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Três nações e o mesmo problema: a Vale

05/01/2012

Enquanto os impactos da mineradora Vale espalham-se, trabalhadores canadenses, moçambicanos e brasileiros reúnem-se para enfrentar as ações predatórias da transnacional nos três países.

 

A comitiva que contava com cerca de 30 pessoas, entre sindicalistas, membros de movimentos sociais e políticos das três nações iniciaram as reuniões em Guararema, interior de São Paulo, na Escola Nacional Florestan Fernandes, partindo na seqüência, para São Luis com desfecho no interior do Maranhão.

“Num primeiro momento foi mais de reunião, de análise de conjuntura entre os movimentos presentes”, relata o moçambicano Fabião Bernardo Manançia, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Construção Civil, Madeira e Minas de Moçambique –SINTICIM, que participou do encontro realizado entre os dias 22 de novembro a 2 de dezembro.

 

Na capital Maranhense, visitaram o complexo do Porto de Itaqui, onde é escoado para outros países o minério de Carajás, com navios capacitados para carregar até 400 mil toneladas do produto, aproximadamente três vezes mais que as 160 mil carregadas pelas embarcações comuns.

 

No entanto, com investimentos de 2,35 bilhões de dólares numa frota de 19 dos maiores cargueiros do mundo feito pela mineradora visando o mercado asiático, sobretudo a China, vem sofrendo um boicote da Associação de Proprietários de Navios da China – COSCO (China Ocean Shipping Company), estatal que é uma das maiores empresas de transporte marítimo do mundo.

 

“A Vale está tentando controlar o mercado de frete, assim como fez com o preço do minério de ferro”, disse à revista Bloomberg o vice-presidente da COSCO, Zhang Shouguo, em entrevista concedia em agosto.

 

Acostumada a burlar as regras ambientais, principalmente no Brasil, na China, outro entrave que pode afogar os grandes investimentos feito na frota naval pela empresa é o fato de no país asiático em nenhum porto seja possível receber navios com mais de 300 mil toneladas.

 

Espanto

 

De São Luis, os membros do encontro tripartite: Moçambique, Canadá, Brasil embarcaram no trem de passageiros que faz o trajeto da Estrada de Ferro de Carajás tendo como destino a cidade de Açailândia, no sul maranhense.

 

Um dos municípios mais emblemáticos da cadeia de produção do aço, onde as comunidades são impactadas por diversas formas. “Açailândia condensa em uma só área vários tipos de situações que comprometem o bem estar da população: mineração, desflorestamento, monocultura de eucalipto, poluição provocada pelas siderúrgicas e carvoarias, trabalho escravo, miséria, desnutrição e exploração sexual infantil”, relata o padre Dário Bosi, um dos coordenadores da Rede Justiça nos Trilhos.

 

Cenário que levou muitos visitantes ao espanto. “Realmente estou muito preocupado, assombrado, e com medo de que isso possa acontecer em Moçambique”, disse Manançia depois visitar o assentamento Califórnia, cercado por uma carvoaria e vasta plantação de eucalipto, e o bairro do Piquiá, onde cerca de 300 famílias sofrem com a poluição da água, do solo e ar provocados pelas cinco siderúrgicas instaladas no inicio da década de 1980.

 

O espanto do moçambicano não é exagero. Uma equipe formada pelo Centro de Referências em Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal do Maranhão, e do Núcleo de Estudos em Medicina Tropical da Pré-Amazônia, realizou um estudo no bairro abrangendo 55% dos domicílios. Segundo o relatório das equipes, o estado geral dos entrevistados era de regular para bom em 86,6% e com sinais de precariedade em 13,4%, ou seja, indivíduos que manifestavam falta de ar, estavam acamados ou eram possuidores de alguma doença degenerativa (diabetes, hipertensão arterial, doença de Parkinson ou doença cardiovascular).

 

Chama-se a atenção que 63,3% afirmaram ter tido alguma doença anteriormente e 41,1% têm alguma destas doenças atualmente. Quanto a manifestações orgânicas “as queixas recaíram sobre os pulmões e a pele”, revela o estudo. Ainda foi constatado que as manifestações ligadas ao aparelho respiratório (tosse, falta de ar e chiado no peito) foram queixas encontradas em todas as faixas etárias, inclusive com boa intensidade em menores de 9 anos de idade, além da cefaléia, encontrada em 61,2% dos moradores, que segundo a equipe médica “é um sintoma não comum em crianças dessa idade”.

 

As manifestações de alergia, acometendo as vias aéreas superiores e olhos (coriza e lacrimejamento) foram encontrados em 61,2% dos pacientes.

 

A visita se estendeu até o município vizinho de Bom Jesus das Selvas, onde, segundo o último censo realizado, 2010, mais de 50% da população vive com menos de setenta reais por mês. Assim numa cidade com aproximadamente 23 mil habitantes chegaram de uma hora para outra mais 3 mil homens para trabalhar na duplicação dos trilhos. O resultado os membros do encontro puderam escutar das comunidades, “em Bom Jesus das Selvas, está havendo um surto de gravidez entre as adolescentes, e a exploração sexual de menores está à vista de todo mundo. Basta andar de noite pelas festas e poderão ver os funcionários da Odebrecht saindo com essas meninas”, revela um assistente social da cidade que prefere não revelar seu nome.

