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53801/10/2015 a 05/11/2015

“Nós construímos este país debaixo de chicotadas e isso não é reconhecido”

O racismo presente na mídia e nas escolas contribui para ‘apagar’ as tradições e colabora para os ataques aos terreiros e aos/às adeptos/as de religiões de matriz africana

 

Por Marcela Reis

 

O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2010 contou aproximadamente 600 mil praticantes do Candomblé e da Umbanda no Brasil, sendo estes/as os/as fiéis mais atacados/as. De acordo com dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, 22 das 53 denúncias de vítimas de intolerância religiosa que o Disque 100 (número do Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos) recebeu entre janeiro e julho de 2014 foram deste grupo.

 

Embora as religiões de matriz africana – que são inúmeras e não só o Candomblé e a Umbanda – sejam praticadas por 0,3% da população, sendo esse número quase todo de negros/as, a discriminação dos/as seguidores/as ainda é enorme.

 

Para Mãe Bia de Iemanjá, educadora social da ONG CAMP, descendente do povo Banto e praticante do Candomblé, o ‘apagamento’ das religiões de matriz africana está totalmente ligado ao racismo. “De onde vem o batuque, a dança com o corpo, a invocação dos santos? De nós, negros. Mães de santo são assassinadas, nossos templos invadidos, a cultura negra invalidada.”

 

“As palavras ‘negro’ e ‘negra’ vêm acompanhadas de todo tipo de intolerância religiosa e preconceito. Carregamos o fardo das atrocidades cometidas pelos brancos no passado. E sendo mulher, negra e mãe de santo, o preconceito só aumenta”, acrescenta a educadora.

 

Ogan Marmo, coordenador da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e assessor de projetos da ONG Criola, que é também praticante do Candomblé, acredita que o imaginário social e as representações negativas das religiões de matriz africana construídas na sociedade brasileira colocam essa tradição religiosa em um lugar de menor prestígio do que outras tradições. “Este imaginário negativo sobre as religiões afro-brasileiras que as denomina de religiões do mal, charlatanismo e feitiçaria tem contribuído para o acirramento de muitos conflitos e intolerância religiosa em diversos espaços importantes como na escola, no trabalho, nos serviços de saúde, nos meios de comunicação, na mobilidade social”, afirma.

 

O estudo Presença do axé - Mapeando terreiros no Rio de Janeiro, realizado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e publicado em março de 2014, contabilizou as agressões aos/às adeptos/as das religiões de matriz africana: dos 847 terreiros listados, 430 foram alvo de discriminação e 132 foram atacados por fundamentalistas cristãos. Mais da metade (57%) em locais públicos, a maior parte nas ruas (67%).

 

Mãe Bia de Iemanjá explica que o preconceito que os/as negros/as sofrem é duplicado por serem adeptos/as dessas religiões. “A religião em si abraça a todos, sejam negros ou brancos, mas a tradição é nossa, vem da Mãe África”, lembra.

 

A liberdade de crença é uma das garantias do Estatuto da Igualdade Racial, que completou cinco anos em julho. A lei protege as religiões de matriz africana e os locais de culto. Porém, mesmo com respaldo legal, há cada vez mais casos de violação desse direito.

 

Racismo na escola

 

A Lei 10.639, que institui o ensino de história e cultura afro-brasileira e de relações étnico-raciais nas escolas, foi sancionada em 2003, mas ainda não começou a ser colocada em prática. Ela faz parte da atualização da Lei de Diretrizes e Bases –legislação que regulamenta o sistema educacional público e privado do Brasil –, que ainda não foi implementada.

 

“Ainda estamos discutindo e lutando para que a lei seja implementada, mas temos que lembrar que o racismo institucional opera também no espaço da educação, dificultando a implementação”, defende Ogan Marmo.

 

Mãe Bia de Iemanjá acrescenta que a lei ser efetiva depende muito do interesse dos/as educadores/as e da escola. “O negro é conhecido como escravo, ninguém quer falar dos reis, rainhas, danças, tradições e grandes nomes. Os educadores não foram formados para isso e a culpa é do sistema racista que ensinou a história errada.”

