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Entrevista: Ministra da SEPPIR promete combater o racismo institucional

18/02/2011

Numa entrevista exclusiva concedida à Afropress, a nova ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção (SEPPIR), a socióloga Luiza Bairros, disse que aproveitará o fato de 2011 ser o Ano declarado pela ONU como dos Afrodescedentes para propor aos bancos, empresas de segurança, supermercados, shoppings e centrais sindicais, que façam um esforço para combater o racismo institucional e coíbam situações de discriminação cada vez mais freqüentes nas relações de consumo.

 

O caso mais recente ocorreu com uma criança negra - T., de apenas 10 anos - levado para um quartinho por seguranças do Hipermercado Extra, da Marginal Tietê, Zona Leste de S. Paulo, onde foi submetido à humilhações e ameaças, segundo denuncia da família.

 

"Nós somos inadequados para os bancos, nós somos inadequados para os supermercados, somos inadequados para qualquer tipo de lugar no qual, historicamente, a presença branca foi predominante”, afirmou, acrescentando que o apelo será para que esses setores "se coloquem no lugar onde devem se colocar, que é o de exatamente coibir esse tipo de atuação dos seus funcionários, dos empregados, que se coloca dentro daquilo que agente convencionou chamar de racismo institucional".

 

Mudança na comunicação

A nova ministra não anunciou medidas de impacto, mas deu pistas sobre como será o seu estilo de gestão à frente da Secretaria, que tem status de ministério e é ligada à Presidência da República. Em pelo menos uma área – a de Comunicação – Bairros anunciou mudanças. Ela disse que não quer "um setor de comunicação voltado para dentro do ministério”.

 

A responsável pela Comunicação, Sandra Almada, já foi exonerada, assim como outros dirigentes, que abriram espaço para a equipe designada pela ministra. Ela não adiantou o nome do novo titular, embora entre os mais citados, esteja o do jornalista, Edson Cardoso, do Jornal Irohin, no momento desativado.

 

A ministra concedeu a entrevista, na véspera da viagem à Dakar, no Senegal, onde participou do Fórum Social Mundial, integrando a delegação do Governo Brasileiro. Por cerca de 40 minutos, ela conversou por telefone, com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

 

À pedido do jornalista, ela respondeu perguntas de lideranças como Reginaldo Bispo, dirigente do MNU, Eduardo Silva, presidente da Comissão da Igualdade da OAB/SP, Ivan Seixas, presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Conceição Vercesi, da Assessoria de Ações Afirmativas de Botucatu e Magno Lavigne, da Secretaria Nacional da Diversidade Humana da União Geral dos Trabalhadores – a UGT – a terceira maior central sindical do Brasil – e João Jorge Rodrigues, diretor do Grupo Olodum, da Bahia.

 

Também deu respostas a perguntas enviadas pela jornalista Clarisse Monteagudo, do Jornal Extra, do Rio de Janeiro.

 

Leia, na íntegra, a entrevista.

 

Afropress - Parabéns pela posse e sucesso na sua gestão. Eu, na verdade, já havia pedido a entrevista para a senhora, e agora diante da oportunidade, pedi para algumas lideranças de vários setores e Estados encaminharem perguntas que gostariam que a senhora respondesse.

 

Tenho aqui a pergunta da jornalista Clarissa Monteagudo, do Jornal Extra do Rio, que é exatamente a seguinte:

 

A eleição de uma mulher para presidente da República e a escolha da primeira ministra negra [a senhora, na verdade é a segunda, a ministra Matilde foi a primeira] representam um avanço simbólico da posição da mulher na sociedade brasileira. A senhora acredita na necessidade de realização de ações para aumentar a autoestima das mulheres negras, vítimas históricas de ações violentas, como o preconceito, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a violência doméstica? Se sim, quais seriam essas ações?

 

Ministra Luiza Bairros – A gente falando por telefone fica um pouco difícil porque as perguntas estão longas. Na verdade, eu acho que essa pergunta, mais especificamente, envolve mais de um aspecto.


Em primeiro lugar, essa questão mesma da gente ter esse ano no Governo um número maior de mulheres do que já tivemos em outras ocasiões, embora relativamente com um número menor de mulheres negras. Isso é um aspecto que, de uma certa forma, um Ministério com mais mulheres, eu acho que ele causa na sociedade um impacto grande; acho que em relação as mulheres isso repercute de um modo muito positivo.


