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Chico Whitaker dá entrevista sobre a importância do Fórum Social de São Paulo

01/02/2011

No ano em que completa 457 anos, São Paulo ganha um espaço de encontro e debate entre movimentos e organizações da sociedade civil para formulação de propostas para resolução de problemas da cidade: o Fórum Social de São Paulo. A idéia é que esses movimentos e organizações que lutam pela garantia de direitos na capital se articulem, ganhem força e tenham mais chance de ter as suas reivindicações atendidas.

 

“Tem um monte de gente na cidade de São Paulo trabalhando pela melhoria das condições de vida. Mas elas não somente não se conhecem como às vezes trabalham lado a lado até competindo, quando poderiam se juntar. O Fórum existe pra eliminar esse tipo de dificuldade e fazer crescer a força na medida em que elas podem se aglutinar”, esclarece um dos idealizadores do Fórum Social Mundial e membro do Grupo Facilitador do Fórum Social de São Paulo, Francisco Whitaker.

 

O Fórum é composto de duas fases: uma descentralizada (em que se encontra atualmente) e uma centralizada. Na primeira, as organizações podem inscrever atividades, realizadas em qualquer parte do território metropolitano, divulgadas no site do Fórum possibilitando que os participantes identifiquem convergências e se articulem.

 

A fase centralizada consiste em um evento, previsto para o segundo semestre de 2011 (data ainda a ser definida), em que as organizações também poderão inscrever atividades, mas que serão realizadas em um único espaço.

 

Em entrevista ao Portal Cenpec, Francisco Whitaker fala sobre a importância desse espaço para a cidade e o papel das organizações da sociedade civil na conscientização da população sobre o controle social.

 

O Irbem constatou um baixo nível de satisfação em relação à qualidade de vida na cidade de São Paulo. O Fórum pode ser considerado um movimento nesse sentido de melhorar a qualidade de vida em SP?

 

Sim, porque na verdade o Fórum é um espaço no qual aqueles que estão tentando melhorar a qualidade de vida ou reivindicando direitos para melhorar a qualidade de vida ou reivindicando junto ao poder público uma atuação melhor podem se encontrar, trocar experiências, aprender uns com os outros, identificar convergências e trabalhar juntos mais fortemente dali pra frente. No fundo, o Fórum é um instrumento para que a força da sociedade civil por uma cidade melhor – que nós dizemos que é possível, necessária e urgente – possa se concretizar.

 

A pesquisa do Nossa São Paulo também mostrou que as pessoas reconhecem como insuficiente o grau de participação política delas. Tem-se a impressão de que há uma apatia generalizada da população. Você acha que isso de fato é verdade ou é decorrente da desarticulação dos movimentos existentes na cidade?

 

Na verdade, a participação política é uma exigência muito dura para quem vive tentando sobreviver, que é a grande maioria da população. Para aqueles que já atingiram um nível de vida um pouco mais digno do ponto de vista material, tem as suas necessidades básicas atendidas. Mas assim mesmo até os mais ricos sofrem com os congestionamentos, as inundações, todos sofrem com o tempo perdido no trânsito, com a poluição, com tudo, é verdade que numa situação desse tipo as pessoas acabam se orientando para a satisfação de suas necessidades básicas, imediatas.

 

E existe também, por outro lado, na estrutura política brasileira, um longo aprendizado a se fazer sobre a possibilidade de se controlar socialmente o que fazem os governos ou de interferir como sociedade na solução dos problemas. Isso é um processo lento de aprendizado. As organizações que tentam fazer alguma coisa ainda são muito poucas nesse universo. É uma quantidade ínfima de pessoas que estão podendo se dispor para gastar tempo no interesse coletivo.

 

No fundo, quando o cara acaba se organizando, ele briga para que haja melhor transporte para área dele, escola, creche, luz, para que não haja enchentes… Para resolver esses problemas, ele se recolhe de novo. E inclusive com o sistema político, a estrutura, a Câmara [de vereadores] funciona mal, na linha do clientelismo, de políticos que estão lá mais pra tirar proveito pra si mesmo do que pra servir à cidade.

 

Então, ninguém acredita que valha a pena entrar nessa e gastar tempo e energia nisso. Por exemplo, a eleição de vereadores é pouquíssimo discutida; os vereadores transitam por aí fazendo promessas ou comprando votos e a população não acredita neles…Então, há um descrédito em relação à atividade política, há uma desconfiança generalizada e há objetivamente condições de vida que dificultam uma participação das pessoas para o interesse coletivo.

 

É preciso ser meio herói pra entrar e batalhar pelas coisas. Para batalhar pelas necessidades imediatas já é preciso ter muita força de vontade, muita persistência, quanto mais trabalhar, por exemplo, pelo novo plano diretor da cidade. Até porque grande parte da população não tem muito idéia de como o plano diretor poderia modificar as condições de vida na cidade, poderia ter eficácia nisso. Então, pra que vão entrar nisso se não sabem pra que serve?

 

Tem, portanto, um processo de participação política, de conscientização, de engajamento, que é lento. Quem entra nisso acaba percebendo que pode mudar, que tem força, que se unindo a outros terá possibilidade de mudar certas coisas. Mas é muito lento o processo. É absolutamente normal que as pesquisas apresentem esses resultados.

 

Como estimular essa participação cidadã?

 

Temos duas maneiras: de baixo pra cima e de cima pra baixo. De baixo pra cima são as nossas organizações sociais que precisam elevar o nível de consciência das pessoas sobre o poder que elas têm. A começar o poder de votar por melhores vereadores, melhores prefeitos. Mas em seguida o poder delas de protestar, de resistir, de exigir, de reivindicar, de se organizar para elas mesmas resolverem seus problemas. As nossas organizações têm que fazer esse trabalho de conscientização política e de organização.

 

Depois nós temos o trabalho de participar. Não se pode simplesmente falar. Temos que fazer. Ao fazer, a gente aprende, passa a acreditar e descobre muita gente que também está fazendo e se sente mais integrado a um coletivo mais amplo. Isso é de baixo pra cima, um longuíssimo trabalho, um trabalho de formiga que vai juntando uma a uma as pessoas, que têm suas fases de entusiasmo e de desânimo. É o que deveria ser feito pelos governos, mas para isso eles teriam que ter consciência de que é importante a participação social. Os governos não só não têm essa consciência, como têm medo de dar muita possibilidade para o povo reclamar e eles não conseguirem atender às reclamações.

 

A cidade completou 457 anos essa semana, com muitos problemas ainda em serviços básicos, como educação e saúde. Por que não conseguimos contar ainda com um nível de qualidade na prestação dos serviços públicos que corresponda ao poderio/grandeza econômica da cidade?

 

Porque no sistema político e econômico em que a gente vive as necessidades não são atendidas; não é um sistema que olha para as necessidades. O que teria que ser atendido primeiramente em São Paulo são as necessidades básicas: transporte, alimentação, casa, saneamento. Isso exige investimentos muito grandes e para onde vai o dinheiro disponível? Vai para as áreas em que estão as populações já privilegiadas em outros aspectos.

 

Essa situação da cidade de São Paulo é a situação do Brasil. Retrata um país de enormes desigualdades, um país em que a grande maioria vive quase ali na sobrevida e uma pequena minoria que está se abarcando de toda produção de riqueza da sociedade. Nós vamos mudar isso quando conseguirmos mudar certas estruturas políticas, econômicas e, principalmente, mudar a cabeça das pessoas na linha de que o que tem que funcionar é a lógica das necessidades e não a da busca do lucro.

 

Fonte: portal do CENPEC

 

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