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Opinião: Este mundo é impossível

08/02/2011

Por Mario Lubetkin*

 

O Fórum Social Mundial (FSM) que está sendo realizado em Dacar foi precedido por uma série de encontros ao longo do ano passado, que confirmaram sua posição única como espaço de discussão dos grandes problemas mundiais e das propostas para resolvê-los. Tem um significado singular o fato de, pela segunda vez, o FSM centralizar suas discussões em um país africano e pela primeira vez em um país africano de fala francesa.

A preparação dos fóruns implica enormes esforços organizacionais e econômicos que não seriam possíveis sem uma adesão maciça e uma fervorosa militância. Este Fórum, em particular, dará um impulso poderoso à sociedade civil senegalesa, que desde o centro da África se propagará ao resto do continente, e além dele.

 

Desde 2001, o FSM gera enormes expectativas com seus debates, suas ideias e propostas em torno de seu lema e meta final: “Outro mundo é possível”.

Esta década foi um dos períodos mais turbulentos e mais pródigos em mudança na história universal. Quando começou, ainda predominava a ideologia neoliberal no mundo, o Consenso de Washington tinha valor de mandamento, o mundo das finanças se expandia e sufocava a economia real, chegava-se até a afirmar que conter a catastrófica aceleração da mudança climática era tarefa que deveria ser entregue ao empenho da empresa livre e das forças do mercado. Era, então, tão sufocante a hegemonia de Washington que conseguiu fazer valer o urdido pretexto da produção de armas de destruição em massa no Iraque e, mesmo depois que essa falsidade veio à tona, lançar suas forças e a de alguns aliados na invasão desse infeliz país, deixando de lado as Nações Unidas.

Em todos esses anos, os fóruns não foram apenas ambientes de denúncias, de mobilização e resistência. Nas análises de seus expoentes foi previsto e antecipado que a liberalização a todo custo, a fé cega no mercado como reitor da economia e o veto contra toda ação reguladora do mercado, especialmente dos grupos financeiros que praticavam uma especulação desenfreada, levariam a um desastre planetário.

Foi exatamente o que ocorreu, apesar de muitos, de fora dos fóruns iniciais, desprezarem tais advertências, tachando-as de ingênuas, ou ilusórias, engendradas por um extremismo ideológico.

Esta década, portanto, confirma a premissa e a crítica que inspira o FSM: “Este mundo é impossível”. É, portanto, necessário – e possível – outro mundo.

Enquanto o primeiro já está fora de discussão, para o segundo somente se apresentam condições mais favoráveis do que nunca, certamente não um caminho sem obstáculos, para conseguir as mudanças e as reformas que implantem um mundo melhor, mais justo, mais seguro, mais sustentável.

Em outras palavras, esta grande crise pode derivar em uma restauração convenientemente sustentada que mantenha o essencial do sistema durante um longo período, se a sociedade civil não opuser uma articulada e firme resistência que obrigue a mudanças profundas.

Esta já ocorreu, precisamente com a tão lembrada nestes dias Grande Depressão, sucessiva à crise de Wall Street de 1929. Para superá-la, o New Deal do presidente Roosevelt fez mudanças como a separação entre bancos comerciais e bancos de investimentos, colocou controles e limites à exposição financeira e adotou outras medidas que seria longo enumerar aqui.

Com essas correções, o sistema se manteve pouco mais de meio século, até que nos anos 1980 começou um processo de eliminação de controles que culminou com a precipitação absoluta do segundo mandato de George W. Bush e a depressão mundial que foi sua previsível e trágica consequência.

Este é o dilema que se apresenta ao FSM em Dacar e voltará a se apresentar o seguinte: como fazer com que este processo que diagnosticou e cuja implosão previu, possa ir além da simples restauração e seja o início das mudanças que propõe?

Do nosso ponto de vista, sua mensagem deve chegar à sociedade civil em seu conjunto, para que esta se mobilize e se converta em decisivo fator de pressão. O obstáculo principal é a barreira colocada pelo sistema dos meios de comunicação, que até agora são pouco receptivos em relação aos fóruns. Deve-se, portanto, dar prioridade à batalha pela informação.

Esta batalha não deve ser travada somente na mídia convencional. Por uma feliz coincidência, o Fórum de Dacar acontece imediatamente após as rebeliões populares na Tunísia e no Egito. Nos dois países vigorava uma ditadura, a imprensa estava majoritariamente controlada pelo governo e eram escassos os veículos de comunicação independentes, enquanto os partidos de oposição, como costuma acontecer em regimes autoritários, careciam de importância e influência. Tudo estava sob controle dos ditadores, aparentemente. Porém, a oposição, mesmo virulenta, existia e era amplamente majoritária. Não podendo contar com liberdade política e com imprensa que refletisse suas reclamações, a sociedade civil esperou a ocasião e se dotou de seus próprios meios de intercomunicação, via Internet e por canais mais diretos.

É exatamente desse modo que se criou o Fundo Social Mundial, como uma rede social alheia a partidos políticos e interesses religiosos ou econômicos.

Por isto, os ventos que sopram do Norte da África são um ensinamento e um estímulo para as reuniões de Dacar e, sobretudo, uma confirmação das estratégias dos fóruns, que nascem e operam dentro da sociedade civil para promover e impor as mudanças de baixo para cima, que são as únicas que podem mudar o mundo.


* Mario Lubetkin é diretor-geral da agência de notícias Inter Press Service (IPS).

Fonte Envolverde

 

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