A gente tem percebido as repercussões disso, por exemplo, agora mais recentemente pela indicação de uma mulher para a mesa diretora da Câmara e outra mulher para a mesa diretora no Senado, quando nunca tínhamos visto nada neste sentido.


A atitude simbólica dos presidentes, tanto da Câmara quanto do Senado, de se afastarem para que as mulheres assumissem a presidência da sessão... Então, eu acho que todos esses são indicadores de como ter uma mulher na Presidência da República vai repercutindo neste olhar que se tem sobre as mulheres e sobre as suas possibilidades de participação. Este é um primeiro aspecto que eu vejo na pergunta.


O segundo tem a ver com essa questão da auto-estima das mulheres negras. Eu tenho, na verdade, me questionado um pouco sobre a forma como a gente usa essa questão de auto-estima, porque eu vejo que, de uma maneira geral, que a auto-estima das pessoas negras, ela não precisa ser tão assim, tratada e trabalhada, da maneira como nós vimos falando mais recentemente.


Acho que o que precisa mudar é o conceito da sociedade sobre as mulheres negras. Aí é todo um trabalho muito mais em profundidade que tem que ser feito, para além de tudo que, ao longo do tempo, os Movimentos Negros, especialmente o Movimento de Mulheres Negras tem feito.


Mudar essas imagens, que são as imagens de controle da mulher negra, que é um tema sobre o qual Lélia Gonzalez já falava lá, no inicinho dos anos 80, de como nós somos apreendidas dentro de determinadas visões onde essa dimensão do corpo aparece como sendo a mais importante, seja o corpo para o sexo, seja o corpo para o trabalho pesado, mas sempre a mulher negra aprisionada num tipo de lugar, onde não há espaço para que nós sejamos vistas numa outra dimensão, na dimensão da contribuição intelectual que muitas de nós damos, nas mais variadas posições.


Não apenas naquelas reconhecidas como lugares do intelectual vindos da Academia. Nesse sentido eu acho que são intelectuais as Mães de Santo, que formulam formas de pensar, que formulam caminhos para que nós possamos seguir. Então, toda essa discussão aí, que é longa e que agente não vai poder se deter aqui agora.

 

Afropress - O Reginaldo Bispo, que é seu companheiro de MNU, organização a que a senhora pertenceu, [a ministra foi dirigente nacional do MNU até 1984]. A pergunta dele é a seguinte:

 

Ministra Luiza Bairros, a senhora acredita ser possivel fazer politica social em benefício dos negros, com o atual orçamento da SEPPIR, que destina R$ 0,50 (cinquenta centavos) para cada negro brasileiro? Como sair desse gueto em que meteram a SEPPIR, sem dinheiro para resolver esse imbroglio e realizar políticas de Estado para 90 milhões de negros?

 

Luiza Bairros – Bom, em primeiro lugar, o seguinte. O orçamento da SEPPIR, assim como de qualquer outro órgão de promoção da igualdade racial, não é um orçamento para a realização das políticas voltadas para a população negra. Ele é um orçamento para a articulação de políticas, para a gestão de políticas que são realizadas, na prática, por outros Ministérios, no nosso caso. Então, essa é a primeiríssima distinção.


A outra coisa é essa idéia do gueto. Eu acho que agente fica num tipo de situação que é bastante... são as contradições, eu digo que são contradições que o racismo coloca prá nós. Porque essa idéia do gueto ela não aparece apenas em relação a um ministério como esse nosso, mas, eu já vi muitas discussões nesse sentido, por exemplo, dentro das Universidades, se os núcleos de Estudos, Estudos africanos e afro-brasileiros, os chamados NEABs nas Universidades, se não seriam eles também lá, guetos, entendeu?


E esse tipo de contradição, o racismo brasileiro vai nos colocar o tempo todo. Porque o que nos é deixado como escolha é uma escolha que eu considero impossível. Seria você não estar em lugar nenhum, porque essa questão da transversalidade, ou de uma presença espalhada, isso não se realiza, com a forma como o racismo brasileiro opera, ou você juntar forças num determinado espaço e a partir daquele determinado espaço, buscar influenciar os demais.


