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Nota pública da ABONG sobre as enchentes no Nordeste

24/06/2010

Nos últimos dias, a desolação tomou conta das áreas de Zona da Mata dos estados de Pernambuco e Alagoas. As imagens que vemos, que nos espantam e entristecem, não são capazes de captar ou expressar a situação na qual as populações desses lugares vivem. Pequenas cidades, que nem parecem cidades aos olhos de tantos (as), jamais concebidas como espaço de bom viver para todas e todos. Cidades que produzem e reproduzem as desigualdades várias.

 

A chuva é comum nessa época do ano no Nordeste. Mas será que só as chuvas, mesmo com grande intensidade, podem explicar a tragédia que destruiu essas cidades? Será que essa catástrofe não era, como tantas outras, previsível?

 

Há sempre o antes da chuva. E no antes da chuva há o modo como as pequenas cidades são tratadas, prevalecendo a lógica da funcionalidade ou extensão para reprodução do capital, como no caso, para atender as grandes usinas. A lógica que rege os assentamentos urbanos é insustentável e irracional, pois desconsidera a dinâmica dos ecossistemas nas quais estão inseridos. Fatores como a total ausência de planejamento urbano, de investimento na prevenção de enchentes e deslizamentos, de desenvolvimento de planos de emergência para atender as vítimas e o fracasso da implementação do Estatuto das Cidades e da formulação de um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano realmente eficaz explicam a magnitude da tragédia.

 

As cidades que as chuvas desfizeram não tinham planejamento urbano adequado, saneamento, coleta de lixo, processos de drenagem, políticas públicas de habitação e regularização, nem políticas ambientais que evitassem desmatamentos e mudanças no leito dos rios. As cidades da Zona da Mata alagoana e pernambucana não tinham, antes da chuva, nada que pudesse evitar o acontecido, que não é conseqüência somente de um fenômeno da natureza, mas resultado da produção e reprodução das sociedades desiguais.

 

Diante de mais esse acontecimento, fruto do descaso e da ausência de políticas públicas de urbanização sustentável e enfrentamento das mudanças climáticas, a ABONG se coloca, ao lado da luta dos movimentos sociais por uma reforma urbana de abrangência nacional, além de se solidarizar com as população das cidades que, infelizmente, vivem agora os efeitos da catástrofe que nos últimos anos vitimou moradores(as) de muitos outros estados e municípios brasileiros.

 

Nossas associadas da região nordeste têm se mobilizado e se articulado com outras organizações para prestar ajuda emergencial, além de procurar contribuir com a formulação de políticas de reconstrução dessas cidades em outras bases, e a partir da participação da população. Na manhã de terça-feira, 29, uma primeira reunião aconteceu na sede da SOS Corpo, e seus resultados serão divulgados em breve.

 

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