 

Na opinião de Maria Aparecida Silva, que coordena um grupo de jovens na comunidade, isso realmente acontece, pois “aqui a vulnerabilidade social devido à pobreza é muito grande, essas crianças, adolescentes saem com esse homens, funcionários da Odebrecht, em troca de quase nada, apenas roupas novas, sandálias, ou alguns trocados” observa.

 

Minas

 

Minas Gerais, onde a mineradora completa 70 anos de exploração no próximo ano continua sendo o principal pólo mineral do Brasil, com cerca de 65% de extração de minério no país.

 

Não diferente das cidades maranhenses, os municípios mineiros impactados pela mineração, também sofrem com as investidas da empresa. “Em Mariana, a Vale está em processo de abertura da mina ‘Delrey’, dentro da cidade, toda a população é contra, pois vão destruir a cidade”, denuncia Efraim Gomes de Moura, assessor político do Sindicato Metabase Itabira e do Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos Municipais de Itabira (Sindsepmi).

 

Outro projeto da mineradora pode afetar o abastecimento da capital, Belo Horizonte, “a Vale pretende explorar a extração de minério na Serra da Gandarela, que é rica em fauna e flora e abastece hoje parte da água de BH”, diz Moura.

 

Moura lembra que no centro da cidade de Itabira, que teve a primeira mina aberta pela Vale em 1942, as pessoas sofrem com a poeira, abastecimento de água e se tornou uma cidade mono industrial, pois a escassez da água impossibilita outra atividade que não seja a mineração.

 

O sindicalista relata ainda que na cidade de Congonhas, na comunidade do Pires, devido à escassez de água “precisa ser abastecida todo dia com um caminhão enchendo as caixas das casas e entregando garrafas de água mineral, além da comunidade estar as margens da BR 040 que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, onde o tráfego nesse perímetro tem muitas carretas carregadas de minério atropelando muito pessoas, são constantes as mortes de crianças, idosos, mulheres e homens”.

 

Os três países

 

Moçambicanos, canadenses e brasileiros reconhecem que os impactos nas comunidades são os mesmos, no entanto, os estágios da mineração ganham contornos diferentes nas três nações.

 

“No Canadá a mineração é algo que já está consolidado”, diz a sindicalista Judith Marchall. Por isso as relações com a Vale no país são um pouco diferentes, “Não sei se a Vale faria com tanta facilidade assim, suas obras de expansão da mineração no Canadá, como faz hoje no Brasil, sem levar em conta as condicionais ambientais e sociais. Ela até faz suas obras, mas o governo canadense é mais rígido, sobretudo, com questões ambientais, ainda que haja bastante remoções de comunidades também”, explica o canadense Lorraine Michael.

 

A Vale lançou um plano de investimento no inicio de 2011, que poderá ultrapassar dez milhões de dólares em cinco anos para elevar em cem mil toneladas anuais sua produção de cobre em solo canadense.

 

No Brasil, o programa de Carajás se intensifica na região norte e nordeste com a duplicação da Estrada de ferro de Carajás, possibilitando nos próximos anos com a abertura da nova mina S11D, na fl oresta Nacional de Carajás no sul paraense, o escoamento de 220 milhões de toneladas de minério por ano. Estima-se um investimento de R$ 19,9 bilhões. Em Minas Gerais, no mais recente projeto da empresa para expandir a mineração no município de Congonhas, estaria desembolsando 12 milhões de dólares, o que poderia sumir com a Serra dos Mascates, tombada por ser patrimônio histórico. “Grande parte desses recursos são públicos, advindos do PAC e BNDES”, lembra Moura.

 

Entretanto, Moçambique é hoje, entre os três países, o território mais cobiçado pela Vale. Recentemente a mineradora adquiriu 51% das ações da Sociedade de Desenvolvimento do Corredor do Norte S.A – SDCN. Uma extensão ferroviária de 912 quilômetros entre o interior de Moçambique e o porto de Nascala, no mesmo país.

 

A aquisição é estratégica na visão do sindicalista moçambicano Manançia, “pois possibilita a empresa uma alternativa de transporte para enviar a produção do cobre para outros mercados pelo oceano, assim como também vai aproveitar para transportar outras cargas do eixo Zâmbia-Malauí-Moçambique”. O corredor logístico de Nascala receberá investimentos de 4,444 bilhões de dólares.

 

Segundo o sindicalista, o distrito moçambicano de Tete será um dos mais impactados, “hoje a mineração lá é em pequena escala, mas o projeto que foi finalizado recentemente pela Vale, de carvão greenfi eld passa a escoar de 6 para onze milhões de toneladas, com perspectiva de duplicação de 22 milhões de toneladas”, relata Manançia.

 

Embora a Vale propague seus investimentos monstruosos como forma de progresso em Moçambique, Manançia alerta, “já estamos sofrendo os problemas desse processo de expansão dos projetos da mineradora em nosso país, pois as pessoas estão sendo tiradas de suas terras boas para plantio e próxima às cidades para territórios distantes”, conclui.

 

Fonte: Brasil de Fato, por Márcio Zonta, de Açailândia (MA)

 

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