Então, não é uma coisa de gueto ou não gueto, eu acho que é uma escolha política, digamos, que os negros brasileiros, não só do ponto de vista da estrutura do Estado, mas como em vários outros lugares.


E foi isso, digamos assim, foi até aí que a luta política nos permitiu ir. Vamos ver agora o que está em jogo em todos esses espaços, seja dentro ou fora do Estado, é exatamente a capacidade que agente tem de dentro deles, reunir a força política necessária para influenciar todo o resto.

 

 

Para Bairros, relação com forças não-partidárias é desafio

Na primeira entrevista exclusiva concedida à Afropress, a nova ministra, socióloga Luiza Bairros, admitiu que a relação da SEPPIR com a parcela do Movimento Social Negro que não se pauta pela agenda dos Partidos, não é uma questão fácil de ser resolvida.

 

"Olha, esse é um desafio muito grande”, afirmou, em resposta a uma pergunta encaminhada pelo diretor do Olodum, João Jorge Rodrigues, que quis saber como será a relação da SEPPIR, na sua gestão, com entidades como a Educafro, o Olodum, o Ilê Ayê, entre outras, que não estão vinculadas aos Partidos, nem se pautam pela lógica partidária.

 

Embora ela própria seja filiada ao Partido dos Trabalhadores, sua escolha para o cargo vem sendo vista por setores do Movimento Negro como uma inflexão no monopólio que lideranças negras organicamente vinculadas aos partidos – especialmente o PT e o PC do B - mantiveram na SEPPIR, desde a sua criação.

 

Na leitura desses analistas, a ministra estaria mais próxima às Organizações Não-Governamentais (ONGs), à cujo trabalho se vinculou desde que deixou o Movimento Negro Unificado (MNU), em 1984, o que explicaria o fato de que lideranças do PT e do PC do B, que ocupavam postos-chaves na Secretaria estarem sendo substituídas.

 

Segundo Luiza Bairros, uma das alternativas na sua gestão será "agregar ao Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial os setores de acordo com as características de sua atuação”, "sem desrespeitar a representatividade dos que estão dentro”.

 

Ela citou, em especial, a Associação Brasileira dos Pesquisadores Negros e a Rede Nacional de Religiões Afro de Saúde. "Você não pode substituir uma coisa pela outra”, acrescentou.

 

Em resposta a pergunta da Assessora de Ações Afirmativas de Botucatu, Conceição Vercesi, disse que o Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial (FIPPIR), que reúne Estados e municípios, voltará a ter centralidade na sua gestão.

 

Leia a 2ª parte da entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

 

Afropress - O doutor Eduardo Silva, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB/SP, está encaminhando para a senhora a seguinte questão: o artigo 59 do Estatuto diz que o Poder Executivo criará instrumentos para aferir a eficácia social das medidas previstas nesta Lei. A pergunta dele é: a senhora já tem idéia de quais serão esses instrumentos?

 

Ministra - Eu estou aqui relendo esse artigo 59 para poder me situar melhor em relação a pergunta que o doutor Eduardo mandou. Isso aqui tem a ver com a questão do monitoramento das políticas públicas.


Na verdade é mais do que monitoramento, é monitoramento e avaliação, que é exatamente uma dimensão que é bem pouco tratada, ainda é pouca tratada no Estado brasileiro e menos tratada ainda nessa área que agente opera da promoção da igualdade racial.


Para você fazer esse monitoramento, quer dizer, como você afere os efeitos positivos ou negativos de uma política sobre a população negra, é preciso que você tenha, para determinadas políticas ou programas que você selecione, alguns indicadores, que seriam indicadores desagregados por raça.


Então para eu poder saber exatamente, vamos dizer como é que... qual o exemplo que poderia dar? Vamos dizer o PROUNI. Qual é o tipo de impacto que o PROUNI tem sobre a inserção da população negra no ensino superior, é preciso que eu tenha, em primeiro lugar medido, qual era a situação antes do PROUNI acontecer, e depois do PROUNI, em o PROUNI acontecendo, como é que eu vou ter indicadores de estudantes negros de famílias de tal classe de renda; estudantes negros do sexo feminino de determinadas regiões etc. Então é esse tipo de coisa que tem nos faltado ainda.


