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Vaias contra casal foram ‘grotescas’, diz deputado

01/06/2011

No dia em que a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que anistia desmatamentos promovidos pelo país, dois líderes ambientalistas foram assassinados a tiros no Pará por denunciarem supostas violações à floresta amazônica cometidas por grupos madeireiros.

 

A morte de José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher, Maria do Espírito Santo da Silva, após emboscada em uma área do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira, no sudeste do Pará, foi informada aos deputados, que debatiam o novo Código Florestal, por volta das 16h da  terça-feira (24), horas depois do crime.

 

Coube ao deputado José Sarney Filho (PV-MA), coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, ler em plenário um texto em solidariedade aos militantes: “Ainda não chegou o momento de entramos nesta discussão sobre o Código Florestal que está sendo feita agora, nesta sessão. Infelizmente, eu estou assumindo esta tribuna para falar sobre uma tragédia que aconteceu…”

 

Sarney Filho esperava, conforme disse em entrevista a CartaCapital, um “silêncio reverencioso” quando citou o nome das vítimas e declarações feitas por elas contra o desmatamento.

 

O que se ouviu, no entanto, foram vaias dos colegas da bancada ruralista e dos visitantes que se engalfinhavam na galeria da Câmara para acompanhar a votação. “Senhor presidente (da Câmara, Marco Maia), eu estou fazendo um discurso sério. Que história é essa, meus amigos? Eu não estou ferindo o direito pessoal de nenhum de vocês”, disse Zequinha Sarney, diante dos protestos feitos pelos “convidados” da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que, com café e petiscos, atraía a claque para reforçar os gritos por mudanças no texto.

 

“Eles vaiaram um duplo assassinato. É uma coisa sem sentido, promovida pelos interessados diretos no projeto, os beneficiados por essa modificação. Foi algo grotesco”, disse Sarney Filho. “Foi algo simbólico. Ficou claro que, durante a discussão do projeto, a vida humana é o que menos importava. Imaginava que fizessem um silêncio reverencioso, e que se lamentasse, em solidariedade, a morte dessas pessoas que eram muito admiradas”.

 

O deputado, que no dia seguinte à votação escreveu em seu site que a Câmara decidiu “espalhar ventos e vai colher tempestades” ao incentivar desmatamento, disse que jamais havia testemunhado uma pressão tão forte na Casa como a exercida pela claque ruralista. “Vamos até analisar se houve alguma irregularidade ou excepcionalidade nisso. Nunca tinha visto algo parecido em um dia de votação”.

 

Entre outros pontos defendidos pelos ruralistas – e pela claque patrocinada por eles – a versão final do projeto, aprovado ao fim do dia, retirou do governo federal a atribuição de regularizar o cultivo em áreas de proteção permanente e anistiou desmatamentos cometidos até 2008. Algo que o casal assassinado não chegou a ver – e lamentar.

 

Fonte: Carta Capital / Matheus Pichonelli

 

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