 

Mídia

 

O estudo de Alexandre Fonseca, Evangélicos e Mídia no Brasil, aponta que no começo do século 21, 80% da programação religiosa na TV nacional era evangélica. Cinco canais católicos e cinco canais evangélicos somavam, ao todo, 90 horas semanais de programas religiosos. O cenário atual ainda não está muito diferente: parte significativa do oligopólio televisivo está nas mãos de organizações religiosas cristãs.

 

“As concessões dos canais de TV são dadas pelo Estado, que é laico. Então, dar espaço só para as religiões cristãs vai na contramão da Constituição”, defende Ogan Marmo. Para ele, grande parte dessas emissoras utiliza esses espaços para a evangelização das pessoas e a prática de intolerâncias.

 

“Nós, negros e praticantes de religiões africanas, não temos espaço nos meios de comunicação. A mídia não está nem aí para o povo, só aliena e sustenta a opressão. Na mídia alternativa ainda conseguimos certo espaço, mas tem que abrir à foice”, conta Mãe Bia de Iemanjá.

 

Na maioria das vezes, quando essas religiões encontram espaço na mídia, este vem acompanhado de sensacionalismo e de maneira folclórica, anulando seu caráter de tradição. “Como sabemos que a mídia também é racista, que tipo de tratamento esperamos que ela dê a esse grupo religioso?”, indaga Ogan Marmo.

 

Tradição

 

A escravidão no Brasil, que durou quase 400 anos, influenciou a formação cultural da sociedade brasileira. As religiões afro-brasileiras foram se moldando de acordo com a localização geográfica e interação com outros grupos de pessoas não negras.

 

A miscigenação entre africanos/as, indígenas e europeus/ias é a base da formação da sociedade brasileira. Então, o legado de matriz africana é grande. “Nossa contribuição é enorme, nós construímos este país debaixo de chicotadas e isso não é reconhecido”, aponta Mãe Bia de Iemanjá.

 

Na época da escravidão, as religiões de matriz africana iam além da fé, serviam também como núcleos sociais e políticos. E, para Mãe Bia de Iemanjá, ainda são. “Terreiros ou casas de umbanda são quilombos de resistência e manutenção da tradição.”

 

Ogan Marmo explica que a cultura negra tem um papel fundamental na formação da sociedade brasileira, pois é uma cultura de luta, de resistência e é agregadora. “É uma cultura de inclusão e de movimento, que contribuiu e continua contribuindo em diversos campos como literatura, dança, música, gastronomia, nas palavras, nas práticas de cuidados.”

 

Mãe Bia de Iemanjá conta que nas religiões de matriz africana, a maior figura é a da mãe, ou seja, da mulher. “A Mãe África é o berço da humanidade e é nosso sol sagrado. Nossa grande figura é feminina, o que é bem diferente da sociedade patriarcal. A Mãe África ensina a amar, respeitar e escutar. Nossa espiral é de baixo para cima, diferente do sistema capitalista. Nossa Mãe olha por todos e vem a todos.”

 

Religiões cristãs

 

Mãe Bia de Iemanjá explica que há certa aproximação das religiões de matriz africana com a Igreja Católica. É possível o diálogo, mas com a Igreja Evangélica não. “Eles criaram até exército para nos destruir, acham que somos filhos do demônio e temos que ser exterminados. É uma afronta e não dá para dialogar.”

 

Os números do Disque 100 de 2014 também mostram que evangélicos/as são apontados em nove dos 22 registros de intolerância contra adeptos/as do Candomblé e da Umbanda.

 

“O número de terreiros vem crescendo no Brasil, apesar do censo do IBGE trazer alguns dados que considero que precisam ser melhor investigados por conta das dificuldades e do medo de represália que algumas pessoas de terreiros têm na hora de responder ao censo, o que faz com que se digam de outras religiões para terem maior aceitação na sociedade”, conta Ogan Marmo.

 

A escravidão impôs aos/às negros/as a religião católica e proibiu suas práticas tradicionais africanas e, até hoje, há resquícios disso. Mãe Bia de Iemanjá conta que “a lavagem cerebral que outras religiões fazem nos/as negros/as é enorme” e que ela ainda tem dificuldades de deixar as raízes católicas em razão dessa imposição. “O sistema é cruel. Ou você se identifica como negro ou você perde sua identidade. Somos um povo e, como tal, queremos ser respeitados, não tolerados. Quando vejo negros cultuando outras religiões, meu sentimento é que esse irmão se perdeu. E rezo por ele.”

 

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