Nós temos, inclusive, aqui na SEPPIR, discutido bastante a esse respeito. Já existe aqui instituída uma Câmara, não é Câmara, é Comitê de Avaliação e Monitoramento do Plano de Igualdade Racial e a gente está estudando formas, inclusive, de fazer com que, na verdade, quem realize esse trabalho seja o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, porque lá você tem uma representação um pouco mais robusta de sociedade civil, para além do Governo.


E aí, sim, é que entra um trabalho político muito forte de fazer com que nessas políticas, que nós selecionarmos para avaliação e monitoramento, os Ministérios que as executam concordarem em utilizar esses indicadores desagregados por raça. Isso é o cerne da nossa dificuldade, não é?


É o cerne da nossa dificuldade porque, em incorporando esse tipo de indicador, é óbvio que fica todo mundo mais visível do ponto de vista do que é o resultado de sua ação. Então, não é muito tranqüilo você convencer os seus pares na adoção desse tipo de coisa.


Mas, é... quer dizer, a SEPPIR já tem oito anos e é em cima desses oito anos aí que agente vai ter de ver o que foi capaz, realmente, de produzir nessa direção.

 

Afropress - Ministra, a Conceição Vercesi, ela é assessora de Políticas de Promoção da Igualdade e Ações Afirmativas da Prefeitura de Botucatu, interior de S. Paulo. Ela, primeiramente, parabeniza a sua assunção ao cargo, deseja sucesso e sabedoria. A pergunta dela é a seguinte:

 

Gostaria de saber de que forma a Ministra pretende se aproximar dos municípios e como a SEPPIR pode estabelecer um canal de diálogo direto com os mesmos, não para atendimento de demandas específicas de cada um, mas para fortalecimento. Muitos municípios, e posso falar por Botucatu, têm feito a lição de casa na Promoção da Igualdade, conforme Relatório de Gestão encaminhado a SEPPIR em Dezembro de 2010. Sei que a Conferência Nacional é um canal eficiente e muito bem elaborado, mas ela precisa ter continuidade e monitoramento após sua realização.

 

Ministra - Ok. Eu acho que a Conceição traz aqui uma questão bastante importante para a gente. Então, o que é que acontece? Você tem nesse Estatuto uma definição em relação a que se formule um Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Com todas as críticas que, legitimamente, eu acho que são colocadas, em relação ao Estatuto, acho muito importante recuperar essa coisa que ele traz desse Sistema.

 

Porque agente tem a partir disso aí a possibilidade de fazer com que a gente pense a promoção da igualdade racial articulando as competências de todos os atores. Qual é o papel do Governo Federal, qual é o papel dos Estados, qual é o papel dos municípios.


E ao fazer isso – é uma coisa que a gente tomou um pouco a discussão que já estava sendo feita na gestão anterior e está agora buscando dar uma ampliada nisso aí, até para poder agregar outros atores na discussão, porque isso vai, necessariamente, levar à retomada do fortalecimento do Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial, que é o FIPPIR, que é um processo que foi, de uma certa forma interrompido, com a saída da ex ministra Matilde Ribeiro. É esse trabalho de investimento mesmo nos municípios e nos Estados para que eles sejam os executores mais diretos dessa política.


Quando agente retoma essa discussão pela via do sistema, o FIPPIR vai novamente ganhar centralidade na SEPPIR.


Uma das coisas que agente tem pensado – e aqui é muito uma questão que eu fico pedindo às pessoas que nos deem só mais um pouquinho de tempo para a gente conseguir acertar essas prioridades aqui, para que possamos, a partir de março então, já começar o diálogo, retomar, na verdade, o diálogo com os governos estaduais, e com os municípios onde esses organismos já existem com uma certa robustez, para que a gente dê uma fortalecida nisso primeiro, e esses possam servir como efeito demonstração para os demais.


E é dentro dessa perspectiva, inclusive, a gente está pensando, que vai ser um ano de corte no orçamento, então agente vai ter de utilizar isso com um direcionamento muito bem alinhado.


Uma das coisas que eu penso – e isso ainda vai ser objeto de discussão com a direção aqui da SEPPIR – é exatamente de a gente fazer alguns convênios com esses municípios, esses Estados, onde o trabalho já está um pouco mais adiantado, para que nós possamos, através desses convênios, não apenas facilitar determinadas ações, onde nós repassaríamos algum recurso, para facilitar algumas ações no sentido de equipar esses lugares, para que eles possam ter as condições de trabalho que são necessárias, porque por incrível que pareça nem sempre isso acontece, para que possam ter recursos para contratação de profissionais que possam auxiliar na formatação de seus próprios planos de igualdade racial, e assim por diante. Então, isso, realmente, está efetivamente no nosso radar.


