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Manifestantes desocupam Funarte e mantêm mobilização por arte livre

02/08/2011

Os trabalhadores da cultura decidiram desocupar nesta segunda-feira (01) o prédio da Funarte (Fundação Nacional de Arte), em São Paulo, após de uma semana de ocupação. 

Depois de lerem duas cartas nas quais denunciam a privatização dos recursos públicos para a cultura e de negarem a possibilidade de existir uma arte livre vinculada às empresas e a atual forma de Estado, centenas de manifestantes deixaram o prédio na Alameda Nothmann, região central, e saíram organizados em filas, carregando assentos de privada e encenando uma canção de protesto, rumo ao Itaú Cultural, na Avenida Paulista. A ação chamou bastante a atenção dos transeuntes.


Para além da conquista de reivindicações pontuais (como a aprovação das PEC 150, que garante que o mínimo de 2% do orçamento geral da União seja destinado à Cultura e da PEC 236, que prevê a cultura como direito social), os trabalhadores da cultura manifestaram que querem se organizar, com liberdade, para a produção de uma arte livre que seja expressão de uma sociedade também livre das regulamentações do mercado.


Conversamos com Fernanda Azevedo, uma das representantes do movimento e integrante da Kiwi Companhia de Teatro, que fala sobre o saldo político da ocupação.


Brasil de Fato – Fernanda, por que vocês decidiram terminar a ocupação da Funarte, mesmo não conquistando nenhuma reivindicação prevista na pauta do movimento?


Fernanda Azevedo – Na verdade a gente está saindo daqui, mas esse é só o início do movimento. As nossas pautas existem há muitos anos e a gente tem plena consciência que sem uma mudança sistêmica nós não vamos alcançá-las. A gente tem duas coisas aí: algumas reivindicações muito precisas, que estão colocadas há muito tempo, e uma proposta política de mudança da ordem de como as coisas vem funcionando com a privatização da cultura. A gente vai continuar fazendo pressão para que seja aprovada a PEC 150, a PEC 236 e para que a gente tenha acesso aos fundos de cultura através de leis e editais claros e transparentes e contra a privatização da arte como mercadoria. Nossa luta é posterior à Funarte. Vamos fazer várias ações-bomba e o que for necessário para conseguir essas reivindicações. Fora isso a gente está fazendo todo um processo de formação e politização que não é menos importante que essas reivindicações pontuais.


A ocupação é um dos instrumentos máximos que os movimentos possuem para reivindicarem. Por que abdicar desse instrumento de luta agora?


A gente não está abdicando. A gente fez uma semana de ocupação aqui e fizemos uma avaliação política. As avaliações políticas eram feitas todos os dias, às vezes tínhamos duas assembleias por dia, e decidimos que o papel da ocupação da Funarte já havia sido cumprido. Esse aqui é um órgão falido. Desde o momento que entramos aqui, a gente sabia disso. O que a gente queria era ter um espaço onde nós pudéssemos começar a movimentação. Então, entendemos que politicamente nosso tempo aqui terminou. Não é à toa que nosso ato parte em direção ao Itaú Cultural, que é um dos maiores símbolos de privatização da cultura, do dinheiro público usado de forma privada. Se a função política da ocupação termina aqui, ela termina para abrir o caminho para outras movimentações e ocupações.


Por que você diz que a Funarte é um órgão falido?


Porque o orçamento da Funarte é mínimo, eles não têm poder de decisão para liberar verbas. A gente entrou aqui sabendo disso. A gente ocupou a Funarte em um ato político e também simbólico. Entramos sem nenhuma inocência, dizendo que, na verdade, as nossas reivindicações não podem ser oferecidas pela Funarte. Esse espaço é apenas um símbolo de uma regulação muito maior, e agora a gente vai [partir] para outras ações.


Quais são as consequências dessa ocupação para o movimento e o que ela sinaliza para o governo?


As consequências para o movimento são positivíssimas. Nessa semana que passamos aqui fizemos atividades de formação todos os dias. Estamos num processo de politização do movimento, de entender o que é ser trabalhador da cultura. Qual a diferença em dizer ‘não, eu sou uma artista, tenho uma ligação subjetiva com a vida’ e dizer ‘não, eu sou uma trabalhadora da cultura’? Discutimos isso aqui na Funarte, tendo a possibilidade de que a discussão durasse mais tempo do que quando estamos fora daqui. Isso é um saldo positivíssimo para nós. A gente está tendo a oportunidade de entender que nessa sociedade, do jeito como as coisas estão colocadas pra gente, a nossa luta imediata não tem muito saldo. Aí a gente começou a pensar em como abrir esse espaço, em como começar a criar culturas de outra sociedade. Tudo isso foi pensando aqui em uma semana de ocupação.


Com relação ao governo, nós tivemos um desmascaramento cada vez maior de como eles se relacionam com isso. Num primeiro momento eles se colocaram do nosso lado, mas é uma grande falsidade isso. Abrir as portas da Funarte e dizer que vão dar cafezinho pra gente é uma forma que eles têm de diminuir o nosso discurso, de dizer ‘nós estamos aqui do lado de vocês’, mas não fazerem nada. Foi isso que fizeram nos últimos oito anos. E o governo Dilma (PT) se mostra mais conservador ainda que o anterior. Então diálogo para quê? Para levarmos rasteira de novo? Agora eles é que tem que apresentar algumas ações concretas. A luta continua.


Quais os próximos passos do movimento? Tem alguma ação já prevista?


A gente vai ter uma assembléia de avaliação e planejamento de ações para a próxima semana. Tem várias idéias que serão propostas. Temos também duas cartas que serão lidas agora. Uma direcionada ao poder público e outra que é uma concretização de nossas conversas. A idéia é que essas cartas nos ajudem a pensar o futuro, o que foi [o movimento] e em que pode se transformar. Com certeza essa ocupação é muito diferente da que foi em 2009. Existe uma consciência muito maior do nosso lugar político, de que papel a gente ocupa não só dentro da nossa categoria, mas dentro da formação do nosso país. Propomos de verdade uma mudança sistêmica. O que a gente está dizendo é que não tem diálogo com o mundo do mercado. Isso em 2009 já estava apontado, mas agora temos isso com mais consciência. Dentro disso, temos que discutir o que conseguimos ter, em termos materiais, para sustentar nossa luta e o que a gente consegue ter, em termos políticos, para que a gente não se perca depois do acesso a esses bens materiais.

 

Fonte: Jornal Brasil de Fato - por Aline Scarso

 

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