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Às margens de Itaquera, remoções

18/01/2012

A experiência da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, já dava sinais de que o Brasil, como sede da edição seguinte, não tinha tanto o que celebrar. No país africano, de realidade social semelhante à brasileira, as regras foram as remoções forçadas e sem indenização justa, territórios sem lei criados para garantir os lucros da Fifa, informações não prestadas a contento, corrupção massiva, obras questionáveis e superfaturadas, elefantes brancos (depois do evento), violação de legislação ambiental e tráfico de pessoas. Em terras tupiniquins, todos os movimentos do poder público têm levado a crer que o roteiro não será muito diferente. Há um mês, a Articulação dos Comitês Populares da Copa, formada por representantes das 12 cidades-sede, lançou um dossiê completo constatando violações de direitos sociais e ambientais. Pela amplitude geográfica e pela fartura de abusos, o documento impressiona.

 

Na região de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, está sendo construído o novo estádio do Corinthians, destinado a sediar a abertura da Copa. Será um dos três únicos estádios privados na lista da Copa; o único deles, entretanto, ainda a ser construído. O financiamento das obras, como em quase todos os casos, é público – tem origem no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Além disso, as obras do estádio, em Itaquera, receberão R$ 420 milhões em incentivos fiscais da prefeitura de São Paulo. O governo paulista também vai investir R$ 70 milhões na construção da arena.Orgulhosos, torcedores do time visitam o local para tirar fotos e fazer filmagens. É nas redondezas do estádio, no entanto, que se percebem problemas pouco abordados pelos veículos tradicionais de mídia. Seis comunidades do entorno já têm sentido a ameaça de impacto de empreendimentos paralelos à construção do estádio.

 

Carla Vaneide em escombros na Vila Progresso - Foto: Leandro Uchoas

 

A ampliação da Radial Leste, por exemplo, levou à remoção de casas na comunidade de Vila Progresso – cujas regiões mais próximas da rodovia têm mais de “vila” do que de “progresso”. Segundo os moradores locais, os agentes da subprefeitura chegaram repentinamente à área para promover a derrubada de casas. Os moradores conseguiram resistir, mas eles retornaram em seguida, em horário de trabalho. A moradora Carla Vaneide disse que sua casa quase foi derrubada com os três filhos dentro, já que estavam dormindo enquanto ela trabalhava. “Entraram em um acordo comigo. Disseram que não iriam derrubar agora, só depois. Mas vieram no momento em que eu fui trabalhar, e quase derrubaram. Com o que fizeram, minha televisão queimou. Paguei R$ 120 no concerto. Ninguém aparece pra falar nada”, disse, mostrando em sua casa as paredes tortas ou encharcadas de água.

 

Segundo os moradores da Vila Progresso, as remoções das casas do entorno são feitas de forma a também forçar os não removidos a querer sair o mais rápido possível. As casas que restaram, na região, têm as paredes empenadas, com infiltrações, e os moradores têm agora que conviver com ratos que surgem quando chove. Os que saíram contam com uma ajuda de custo de apenas R$ 300 para pagamento de aluguel, quantia insuficiente para as casas próximas ao local. “Não existe mais aluguel neste valor. O pessoal aí aluga casa pra pagar R$ 400, outros R$ 500. Quem saiu está muito insatisfeito. E aqui as coisas pioraram em todos os aspectos”, diz Cícero da Silva.

 

As contas de luz da região também ficaram, todas, repentinamente mais caras. Segundo os moradores, a subprefeitura avisou que o período de contrato de renda mínima teria acabado. “As contas de todo mundo aqui triplicaram. Eu pagava R$ 12, e agora veio R$ 30”, protesta Seu Aluízio. Segundo o professor Valter de Almeida Costa, são estratégias utilizadas justamente para se pressionar pela saída. Integrante das Comunidades Unidas da Zona Leste, espaço que articula as seis comunidades afetadas pelas obras da região, Valter protesta especialmente contra a falta de informação sobre o que se planeja para a região.

“O que seria justo é que a população de Itaquera tivesse acesso às informações, soubesse o que vai acontecer. Essa informação nós não temos. A população fica em completa insegurança. Às vezes nasce um filho ou neto, e a pessoa não sabe se pode construir um quarto pra ele. Não havendo informação oficial, o que existe é o terror dessas famílias”, reclama Valter. Segundo ele, está completando um ano que representantes das comunidades procuraram a subprefeitura para obter informação. No final de 2011, foi organizado um evento de suposto diálogo com a classe média local, sem que as comunidades fossem avisadas. No entanto, as lideranças ficaram sabendo e foram ao evento, sem encontrar qualquer espaço para dialogar.

 

“Vivo na comunidade há 37 anos. Criei meus três filhos aqui. A gente fica triste com o que está acontecendo”, diz Maria Nilza Severo, que guiou a reportagem pelas ruas de Vila Progresso, mas também se surpreendeu com os relatos dos moradores. “Nem eu sabia que estava acontecendo tanta coisa ruim”, disse, confirmando que a desinformação promovida por setores tradicionais da mídia atinge, inclusive, os vizinhos mais próximos dos atingidos. O que acontece em Vila Progresso também tende a ocorrer nas outras cinco comunidades – e, saliente-se, em todas as cidades-sede da Copa. Na Comunidade da Paz, os moradores também estão apreensivos, sem saber qual será seu destino. O comerciante Pedro Furtado sintetiza: “Parece que São Paulo só vai existir até 2014. Eles não conseguem entender que nós, das comunidades, somos o progresso de São Paulo.”

 

Fonte: Brasil de Fato, por Leandro Uchoas

 

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