E a gente vai, a partir de março, já colocar essas idéias na rua.

 

Afropress: Ministra, o João Jorge, o nosso companheiro do Olodum, que a senhora conhece bem, lá de Salvador, ele gostaria de saber como é que a senhora pretende se relacionar, a frente da SEPPIR, com os setores não partidários do Movimento Negro. Nós sabemos que existem várias entidades que não pautam sua atuação pela discussão política e pela agenda dos partidos. Ele, inclusive na pergunta, cita Educafro, o próprio Olodum, o Ilê, cita a Afropress, e gostaria de saber como é que a senhora pretende se relacionar com esses setores.

 

Ministra - Olha, esse é um desafio grande, muito grande, porque na verdade, você tem instituído na SEPPIR os mecanismos de relação com a sociedade civil que é o Conselho, que é o Conselho Nacional, que inclusive, foi recomposto no final da gestão passada, a partir de uma chamada pública onde se credenciaram organizações que são consideradas de caráter nacional.


Acontece que essas organizações de caráter nacional, elas não tem, digamos, a capacidade de trazer dentro de si todas as expressões do movimento negro brasileiro.


Então, fica de fora dessa representação, organizações individuais que tem uma expressão política muito grande no Brasil, mas que não se constituem como nacionais. Então, isso é uma outra parte. Estou levantando essas coisas para a gente ver que a gente navega num terreno, que é um terreno sempre contraditório, não tem nada muito tranquilo aqui prá ser visto

 

Afropress - Nada é fácil prá nós.

 

Ministra: Não, não tem sido. Não tem sido, infelizmente. Para você ter uma idéia a Associação Brasileira dos Pesquisadores Negros não está no Conselho, a Rede Nacional de Religiões Afro de Saúde não está no Conselho. Então, você tem entidades representativas dentro do conselho, mas tem outras entidades representativas fora do Conselho.


O que você tem de fazer? Você vai ter de agregar esses setores de acordo com as características da sua atuação no interior da sociedade brasileira. E fazer isso sem desrespeitar a representatividade que esses setores da sociedade civil que estão dentro do conselho devem ter, ok? Você não pode substituir uma coisa pela outra.


Então, o que agente tem procurado fazer? Em primeiro lugar estou esperando que aconteça a primeira reunião do Conselho Nacional, que deve ser agora no início de março. Era para ter sido no início de fevereiro, mas por conta do Fórum Social e por conta também de a gente querer, quando o Conselho chegasse, se apresentar com uma cara um pouco mais arrumada, resolvi transferir isso prá março.


Vamos ter essa primeira reunião com o Conselho, discutir com o Conselho uma série de coisas. O Conselho é dividido em Câmaras temáticas ou comitês temáticos, a depender dos assuntos que existam para tratar.


E aí agente vai, na medida desse diálogo que tenhamos com ele, verificar a possibilidade de, para determinados temas, também chamar outros setores para opinar, para colocar suas próprias reivindicações, suas próprias visões de como determinadas visões devam ser tratadas pela SEPPIR.


Só para exemplificar, a gente quer fazer aqui uma avaliação do que são as iniciativas diretas da SEPPIR nessa área de Educação, por exemplo, e para fazer isso, agente vai chamar a ABPN [Associação Brasileira de Pesquisadores Negros], entendeu?


Quer dizer, para além dos setores que estejam no Conselho trabalhando com esses assuntos, a gente chama a ABPN também, para vir, para dizer para a gente, vamos reforçar determinadas áreas, vamos desistir de determinadas coisas, quer dizer, esse tipo de opinião é importante.


Então é nesse sentido e dessa forma que a gente pretende ir agregando, os olhares etc. Tem, inclusive, nessa área de vocês aí da comunicação, tem uma reivindicação que está posta também com relação a isso; a juventude hoje, por sinal, hoje vou estar recebendo um dos setores dessa juventude negra que também quer esse tipo de diálogo. Então, agente vai montando esse quebra cabeça, aí, no decorrer.

