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informes - ABONG

54801/09/2016

OPINIÃO | FSM 2016: nem diferente, nem similar!

Cerca de 35 mil pessoas de 125 países estiveram em Montreal, no Canadá, para a primeira edição do evento num país do Norte. Os debates trouxeram novidades e desafios antigos, como aumentar a visibilidade e capacidade de mobilização no mundo

Por Damien Hazard*

Um passeio no FSM 2016

O FSM 2016 acabou. Depois de 6 dias, militantes e ativistas de 125 países retornaram de Montreal, no Canadá, para seus respectivos países. Os primeiros dados divulgados pelo comitê local organizador no início da reunião do Conselho Internacional no dia 15/08 mencionam 35 mil  pessoas presentes no período do evento. A marcha deu o tom da abertura: começou tímida, como uma interrogação de como seria essa primeira edição do FSM no coração do capitalismo norte-americano. Mas o clima foi crescendo, na medida em que múltiplos grupos se juntaram, com suas faixas e bandeiras, suas roupas e fantasias, suas vozes e reivindicações, suas músicas, encenações e danças, representativas de uma real pluralidade de movimentos, culturas e causas, e expressivas da ideia de uma cidadania planetária. O encerramento da marcha foi na Praça das Artes (Place des Arts) com um belo show, que refletiu essa diversidade reunida, na plateia e no palco: juventude, mulheres, povos autóctones do Canadá, sindicatos e trabalhadores/as, povos curdos e palestinos, do oriente médio, do Magrebe, do oeste-africano, da Europa, da Ásia, da América Latina, do Brasil contra o golpe, movimentos ambientais, de segurança alimentar e de economia solidária, movimento antinuclear, pessoas com deficiência, entre outros. Cerca de 15 mil pessoas estavam presentes.

Nos dias seguintes, de 10 a 12 de agosto, foram realizadas no período da manhã e no início da tarde as atividades autogestionadas, propostas pelas organizações participantes. Como nas edições anteriores do FSM, o número foi elevado, e muitas delas ficaram esvaziadas, limitadas aos/às próprios/as organizadores/as e colaboradores/as. A maior parte das atividades ocorreu nos edifícios de duas grandes universidades (UCAM e Mac Gil), ambas no centro, porém distantes uma da outra.

Nas três tardes, ocorreram 22 assembleias de convergência, na sua maioria cheias, com uma média a cada dia avaliada em 5 mil pessoas participantes. Dentre os temas tratados, podem ser citados: a Defesa da Democracia, promovida pelo coletivo brasileiro de organizações; a Campanha BDS de boicote a Israel; Justiça climática e transição energética; Direito à cidade e à terra; Migrações; Desarmar a finança: justiça fiscal; Transição pós-capitalismo: comuns; Direito à educação; Comércio Justo; Futuro do FSM. No final das tardes, nove grandes conferências foram realizadas, organizadas pelo comitê local. Ocorreram grandes momentos, carregados de conteúdo político, de emoções e de solidariedade, como na conferência sobre as lutas das mulheres, com a presença das filhas da militante feminista e ambientalista hondurenha Berta Cáceres, assassinada no ano passado. Ou na conferência sobre o papel e os objetivos da campanha BDS, com diversas intervenções, como de Omar Barghouti, co-fundador da campanha BDS, ao vivo da Palestina (território de onde está impedido de sair pelas autoridades israelenses sob pena de não poder mais voltar).

No dia 13, os resultados das convergências foram apresentados na “Ágora das Iniciativas”, um tipo de “convergência das convergências”, que levou à produção de uma lista de uma centena de ações para compor uma agenda comum. O lugar era um parque, um pouco mais distante, e estava chovendo, o que prejudicou a participação.

Paralelamente ao FSM 2016, ocorreram um Fórum Parlamentar, com 350 participantes, um Fórum do Mundo sem Nuclear (100 participantes), um Fórum Teologia e Libertação (400 participantes), um encontro do Fórum Mundial de Mídia Livre (300 participantes), um Fórum das Primeiras Nações (100 participantes) e um Fórum das Crianças (60 participantes). Arte e cultura também estiveram presentes ao longo de todo evento, com mais de 200 atividades, nas ruas, praças e diversos espaços da cidade.

