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Whitaker: "Temos que promover o Fórum Social Mundial como um bem comum da humanidade"

02/02/2011

Junto com outros militantes políticos e sociais do Brasil, Francisco "Chico” Whitaker é um dos co-fundadores do Fórum Social Mundial (FSM), que viu a luz do dia em Porto Alegre, em janeiro de 2001. Desde então, converteu-se em um dos "ideólogos” desse novo processo em marcha. Infatigável ator e pensador, aos seus quase 80 anos, Whitaker aposta em certas "verdades essenciais” que definem esta nova forma de fazer política e de construir cidadania planetária. E lança-se a sistematizar alguns elementos de análise que sintetizam o processo dos Fóruns. Agraciado com o Prêmio Nobel Alternativo em 2006, Whitaker publicou em 2008 "O desafio do FSM – Um modo de ver”, obra de referência para o pensamento altermundista.

 

Leia a íntegra da entrevista dada à Adital

 

Como sintetizaria as contribuições do Fórum Social Mundial desde seu nascimento?

 

Talvez, em nível didático e para simplificar uma riquíssima experiência em construção, me atreveria a falar de cinco novidades principais do processo do FSM.

 

A primeira, a criação desses espaços em âmbito internacional. Antes, não existiam e cada organização, campanha ou movimento faziam seus próprios encontros, inclusive em âmbito mundial. Porém, não contávamos com espaços comuns a todos, em torno a um objetivo principal que partilhávamos.

 

A segunda novidade é a organização desse espaço de tal forma que facilita o reconhecimento e aprendizagem mútua, o intercâmbio de experiências, a identificação de convergências e a possibilidade de novas alianças.

 

A terceira, o fato de começar a ser considerado como positiva, na luta política, a diversidade de ações e a autonomia dos diferentes atores. O respeito à diversidade sobressai como um dos princípios básicos da Carta de Princípios do FSM.

 

Ao falar de uma quarta novidade, refiro-me à construção de uma nova política, baseada na horizontalidade das relações, na corresponsabilidade, na preocupação de não impor-se, mas de dialogar, na busca do consenso que nos torna mais felizes e mais fortes. Uma cultura política que corresponde ao "Outro Mundo Possível”.

 

E a quinta, que está, todavia, em gestação; porém, avança pouco a pouco: a afirmação do altermundismo como um movimento multiforme, multifacetado e diverso que amplia a ação política além dos partidos e do poder político. Afirmação que se baseia na compreensão de que os partidos não podem pretender manter o monopólio da ação política e que a ação que transformará eficazmente o mundo deverá envolver todos os segmentos sociais e cada um dos membros da sociedade.

 

Nessa perspectiva, qual é a prioridade desse processo pensando, por exemplo, no FSM de Dakar, em fevereiro próximo?

 

Há inúmeras prioridades para um processo em marcha. Porém, talvez, uma chave seja a de continuar nessa construção à medida que ainda estamos longe de desenvolver esse pensamento no mundo inteiro e enraizá-lo, aprofundá-lo em todas as partes. Se em outros momentos históricos pudemos sonhar em construir um, dois, cem Vietnam, hoje, talvez, devemos apostar em construir, promover ou facilitar um, dois, cem milhões de "espaços de encontro”, do Fóruns, em todas suas variações regionais, temáticas etc.

 

Universalizar o processo do Fórum?

 

Sim. E, talvez, a essa reflexão sobre universalizar posso somar outro desafio que teremos pela frente. Promover a visão do Fórum Social Mundial como um Bem Comum da Humanidade, dado que nasceu e existe para servir a todos os movimentos e às organizações sociais que, como parte do movimento altermundista, combatem a favor da construção de outro mundo.

 

Se refere ao FSM como um espaço à disposição do movimento altermundista?