 

Afropress - Ministra, o Presidente do CONDEPE de S. Paulo, o CONDEPE é o Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana, Ivan Seixas, encaminhou a seguinte questão para a senhora.

 

A senhora deve ter acompanhado os episódios envolvendo atos de violência mesmo, baseados na discriminação racial, contra negros nos supermercados, praticados por seguranças, especialmente.

 

O Ivan, o CONDEPE, que está acompanhando esse caso, que está também solidário e apoiando essa luta no sentido de se fazer justiça, pergunta a senhora ministra, o que a SEPPIR e a senhora como ministra, o que pode ser feito, no sentido não só, da solidariedade ativa e efetiva, mas também no sentido da SEPPIR ser um instrumento para coibir essas ações, que acontecem cada vez com mais frequência nas relações de consumo.

 

Nós sabemos que as empresas de segurança, todas elas operam por licença do Ministério da Justiça, e nós sabemos também que, lamentavelmente, esses seguranças são totalmente despreparados para lidar com as pessoas e continuam, assim como a polícia, também vendo o negro como suspeito padrão.

 

Então a pergunta dele é nesse sentido. O que a senhora como ministra pode fazer no sentido de que essas questões definitivamente sejam resolvidas, não aconteçam mais violências, mais humilhações contra ninguém, muito menos contra os negros, a partir dessa visão, ainda muito arraigada, do negro como suspeito padrão.

 

Ministra – Você citou aí, dois casos emblemáticos que aconteceram em redes de supermercados, mas agente ainda teria de acrescentar aí os bancos também, que é um outro espaço onde se revela o tipo de inadequação da presença negra num determinado lugar, não é verdade.


Nós somos inadequados para os bancos, nós somos inadequados para os supermercados, somos inadequados para qualquer tipo de lugar, no qual historicamente, a presença branca foi predominante.


O que agente está querendo ver, se utiliza até como fator de motivação, a ocorrência esse ano do Ano Internacional dos Afrodescendentes, que é exatamente no sentido de fazer o seguinte. Olha, vamos ver o que é possível para chamar esses setores, quando digo esses setores estou falando da Federação dos Bancos, as empresas de segurança privada, as instituições policiais, e a nossa chamada para esse ano é uma chamada no sentido do que cada setor pode fazer para que agente supere esse tipo de situação.


É algo que nós faríamos independente do ano, mas já que o ano foi instituído, vamos tentar ver como é que agente utiliza simbolicamente em nosso favor essa chamada, para poder fazer com que esses setores se coloquem no lugar onde devem se colocar, que é de exatamente coibir esse tipo de atuação dos seus funcionários, dos seus empregados, que se coloca dentro daquilo que agente convencionou chamar de racismo institucional mesmo.


Então, eu acho que é por aí que a gente tem de caminhar. As Centrais sindicais, tive oportunidade de encontrar com representantes, já falei a respeito disso, porque acho que as centrais sindicais vão ter de nos ajudar também nesse sentido, entendeu?


Porque se trata da ação de trabalhadores e nós vamos ter que achar, a partir das Centrais, a partir dos sindicatos e das associações patronais qual é o tipo de responsabilidade que cada um vai assumir no combate a esse tipo de comportamento, que é violência, que é um comportamento baseado na violência racial. Eu acho que o leque de intervenção nosso aqui, é imenso.


Uma coisa que eu acho importante que tem acontecido nesses últimos casos, e que acho que convém registrar é que nós temos cada vez menos casos passando desapercebidos.


Porque você já tem nos Estados, a organização do Movimento Negro, a existência de profissionais na área do Direito, a existência de Conselhos, comitês, coisas desse tipo, instituições como a OAB, ou em órgãos governamentais como Secretaria de Justiça etc, tudo isso, acho que tem contribuído para que exista uma pronta resposta, uma resposta mais imediata e acho que isso tem que ser contabiizado no quadro dessas mudanças recentes pelas quais agente tem vivido.

 

Porque não apenas o racismo se acirra, o racismo se acirra, e muito, é justamente por conta da capacidade de resposta nossa que aumenta. Ele tem isso como característica. Ele como fenômeno social ele tem essa elasticidade. Quanto mais você se prepara para combater, mais ele vai encontrando lugares e formas de se manifestar.


Eu acho muito bom que agente esteja cada vez mais preparado para ir respondendo, mas sabendo que, à altura da nossa resposta, também virão outras manifestações.

