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informes - ABONG

54607/07/2016

Diretora da Abong analisa luta por direitos à luz da atual conjuntura política brasileira

Para Iara Pietricovsky, a Associação tem o papel de disseminar aos seus pares pelo mundo luta intransigente por democracia

 

Por Amanda Proetti

 

A Abong conversou com Iara Pietricovsky de Oliveira, membro do colegiado de gestão do Inesc - Instituto de Estudos Socioeconômicos. Antropóloga, mestra em Ciência Política pela Universidade de Brasília e atriz de teatro desde 1969, Iara assumiu, há três meses, lugar na nova composição da Direção Executiva da Abong, eleita em Assembleia em março deste ano.

 

A diretora falou sobre o impacto da conjuntura política brasileira nas relações do País com o cenário global, a postura e influência da imprensa mundial no processo de impeachment da presidenta Dilma, sobre o que ela chama de “endireitização” da América Latina e ainda sobre atuação do campo de defesa de direitos e cooperação.

 

Confira a seguir a entrevista na íntegra.

 

 

Abong - Como o Brasil se insere no contexto da política internacional hoje e quais são os possíveis impactos em suas relações políticas com os demais países num cenário de concretização do impeachment da presidenta Dilma?

 

Iara Pietricovsky - Para responder a essa pergunta, é importante lembrar que o governo Lula, especialmente, inaugurou um tipo de política e atuação no âmbito internacional que ele chamou de ativa e altiva, quando o governo brasileiro, pela primeira vez na história, conseguiu se colocar como um global player, um país reconhecido internacionalmente como parte necessária na tomada de decisão no âmbito internacional. O Brasil, na formação dos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], por exemplo, teve um papel de rebalancear a ordem mundial, mas também teve importância na discussão interna do bloco. Também foi fundamental em relação à Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e ainda no fortalecimento do Mercusol [Mercado Comum do Sul], em outros níveis que não só o da equação tarifária. A política Sul-Sul levou em consideração a importância da África. Enfim, o Brasil foi muito proativo. No período Lula, o Brasil conseguiu se consolidar como ator global pro bem e pro mal, o que significou a realização de pactos que não eram bons do ponto de vista da sociedade civil e ambiental. Dilma já vem menos visionária e dá muito menos importância a essa posição do Brasil. Ela esqueceu um pouco o fortalecimento da região, se afastou desses espaços e priorizou mais negociações com Europa e Estados Unidos. Mas, a gente pode dizer que o Brasil, até o momento em que a Dilma estava no governo, tinha uma visão democrática e permanecia ativo no cenário internacional. Nesse pouco tempo de implementação do seu afastamento, esse cenário muda completamente. Nenhum país reconhece esse governo interino. Haja vista as declarações expressas da OEA [Organização dos Estados Americanos], do parlamento europeu, de não reconhecimento da legitimidade do governo Temer. A escolha do novo ministro das Relações Exteriores demonstra que a condução será totalmente subalternizada. Ou seja, o Brasil vai caminhar pro rumo oposto, de submissão aos EUA, com uma visão arrogante e uma desconstrução total nas relações com a África. O posicionamento do [José] Serra demonstra uma visão conservadora e introjetada de uma perspectiva de país colonizado que deve se submeter às regras ditadas pelos países hegemônicos no plano internacional. A resposta à sua pergunta: são impactos arrasadores que mudam substantivamente a posição do Brasil na permanência desse governo ilegítimo.

 

O processo de impeachment da presidenta Dilma tem sido criticado pela imprensa internacional. Como isso pode influenciar os rumos do processo, em sua opinião, e o que isso mostra com relação à posição que ocupa o Brasil atualmente no cenário global?

 

Nós temos que colocar tudo isso num contexto. Esse golpe não é da ala conservadora, mas da extrema direita que se reunifica e passa, por várias razões, a hegemonizar, na figura do Eduardo Cunha, as tendências de centro, que eram definidas pelo PMDB. Esse fenômeno da ‘endireitização’ é mundial e reflete um fenômeno do capital. O resultado é um caminho mais autoritário, individualista, o fechamento de fronteiras sob o argumento do terrorismo para justificar a redução do campo dos direitos. O Brasil e a América Latina vêm demonstrando serem parte dessa tendência. E não só o Brasil. Golpes têm acontecido na região latino-americana. É importante registrar isso. Claro que o mundo mudou. O mundo passado era composto de uma esquerda e uma direita que tencionavam de alguma maneira. Hoje tem mais nuances. Os processos democráticos que se iniciaram no pós segunda guerra e deram origem ao Estado de Bem Estar na Europa, aqui, começaram bem mais tarde. Vivenciamos muito pouco, mas envolveu muita gente. Muita gente começou a pensar melhor o lugar que estava, criou-se muito mais massa crítica. O Brasil, sendo um país global que disseminou política a ser replicada no cenário global, também construiu identidade e relações positivas com vários atores do cenário internacional. Acho que isso é o pano de fundo para uma reação rápida da imprensa mundial a fim de garantir essa ideia de que no Brasil, a extrema direita estava conseguindo fazer um golpe, o que os cientistas políticos trazem como novo formato de golpe caracterizado pela institucionalidade. O fato de o Brasil estar mais reconhecido no plano internacional permitiu essas reações rápidas e o potencial de alimentar os veículos acerca da realidade que está acontecendo aqui. Essa é a novidade. E por isso também a imprensa internacional foi rapidamente informada, primeiro a imprensa mais comprometida e depois a grande imprensa de caráter mais democrático - Le Monde, The Guardian, Al Jazeera, CNN - conseguiu dialogar e criar uma ponte para apresentar a realidade mais em linha com os fatos do que a imprensa brasileira. Outro elemento fundamental foi a internet, que imediatamente conseguiu alimentar suas redes e propagar o golpe contra a democracia brasileira. Essa conjunção de situações fez essa imprensa se importar de fazer sua própria versão. Acho que essa imprensa pode e tem influenciado profundamente. Devemos permanecer nas redes, a Abong e os movimentos devem se manter e alimentar suas posições para constrangerem esses grupos.