 

O conservadorismo da grande mídia e do governo canadense

Assim como nas estimativas de participantes divulgadas pelos/as organizadores/as ou pela polícia em manifestações em qualquer lugar do mundo, as opiniões divergem sobre os números do FSM 2016. O jornal Metrô, de grande circulação e distribuído gratuitamente em Montreal, colocou dúvidas sobre os números divulgados pelo comitê organizador, quando observou a presença de uma centena de pessoas no show de encerramento, num dia de chuva, no Parque Jary. Comparou o FSM com a Parada Gay, realizada no mesmo dia, com a presença de 10 mil pessoas, inclusive a do primeiro ministro, Justin Trudeau. A imprensa do Quebec, província onde está situada Montreal, divulgou diariamente dados sobre o Fórum, mas geralmente de forma factual e tendenciosa. Mesma tendência para a grande mídia internacional que, por sua vez, salvo algumas exceções, permaneceu tímida ou silenciosa sobre o evento. Em muitos artigos, dúvidas eram emitidas sobre os problemas e dilemas enfrentados pelo FSM, e sua pertinência era questionada.

O maior destaque do evento na grande mídia foi a negação de vistos pelo governo canadense para centenas de ativistas de “países do Sul”, tais como República do Congo, Benim, Togo, Gana, Nigéria, Mali, Burkina Faso, Marrocos, Irã, Nepal, Haiti, Brasil, Palestina, entre outros. O comitê organizador, que expediu 2 mil cartas-convite para estrangeiros/as, já havia recenseado 200 pessoas nesta situação no início do evento, mas é provável que esse número atinja mais do que o dobro. O caso mais emblemático foi da feminista, ex-ministra do Mali e candidata a Secretária geral das Nações Unidas, Aminata Traoré, famosa por seus posicionamentos, por exemplo por ter se oposto a intervenção militar da França no Mali, por denunciar o papel nefasto do FMI e do Banco Mundial para o desenvolvimento da África ou ainda a falta de reciprocidade na mobilidade das pessoas entre o Norte e o Sul. Um recurso foi enviado pela militante para o governo canadense, que confirmou a sua decisão de recusar o visto. O novo governo conduzido pelo liberal Justin Trudeau, que derrotou nas eleições de outubro de 2015 o primeiro ministro ultraliberal em exercício há 10 anos, evidenciou com esta decisão o quanto deve ser relativizado o caráter progressista que lhe é atribuído. “A mensagem é que o hemisfério norte, que dá lições de democracia, pisa sobre seus próprios princípios”, declarou Aminata Traoré para o jornal local Le Devoir.
 

Novidades e mesmices no processo do FSM

A presença internacional, já afetada pelos altos custos da viagem e estadia em um país do norte, acabou sendo limitada, se comparada a edições anteriores do FSM em países ditos do Sul: provavelmente menos de 2 mil pessoas. A delegação brasileira por exemplo contou com a presença de cerca de 60 pessoas, contra mais de 200 pessoas no FSM 2015 em Túnis.

Também foi limitada a presença de movimentos e organizações do Canadá de língua inglesa e dos Estados Unidos, assim como de povos indígenas da América do Norte. Mas a juventude, principalmente estudantil, os movimentos de Quebec e o meio artístico de Montreal estiveram presentes. O comitê organizador local, formado em maior parte por jovens, desenvolveu uma metodologia participativa de articulação de movimentos do Quebec, com comitês temáticos autogestionados, e tentou aprimorar os processos de convergência do evento. O evento foi bem organizado, apesar do orçamento limitado, e contou com uma infraestrutura adequada e o trabalho prestativo de 1 mil pessoas voluntárias.


Foi um evento global mas com uma forte dimensão local. A frágil mobilização de organizações nacionais e internacionais deve ser relacionada com a resistência de algumas organizações de Quebec e principalmente com o distanciamento da maior parte do CI no processo de construção do evento. A chamada tardia do CI para o FSM 2016 assim é significativa, sendo divulgada apenas em abril 2016, menos de cinco meses antes do evento.