 

Afropress - O presidente da Central Sindical, a UGT, Ricardo Patah, que também preside o Sindicato dos Comerciários, que é um Sindicato pioneiro na defesa de cotas, inclusive, cotas nas negociações dos acordos coletivos de trabalho, pediu para transmitir a senhora o convite para que a senhora visite o Sindicato dos Comerciários, onde há uma Secretaria da Diversidade Humana, na Central, que é a terceira central sindical mais importante do país, e o Sindicato também de S. Paulo, com uma base de 450 mil trabalhadores, se sentiria muito honrado segundo Patah, e nós, todos de receber sua visita.

 

Ministra - Vamos ver. Na próxima oportunidade que acontecer. Eu já tive, na verdade, convite da parte deles, para participar de atividades ainda quando morava na Bahia. Então, acho que, na medida que a gente consiga outras oportunidades, também podemos seguir nessa conversa.

 

 

Afropress - O Magno Lavigne pergunta se a senhora pretende mudar os critérios de participação no CNPIR [Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial], onde só está presente a CUT – as demais Centrais não se fazem representar.

 

E já encadeando prá facilitar a sua tarefa, eu gostaria de saber que mudanças a senhora pretende fazer, já que foram feitas algumas mudanças essa semana de dirigentes, se sua equipe já está composta definida; se da equipe anterior fica alguém, se mantém alguém. Como é que a senhora pretende encaminhar isso.

 

Ministra – Na verdade, existe um critério que foi adotado por todos os ministérios na composição dos conselhos, que são essas chamadas públicas que descrevem alguns critérios e características que as organizações devem ter para poder se credenciar para participar do Conselho.


Eu acho que é uma questão, nesse sentido, é que entraram organizações que não são... organizações do tipo sindicais, organizações estudantis nacionais, a UNE também faz parte dessa nova composição do Conselho.
Essa composição, ela vai permanecer pelo tempo que terá de permanecer, que são dois anos, o mandato é um mandato de dois anos. Então, nós só poderemos rediscutir esses critérios para a chamada das organizações ao final desse período, né?, que agente vai ter efetivamente que honrar isso, para saber exatamente com que tipo de critério que se vai trabalhar.


Se você teve uma central sindical durante dois anos, se nos próximos dois anos essa representação sindical seria dada por outras centrais. Então, isso é uma coisa que no momento agente certamente vai colocar em discussão.

 

Afropress - Ministra, quero agradecer a sua atenção e desejar a senhora, mais uma vez, uma excelente gestão e colocar a Afropress à sua disposição. A Afropress é um veículo independente. Estamos há cinco anos fazendo jornalismo com foco na temática étnico-racial brasileira, combatendo o racismo, fazendo jornalismo, especialmente. Portanto, gostaria de colocar o veículo à sua disposição. A SEPPIR é a principal pauta nossa, por razões óbvias.

 

Nós gostaríamos de, ao colocar à disposição, pedir que se estabeleça uma relação mais fluída, mais frequente, mais direta, com mais confiança de ambos os lados, para que possamos contribuir para o avanço dessa causa, que é de todos nós.

 

Ministra - A nossa intenção é essa também. Agora, como eu disse, eu passei esse primeiro mês aqui, ainda com a equipe da gestão anterior, que é uma coisa que eu achei que deveria deixar que as pessoas permanecessem, não só prá gente poder fazer esse processo de transição de uma forma mais completa possível, mas também prá dar as pessoas o tempo que elas necessitavam para se organizar, para poder sair daqui e abraçar outras oportunidades.


Então, esse é o primeiro mês. O segundo mês é o da chegada mesmo da minha equipe, que é quando agente vai alinhar as ações, a forma de atuação etc. Dentro desse alinhamento existe também uma mudança que agente quer provocar no setor de comunicação da SEPPIR, porque você não tinha uma comunicação voltada para essa relação, percebe?


É um setor de comunicação voltado para dentro do ministério, não para fora dele. Então esse é o tempo também que eu preciso para poder fazer esse realinhamento de maneira que vocês possam ter com o setor de comunicação daqui uma relação que alimente do ponto de informações, e coisas desse tipo. Tá bom?

 

Fonte: Afropress - Agência de Informação Multiétnica

 

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