 

Fale sobre o fenômeno de 'endireitização' da América Latina e como ele se insere numa perspectiva global.

 

A América Latina é uma periferia do capitalismo. Eu tenho uma visão de que a gente sempre atuou e reagiu ao mundo com muito pouca soberania. O que estamos vendo hoje é que essa política de conciliação que o Lula desenvolveu em seu mandato e que a Dilma continuou para abrir todos os benefícios ao ricos a fim de garantir a possibilidade de trabalhar políticas sociais e de reafirmação de direitos voltadas para mulheres, indígenas, negros, etc. foi uma política adotada em todos os países da América Latina. Com mais ou menos confronto, mas foi permanente. Esse cenário de guerras está produzindo essa ideia de fechar as fronteiras e permitindo que os países mais conservadores usem isso como justificativa e a direita rapidante se organiza, ela tem capital e é muito rápida. As sociedades na Europa sofreram o inverso e despertaram para a perda de direitos. Na América Latina, a democracia é menos sólida na consciência das pessoas. Mas, o elemento surpresa foi a nossa capacidade organizativa, a luta dos movimentos e da sociedade brasileira na perspectiva de direitos.

 

Como a conjuntura política atual impacta a atuação das Organizações da Sociedade Civil do campo da defesa de direitos e bens comuns? Qual a relação desta conjuntura e seu impacto em relação ao cenário da cooperação internacional? Que agendas se projetam neste cenário como cruciais para a luta da sociedade civil brasileira? E para a Abong?

 

Em se tratando de conjuntura para as OSCs [Organizações da Sociedade Civil], o cenário vai ficar mais difícil do ponto de vista político, da nossa capacidade de intervir para dialogar com um governo que a gente não legitima. Dialeticamente, pode ser uma oportunidade de a gente se rearticular em pautas mais comuns. Acho que começamos a ocupar os espaços das nossas identidades políticas. Não somos mera fragmentação, mas quando se tem um comum, exige-se uma inteligência política que a esquerda, em geral, não tem. Espero que sejamos capazes de olhar com mais inteligência, que possamos nos unificar no possível para enfrentar a barra pesada que vem por aí. Do ponto de vista da cooperação internacional, a gente vem de um cenário de transição do âmbito muito menos institucional para uma cooperação mais de projetos e de identificação de parceiros por competência de realização daqueles projetos que a cooperação definia como sua agenda. Apesar da tendência conservadora da Europa, será que isso significará uma reunificação dos agentes mais progressistas que movimentem as agências de cooperação para também retomarem as relações com as OSCs e movimentos do Sul para voltar a fortalecer esses segmentos e, portanto, ajudar na luta pela reafirmação democrática e dos direitos? Essa é uma pergunta que eu faria. Em especial, as agências de cooperação mais ligadas às igrejas, ao campo católico, as agências laicas que têm relação mais com governos ou com a ala mais democrática desses países que participam do auge oficial a desenvolvimento deveriam mudar a estratégia na direção dessas organizações. Nós temos que ter uma estratégia política de reconstrução colocando a democracia e os direitos humanos como politicamente essenciais não só na região do Sul como do Norte. A gente tem que reconstruir estratégias, nossas lutas para a democracia para reconstruir elos de apoio mútuo no fortalecimento e recomposição do campo das OSCs. Num cenário de endireitização, a gente precisa refundar essa estratégia. Agora, a gente também tem que entender que nós trabalhamos sempre com cenários muito complicados. Estamos submetidos a riscos políticos. Se o Temer continua, acho que o cerco a nós vai se fechar muito. Por isso, acho que será fundamental ainda mais essa reunificação. Tem que ter uma visão estratégica muito mais sofisticada a fim de recompor com esse cenário da cooperação. Acho que Abong, nesse cenário, tem uma responsabilidade fundamental porque, sendo uma associação de ONGs do campo progressista, que tem na sua missão fortalecer esses agentes da radicalização da democracia, dos direitos humanos, da desconstrução dessa desigualdade que estrutura a sociedade brasileira, que é fundamentalmente a missão e compromisso da Abong, ela vai ter um papel fundamental no sentido de educar, de trazer pras suas associadas esse compromisso, de despertar nas associadas e no campo. A gente vai chegar num momento em que, ainda que seja delicado para algumas associadas, teremos que falar de aborto. A gente vai ter uma missão de sensibilização maior, de esclarecimento de que essa é uma luta que vai pra além, uma luta vinculada a desconstruir a opressão contra nossos corpos nos espaços urbanos e rurais. O desrespeito aos povos quilombolas, aos setores camponeses, todos esses setores que propõem esse modo de vida pro bem viver, pro fortalecimento dos bens comuns, a gente tem que ser capaz de defender os bens comuns e os direitos humanos. Como eles são indivisíveis, não dá pra ser só um pouquinho. O maior índice de morte de mulheres está vinculado aos abortos clandestinos. Acho que essa missão é da Abong pelo seu caráter e natureza. A abong tem o papel de disseminar aos seus pares pelo mundo essa visão e essa luta intransigente por democracia e por direitos humanos.

 

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