 

Defendo a ideia de que o FSM é um espaço aberto a todos os que consideram que temos que superar o atual sistema econômico dominante. Uma das críticas apresentadas ao FSM é que esses espaços podem ser úteis, interessantes, inclusive simpáticos e construtivos; porém são insuficientes se queremos mudar o mundo. Penso que é fundamental ampliar esse olhar. E aprofundar os conceitos de ação e reflexão. A diferença de natureza entre espaço e movimento está na relação com essa diferença entre reflexão e ação. Estou convencido de que as duas são essenciais, absolutamente necessárias desde nossa perspectiva de mudança do mundo pela qual optamos: a reflexão sem visualizar a ação seria um exercício intelectual descomprometido e a ação sem uma prévia reflexão seria irresponsável.

 

Nesse marco, é claro que o FSM – espaço deve ser compreendido como um instrumento indispensável para o movimento altermundista, a serviço de sua ação. Espaço para que os participantes possam revisar e avaliar o que se faz; para restituir e, inclusive, redefinir os objetivos que a ação deve buscar nas conjunturas sempre novas; para repensar a eficácia das maneiras e meios de ação que são empregados e criar outros meios ou valorizar novas experiências. Um movimento que não abre espaço para essa reflexão, evidentemente condena a si mesmo a seu próprio debilitamento.

 

Espaço aberto com uma metodologia ativamente participativa?

 

É um ponto essencial. Enquanto que o Fórum Econômico de Davos, como tantos outros desse tipo, em diversos lugares, são verticalistas e piramidais, desde o começo, o FSM promoveu cursos e atividades autogestionadas, realizadas por quantas organizações se inscreveram para participar nesse espaço. Essa metodologia teve o impacto da pegadogia da educação popular, muito presenta na vida cotidiana da maior parte dos movimentos sociais brasileiros e das Comunidades Eclasiais de Base (CEBs).

 

Segundo um dos princípios dessa pedagogia, educadores e educandos aprendem todos, uns dos outros, a partir dos tipos de conhecimentos próprios que cada um disponha e contribua. Essa visão estimula a criação de relações de horizontalidade entre os participantes de toda a ação coletiva. Nessa mesma perspectiva de horizontalidade, outra característica dos FSM: o rechaço a terminar com declarações finais ou moções de conclusão, que poderiam ter a pretensão de expressar a tomada de posição do conjunto dos participantes.

 

Se houvéssemos adotado o conceito de um documento final, transformaríamos o FSM em um espaço de disputa para que esse documento-declaração fosse aprovado, como acontece nas assembleias ou congressos dos partidos políticos. Isso poderia levar a manipulações, se considerarmos o grande número de participantes e a curta duração de cada Fórum. Esses dois elementos: a auto-organização e o rechaço a qualquer documento final único, converteram-se em verdadeiros pilares metodológicos que deram ao FSM um grande poder de atração.

 

De onde nasceram todas essas novidades, essas apostas, essas opções metodológicas que têm permitido o desenvolvimento do processo do FSM?

 

Diria, simplesmente, que são o resultado de intuições que foram se acumulando no caminho, na marcha. O objetivo inicial foi bastante claro: criar uma alternativa e contraponto ao Fórum Econômico de Davos, nas mesmas datas em que este se realiza. Que não fosse um espaço econômico; que se passasse a uma fase propositiva da luta. Reforçando a ação da sociedade civil –novo ator político que surgia-, tirando as barreiras e fronteiras que compartimentavam a ação de seus diferentes componentes.

 

Tivemos a intuição / certeza de que era necessária uma metodologia específica da qual falei. E também vimos, após o primeiro fórum, que era necessária uma Carta de Princípios que sintetizasse os conceitos desse primeiro evento. A mesma contém dois conceitos centrais. O primeiro: que o FSM não deve ser um lugar de luta pelo poder, pois isso se converteria em motivo de divisão. E, tão importante quanto o anterior, o respeito à diversidade. Todos os tipos de diversidade, desde os culturais ou sociais até o ritmo próprio de compromisso de cada um nesse processo em marcha.

 

Fonte: Adital, com entrevista de Sergio Ferrari, colaborador de Adital na Suiça; com colaboração E-CHANGER, ONG membro da Plataforma Comunica-CH; tradução: Adital

 

 

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