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Rio: morador do Complexo do Alemão faz reflexão sobre operação das forças de segurança

02/12/2010

Mais de oitenta e quatro horas, ilhado no complexo do Alemão. Digo ilhado porque o dilema é o mesmo: opção por direitos e não a garantia de todos. Se optar pelo direito de ir e vir, não terei garantido o direito à vida e talvez nem mesmo à dignidade. Isso porque ao tentar sair há um grande risco de ser atingido por uma ‘bala perdida’, ou como já se popularizou: ‘bala achada’.

Não é ironia o que tento fazer, mas é chamar a atenção para o fato de que perdida remete a uma idéia de ninguém. É como se a bala não tivesse uma origem e como se a vítima não representasse tanto. Acredito que a expressão achada não representa muito, mas acredito que realmente deve ser ‘achada’. Achar os culpados e puni-los.

Quanto à dignidade, irá depender de quem é você? Como você chega às tropas e como você reagem aos procedimentos. O que se sabe é que elementos suspeitos serão autuados. Será que eu tenho esse perfil? E que todos ao saírem ou entrarem serão revistados. Entendo a necessidade? Não sei! Só sei que é desagradável.

As sensações são as mais variadas. Não se sabe o que se sente. Só o que se sabe é que não é bem esse
conto que contam. Heróis? Não é por aí. É fato que a polícia está fazendo seu trabalho, mas...

Claro que é obrigação. Segurança pública é um direito nosso. Digo nosso, sim nós: seres humanos, cidadãos brasileiros, moradores do Complexo do Alemão, enfim sujeitos de direito.

Ah, importante ressaltar: trabalhador. Sim, porque devemos fazer menção ao capitalismo, somos antes de tudo trabalhadores, fornecedores de mão de obra para a manutenção do sistema.

Digo isso porque já virou hábito: “sou trabalhador”. O cidadão reforça que só tem valor perante a sociedade ou o Estado, representado pelas forças policiais, devido a sua condição de trabalhador. Remetendo a todo um período histórico de implementação da democracia e das políticas sociais no Brasil, que não eram ainda universais.

Muito me incomodo com declarações públicas nas quais se diz: Efetuamos uma “retomada” do território do Complexo do Alemão para devolvê-lo aos moradores.

 

Como é possível falar em retomar o que nunca foi do Estado. Tal situação de domínio dessas áreas por narcotraficantes nada mais é que um reflexo da ausência do Estado durante todos esses anos.Um Estado que permitiu a ocupação irregular do território, tanto em nível de habitação, quanto do próprio domínio armado.

Veja bem, não estou aqui para criticar a ação do Estado. É como foi colocado no início: segurança é fundamental, é direito da sociedade (como um todo) e dever do estado.

É importante destacar que a sociedade infelizmente é bipartida, claro que podemos encontrar muitas subdivisões de nossa sociedade, mas focando para a favelização e os extremos socioeconômicos, por assim dizer temos de um lado uma sociedade e do outro uma “socienal”, ou seja, uma sociedade marginal. Afinal está sempre a margem das políticas públicas, com exceção, é claro, da política de segurança. Mais especificamente, as operações policiais.

Os integrantes da socienal é que sempre sofrem os reflexos da violência diretamente. O que ocorre aqui, na socienal, só incomoda a ‘sociedade’ porque o problema de segurança não se limitou ao perímetro do Complexo do Alemão. Conforme notícias da grande mídia a União Pelo Pó, feita entre facções, anteriormente rivais, para aterrorizar a cidade foi a grande causadora dos chamados ‘atentados terroristas’, nos quais ônibus, vans e outros veículos eram incendiados na cidade.Em decorrência dos ataques ocorre a paralização do setor público, comércio e das grandes empresas, rendendo ao Rio de Janeiro um prejuízo considerável em termos de economia e até de imagem (marketing). Um problema como este afeta “o resto do mundo”, principalmente, porque o Rio de Janeiro irá sediar grandes eventos como a Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016).

Retomando aos prejuízos financeiros... Como dito no início nosso país é capitalista. Portanto, o que entra na receita como prejuízo sempre acaba retornando, pois existem os reflexos pós-crise, como a inflação. E novamente além de perder a sociedade, perdem também os integrantes da socienal, que vão encontrar preços mais ‘salgados’ no mercado.

Para não me alongar nesse relato, quero deixar mais um exemplo da televisão: a repórter de uma das emissoras que está cobrindo o que está sendo chamado de ‘guerra ao tráfico’, ou títulos similares, disse que apesar da guerra nossas praias estariam lotadas em um típico domingo de sol. Como eu queria estar nessa praia, mas como é humilhante ter que ser revistado e apontado em cada entrada e saída da comunidade. Sem contar aqueles que sofrem algum tipo de agressão por parte dos nossos ‘heróis’, com a simples justificativa de que são ‘abusados’ ou ‘esquentadinhos’. Fica aqui uma pergunta: Eles não teriam que nos proteger? Ou retornamos aos primórdios de uma polícia, como a da Guarda Real que foi criada para proteção de patrimônios?

 

Sei que estou sendo duro, mas são reflexos de um histórico de descrença, ou descrédito no atual modelo de segurança que temos.

Talvez por achar que a verdadeira ‘guerra ao tráfico’ não deveria começar dessa maneira, pois para além de um simples ‘aparar de pontas’ deve-se atacar a raiz, o verdadeiro coração do tráfico de drogas e não necessariamente ‘o Areal’(Área do Complexo do Alemão aonde as tropas da polícia chegaram no dia de ontem), como noticiou a mídia. Finalizo pedindo desculpas pelos possíveis erros conceituais ou de ortografia cometidos ao longo desta dissertação, mas apesar de ter plena consciência da importância da escrita também acredito ser importante um relato sincero e talvez equivocado de uma realidade.

Isso porque viver as situações sem ter um distanciamento pode acarretar em uma visão legítima, porém superficial.

O grande objetivo desse texto é dar continuidade aos pensamentos de um personagem vivo e real do Complexo do Alemão que surgiu em 2007, motivado pela chamada ‘Mega Operação’. Seu nome fictício é Brito Andrade, criado pelo jovem Bruno Aguiar, que tenta pensar numa realidade possível, que seja igualitária e não uma sociedade que visa a garantia dos ‘direitos básicos’. Afinal nós não queremos o básico, apenas o que nos oferecem, mas queremos a garantia dos direitos que de fato temos direito.

 

Fonte: Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), relato enviado pela lista de discussão do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro

 

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