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Cobertura da mídia sobre questões de gênero, raça e etnia

26/08/2011

Uma imprensa ética, livre e independente, que respeite a diversidade brasileira, só será possível quando a mídia romper com todo preconceito e discriminação com que trata as populações historicamente excluídas, em especial, os negros e indígenas. Para falar sobre esse assunto, as jornalistas Gleiceani Nogueira e Verônica Pragana, da Assessoria de Comunicação da ASA (Asacom), conversaram com Cleidiana Ramos, repórter do jornal A Tarde, de Salvador, especialista em estudos étnico-africanos e blogger do Mundo Afro, especializado nas questões de identidade, religiosidade e cultura afro-brasileira.

 

Cleidiana ministrou o Curso Gênero, Raça e Etnia para Jornalistas promovido pela ONU Mulheres e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com parceria do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco. O curso foi realizado na quarta e quinta-feira (17 e 18) da semana passada, na sede da ONG SOS Mulheres, no Recife.

Na entrevista, Cleidiana reflete sobre a forma como as mulheres, em especial, as do campo, são retratas pela imprensa, e critica os meios de comunicação pelo não reconhecimento das populações tradicionais como produtoras de conhecimentos. Para ela, a mídia comercial precisa passar por um "processo de descolonização do conhecimento” para, a partir daí, aceitar e reconhecer o saber popular e não só validar o conhecimento científico. A forma como os movimentos sociais se relacionam com a grande mídia, buscando espaços em mídias alternativas para falar com a sociedade, também foi assunto da conversa. Confira:

 

Asacom – De que forma os meios de comunicação retratam a mulher, em especial, a mulher do campo?

 

Cleidiana – Quando as mulheres são tratadas, porque o que a gente tem é a invisibilidade [das mulheres], elas são tratadas geralmente de uma forma estereotipada e a gente fala estereótipo no sentido amplo do termo. No caso das mulheres do campo, elas não são lembradas. Normalmente quando falamos de uma mulher envolvida no movimento sem-terra, se a gente a vê de camiseta e de jeans, acha estranho porque não é a imagem que a gente guardou da mulher do campo. A mulher do campo é aquela cabisbaixa, silenciosa, que obedece ao marido em tudo. É essa a imagem que a gente tem, que os meios culturais, cinema, TV, rádio, perpetuaram e massificaram. Então a gente [os meios de comunicação]não fala, a gente silencia na maioria das vezes.

 

Asacom – Em que medida esse retrato da mulher pela sociedade e pela mídia contribui para a violação dos direitos dessa população?

 

Cleidiana – Eu sempre achei que a ignorância, no sentido do desconhecimento, tem um papel muito forte. Em todas as questões de intolerância, seja religiosa, de diversidade sexual, ela tem um forte componente do desconhecimento, de você não saber do que se trata. Então, quando alguém acusa as religiões de matriz africana de serem cultuadoras e propagadoras do diabo, isso é de um nível de ignorância absurdo. Pelo seguinte: nenhuma dessas religiões tem a dimensão de mal no sentido dual da cultura judaica cristã. Para as religiões de matrizes africanas e para os próprios cultos sediados na África o mal nunca foi personalizado, nem personificado, nem atribuído a uma força externa porque eles trabalham muito na dimensão de que você é dono do seu próprio destino. Da mesma forma quando você não entende as mulheres, a luta delas, você não entende a própria contextualização, o que é que fez elas assumirem chefias de família, o que faz com que as mulheres estejam cada vez mais no mercado de trabalho. A própria relação de trabalho que as mulheres têm com as suas trabalhadoras domésticas, elas não raciocinam sobre isso muitas vezes. E, na maioria das vezes, só é possível ir para o mercado de trabalho porque tem a outra mulher que segura a sua casa porque a gente pode ascender como for, mas a administração da casa e o cuidado com os filhos continua atribuído para nós mulheres. O trabalho doméstico é talvez o trabalho que é tratado da pior forma possível. Muitas dessas mulheres trabalhadoras domésticas são mulheres do campo, que migraram para a cidade. E a gente não reflete isso. Então é uma coisa muito do desconhecimento, da ignorância.

 

Asacom – Da mesma forma que as mulheres, as populações tradicionais, a exemplo dos quilombolas e índios, são alvo de uma abordagem da mídia que criminaliza as suas lutas. Como lutar contra isso?

 

Cleidiana – Eu acho que os próprios movimentos estão respondendo a essa situação. E o que acho mais fantástico é que eles estão começando a compreender essa cultura da mídia e estão sabendo trabalhar com isso, sabendo que senão aparece nela de uma forma, aparece de outra, inclusive, virando as costas. Eles não estão perdendo muito tempo em cobrar que essa mídia os dê espaço. Eles fazem as próprias redes. É por isso que a gente tem as rádios quilombolas e as rádios indígenas. Eles estão falando não só para eles, mas para a sociedade como um todo. Então me parece que eles estão começando a compreender que é possível fazer o uso positivo dessa mesma mídia, que tantas vezes os criminalizou. E quando eles chegam para falar com essa mídia tradicional, eles já aprenderam tanto, que estão falando com muita propriedade, inclusive para cobrar e ter o direito de dizer: "Eu não quero falar com você!”. Porque eles têm esse direito. Às vezes, nós, jornalistas, ficamos num patamar muito arrogante. Todo mundo quer falar com você. E não é bem assim. As comunidades têm o direito de dizer que não querem falar. Se a gente notar bem, já não existe aquela queixa: "Ah, a gente vai contestar o que o Jornal Nacional deu ontem”. Não! A gente tem exemplos de várias cartas de relatos de violência que tomaram proporção depois que circularam meses pelas redes sociais. E só depois que a grande mídia se tocou. Então, hoje, esse entendimento e essa apropriação desses instrumentos é extremamente positivo.

 

Asacom – A mídia tem como referência o conhecimento acadêmico e científico para validar os conteúdos jornalísticos. Por outro lado, o conhecimento popular não é reconhecido como fonte. O que isso revela sobre o olhar dos meios de comunicação?

 

Cleidiana – Os meios de comunicação de modo geral precisam passar pelo processo que e a gente tá (sic) chamando de descolonização do conhecimento. A gente se acostumou a achar que o conhecimento só é produzido pela academia. Aí quando você vai ver, por exemplo, a variedade de conhecimento que as populações indígenas têm em relação às plantas e como elas podem atuar do ponto de vista da saúde e de cura inclusive. E eles [os indígenas] dominam o conhecimento de base dessas plantas. Mas, a gente ignora isso. Agora, quando a medicina vem e lança moda da fitoterapia, da homeopatia, nós ‘caímos de joelho’, inclusive, de fazer campanha por esse tipo de tratamento em relação ao tratamento alopático, de drogas. Porque a gente reconhece uma coisa que a medicina descobriu agora e não reconhece o que está neste país desde que ele é país? Então, ainda bem que já começa esse questionamento, vindo da própria academia, ou seja, ela mesmo se autoproblematizando. Isso já é um avanço e eu acho que essa discussão vai chegar também na imprensa.

 

Fonte: ASA Brasil - Articulação no Semiárido Brasileiro (Gleiceani Nogueira e Verônica Pragana) / Adital

 

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