Por outro lado, faltou um foco político no FSM 2016 capaz de conferir uma maior expressão “do” e “no” cenário mundial. As duas edições anteriores do FSM em Túnis foram fortemente influenciadas por questões políticas ligadas ao contexto da região: o FSM 2013 mergulhou no entusiasmo do contexto pós-revolucionário; dois anos depois, o FSM 2015 refletiu as preocupações em relação aos processos democráticos em curso no país (depois da vitória nas eleições dos liberais na Tunísia), e com a situação social e política na região, caracterizada por guerras civis, pela militarização dos regimes ou por atos de terrorismo de grupos extremistas antidemocráticos.


Em muitos aspectos, a situação do mundo em 2016 agravou-se, com um contexto de crise econômica, ambiental, política e social sem precedentes. As mudanças climáticas ameaçam a integridade dos ecossistemas e a sobrevivência das populações. A financeirização crescente da economia provocou o aumento das desigualdades em um patamar jamais atingido. Na maioria dos países, políticas de austeridade e de ajuste estrutural foram impostas para as populações, tendo como principais vítimas as pessoas mais vulneráveis. Em diversas regiões, o contexto de guerras provoca multidões de refugiados/as e migrantes. O combate ao terror tem suscitado reações violentas e falsas soluções, de rejeição e ódio, xenofobia e racismo, além de políticas patriarcais e colonialistas, desprezando a dignidade humana e os direitos democráticos e sociais.

O lema do FSM 2016 (“Um outro mundo é necessário, juntas e juntos, torna-se possível!”), principal mensagem do evento, não alcançou a gravidade e a urgência dessas problemáticas vividas pelos povos no planeta. Muitas questões foram tratadas e resultaram em ricos encontros e processos de convergência, porém em salas e espaços fechados, sem conexão entre eles, e com pouca expressão no conjunto do Fórum, muito menos fora dele. A própria questão da democracia, ameaçada em diversos países como no Brasil, não falou tão alto quanto nas edições anteriores.


Por outro lado, a “Ágora das Iniciativas”, no último dia, consistiu em um conjunto de apresentações de propostas de ação, destinada a compor uma estratégia global. Seria ingênuo pensar que isso significou um processo de convergência das convergências. Além da expressão das lutas, um processo de convergência dos movimentos começa com o reconhecimento pelos demais da legitimidade da atuação dos movimentos e povos e chama para manifestações de solidariedade.


Na ausência de um espaço que permita isto, muitas vozes voltaram a se expressar na reunião do Conselho Internacional. Com base na carta de princípios de 2001, o CI não se posiciona sobre questões políticas, e delegou a responsabilidade para suas organizações membros para assinarem moções de denúncia contra a negação de vistos pelo governo canadense, e contra o golpe no Brasil. Também buscaram apoios e solidariedade os povos palestinos, com a campanha BDS de boicote a Israel, o povo curdo que luta por soberania, ou ainda movimentos democráticos da África do Norte, acuados entre o fundamentalismo religioso e políticas liberais em regimes de restrição aos direitos individuais.


O FSM permanece frente aos mesmos grandes desafios, como de aumentar a sua visibilidade no mundo e sua capacidade de mobilização, reinventar sua dinâmica política, estimular convergências entre movimentos e assim fortalecer a sua expressão e incidência política, contribuindo diretamente na definição de estratégias coletivas de superação do capitalismo. Para isso, é necessário olhar para novas dinâmicas e novos movimentos que passaram a se expressar dentro e fora do processo FSM, em diversas regiões do mundo: do Brasil e do Curdistão, passando pela Palestina, pelo oriente médio e pelos países das regiões norte e oeste-africanas, até a Espanha, o Quebec, a Índia e o Japão. Muitas delas vivenciam a diversidade de lutas e a transversalidade das causas e já estão em processos de convergência. Essas vozes e dinâmicas constituem um potencial importante para renovação do processo FSM, mas precisam ser ouvidas e integradas em um processo de diálogo e construção coletiva de uma estratégia global de ação. Esse outro FSM é possível?



*Coordenador da Vida Brasil, diretor estadual da Abong (Bahia) e membro do Conselho Internacional do FSM

Este é um espaço aberto à opinião de organizações associadas à Abong, organizações e redes parceiras e movimentos sociais que atuam pela garantia de direitos e bens comuns. Os artigos publicados não refletem o posicionamento institucional da Abong.

 

 

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