como agricultoras experimentadoras e protagonistas da construção da convivência com o Semiárido. Mas nem sempre foi assim e os desafios ainda são muitos para serem superados. No entanto, esse cenário vem mudando, e isso se dá pela iniciativa e luta das próprias mulheres do Semiárido. “As agricultoras experimentadoras são referências que já tiveram vidas negadas, mas que foram quebrando a negação e descobrindo o mundo a partir do conhecimento delas que são hoje experimentadoras, são guerreiras do Semiárido e suas histórias são importantes para outras mulheres”, explica Cristina Nascimento, coordenadora da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado do Ceará.

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A luta diária das mulheres na construção e desenvolvimento de suas regiões não é nova, nem de agora. As mulheres sempre tiveram um papel importante na construção da sociedade. No Semiárido, por exemplo, elas sempre foram as principais responsáveis pela garantia da água e alimentação da família. Era das mulheres o trabalho de buscar água nos barreiros e açudes, muitas vezes acompanhada das crianças, enquanto os homens trabalhavam no roçado. Essa realidade do Semiárido tem se transformado, principalmente pela organização das agricultoras e agricultores da região e de organizações da sociedade civil que tem convivido com o Semiárido ao invés de combater à seca. Esse processo tem colocado em prática, por exemplo, a ação da ASA, de descentralização e estocagem da água na região, a partir de tecnologias sociais, como as cisternas de placas, e da valorização do conhecimento das agricultoras e agricultores. “É importante pensar a perspectiva da mulher e de sua importância para a o Semiárido, mas também de extrapolar a relação da importância a partir apenas das tecnologias, de pensar na relação das pessoas com o seu lugar. As mulheres no seu processo produtivo muitas vezes não são reconhecidas. Tem jornadas triplas de trabalho, pois acordam mais cedo, cuidam do quintal, da casa, do roçado, dos animais e às vezes elas mesmas não enxergam tudo isso como trabalho”, pontua Cristina.

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Com essa nova realidade, as mulheres continuam exercendo um importante papel no desenvolvimento da região. Experimentam formas e práticas de convivência com o Semiárido a partir de sua produção, do beneficiamento dos alimentos, da comercialização, e percebem a importância de sua organização. “Elas vão percebendo seus conhecimentos e experiências que passam de geração em geração. Quando chegam as inovações de tecnologias, como a primeira água para consumo e a segunda água para produção de alimentos, isso se conecta com as experiências e conhecimentos das mulheres e causa mudanças incríveis para a vida delas”, diz Glória Araújo, coordenadora da ASA pelo estado da Paraíba.

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O quintal das casas é um dos lugares em que as mulheres estão mais presentes, é neles que as mulheres experimentam suas práticas e inovações. Plantas medicinais, hortaliças, pequenos animais, flores, entre outras produções compõem os quintais. Mas elas não trabalham apenas nesse arredor de casa enquanto se faz o almoço. Elas trabalham e se dedicam ao quintal também porque buscam os alimentos saudáveis para toda a família, porque tem esse cuidado com a alimentação. “Eu fico feliz em saber que toda a minha família tem uma alimentação saudável, mas não só a gente, mas minha comunidade, minhas vizinhas, minhas amigas da cidade que compram minhas hortaliças”, conta dona Lita.

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Mas para conquistar essa felicidade em partilhar sua produção, dona Lita teve que lutar contra muitas adversidades. E foi experimentando, através de um sistema de irrigação por gravidade, que ela mesma produziu, e com a água armazenada na cisterna-enxurrada, que passou a produzir suas hortaliças e a partilhar com as vizinhas, até enxergar o potencial de comercialização que tinha. Mas teve que driblar o preconceito do marido, que não queria ver a mulher na feira, que para ele era lugar que só tinha homem. “Ele é cortador de carne e tem um box na feira. Um dia peguei meus sacos cheios de hortaliças, pedi pra minha menina fazer um cartaz com o nome produtos orgânicos e cheguei lá. Ele disse que eu num ia fazer isso, mas eu devagarzinho comecei a vender. Hoje ele também vende as hortaliças na feira”, conta dona Lita, exemplificando que o preconceito com o trabalho da mulher ainda é muito forte.

A experimentação vem da prática, mas não só da agricultura. As agricultoras não só inovam buscando formas de conviver com o Semiárido através da produção, mas também experimentam do ponto de vista da organização. “Todas as conquistas que tivemos no campo das políticas e direitos foram a partir da luta das mulheres. É importante refletir com elas da importância do espaço coletivo. Elas se encontram, elas veem que o problema de uma é de outra. Se junta em torno de uma causa que não é minha é da outra. O espaço coletivo é fundamental para a reafirmação dos direitos a exigência de efetivação de direitos”, relata Cristina.

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Para a agricultora Luciana da Silva, do Rio Grande do Norte, a organização contribui e fortalece os processos produtivos. “Eu casei com 14 anos e a vida só começou a melhorar quando eu entrei e me organizei na associação. Porque aprendi com as outras mulheres como é importante nós estarmos em todos os espaços produtivos da propriedade criando e experimentando: na horta, no roçado e na criação. Depois que comecei a dominar a produção a vida melhorou muito passamos a cultivar para comer e comercializar”, Luciana da Silva, agricultora do Rio Grande do Norte.

A troca de conhecimentos entre as agricultoras é muitas vezes o estímulo às experimentações e ao processo organizativo. Os momentos de intercâmbios de experiências, por exemplo, metodologia usada pela ASA, contribui para o fortalecimento desse conhecimento. “A gente vai fazendo os intercâmbios, vai trocando as experiências e vai colocando em prática, vai experimentando. É por isso que a gente é agricultora experimentadora”, conclui dona Nenzinha.

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Para Glória, os intercâmbios são momentos de diálogo de agricultora pra agricultora em que se enxerga a força do que está fazendo. “Essa troca busca também o aperfeiçoamento daquilo que elas estão inovando, seja no manejo da água, na criação de animais, em como lidar com os períodos de estiagem. Trocam conhecimento da valorização do patrimônio genético do Semiárido brasileiro, como com as sementes. Muitas são guardiãs e não se percebem, elas vão se sentindo fortalecidas a partir do diálogo de agricultora pra agricultora”, explica Glória.

Encontro Nacional

Mais de 100 mulheres agricultoras de todos os estados do Semiárido estiveram reunidas nos dias 23 e 24, em Lagoa Seca, na Paraíba, durante o I Encontro Nacional de Agricultoras Experimentadoras, com o lema Celebrando conquistas na trajetória da ASA. O objetivo do encontro era de valorizar e dar visibilidade ao conhecimento e as capacidades das mulheres agricultoras e suas formas de inserção na organização do trabalho da agricultura familiar, além de construir coletivamente caminhos para superação das situações de desigualdade. As agricultoras voltam para suas comunidades após o encontro mais fortalecidas e com novos conhecimentos, a partir da troca de experiências que vivenciaram.


Fonte: ASPTA

 

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