ABONG -  - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

associe-se

conheça nossas associadas

Procure pelo nome em um dos campos abaixo:

selecione
selecione

Ou faça aqui uma busca detalhada:

selecione
selecione
selecione
selecione
  • APOIO

    • Fundação Ford
  • REDES

    • ALOP

"As mulheres em movimento ajudam suas organizações a trilhar à ofensiva”

07/03/2012

Há tempo que as mulheres brasileiras não seguem o exemplo das “Mulheres de atenas”, de Chico Buarque. “... Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram mais duras penas; cadenas...” e ao invés disso, hoje, elas lutam, juntam forças, fazem exigências e protestos.

Mesmo com todos os problemas que ainda persistem em relação às questões de gênero em nossa sociedade, as mulheres têm se mostrado fortes e desafiadoras ao se colocarem na linha de frete de muitas lutas e, assim, dão passos largos para transformações históricas na sociedade.

O dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, simboliza também o dia internacional de lutas das mulheres do Campo e da cidade. “... toda vez que as mulheres se põem em movimento dentro das organizações, elas ajudam as organizações a trilhar por um caminho de ofensiva, que é o caminho dos trabalhadores”, disse Kelli Mafort, do Setor de Gênero do MST.

Em entrevista, Kelli conta como as mulheres se posicionam em relação a algumas questões políticas, fala sobre a violência contra a mulher e sobre as distintas lutas que participam. Leia abaixo a entrevista.

Qual será o objetivo da Jornada de Lutas das Mulheres esse ano?

A Jornada esse ano tem como temas principais a questão do veto que estamos exigindo da presidenta Dilma sobre as alterações do Código Florestal. Achamos que as alterações no Código Florestal apenas favorecem os ruralistas e o agronegócio. Então, já estamos nos mobilizando para exigir o veto da Dilma.

Outro tema também presente na Jornada é a questão dos agrotóxicos. Esse já foi um tema discutido durante a Jornada do ano passado e que persiste, dada a posição que o Brasil ocupa no cenário mundial como um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, favorecendo principalmente as empresas ligadas a esse setor. 

Além disso, a Jornada também pauta a paralisia da Reforma Agrária. O ano de 2011 foi um dos piores anos da Reforma Agrária e nós queremos reverter esse quadro, pois o estado brasileiro tem se organizado para dar suporte ao agronegócio. As mulheres vão às ruas no dia 8 de março para denunciar essa situação de privilégio e exigir que a Reforma Agrária saia do papel.

Como as mulheres se posicionam e discutem no campo a questão da violência, do agronegócio, do agrotóxico, dos transgênicos e do Código Florestal?

A questão da exploração, no caso das mulheres, está inserida, em geral, na classe trabalhadora. Por isso, quando falamos em gênero no MST, também está ligado a questão da classe. São as mulheres inseridas na classe trabalhadora. Ainda vivemos numa sociedade patriarcal. A nossa luta é uma luta contra a sociedade patriarcal e contra a sociedade capitalista. O capital opera em diferentes dimensões e também na questão do patriarcado. A violência a qual as mulheres são submetidas são expressadas de diferentes formas. A violência física, a violência doméstica é uma dessas formas, mas, na realidade, a nossa luta é contra todos os tipos de violência contra as mulheres. 

Por que o sistema capitalista afeta principalmente as mulheres?

Nós dizemos que o sistema capitalista afeta principalmente as mulheres porque a luta por uma igualdade de direito, na caso das mulheres, é uma luta que não pode ser efetivada dentro desse sistema. A luta histórica do feminismo tem a bandeira da emancipação. No entanto, uma igualdade substantiva, que não é uma igualdade superficial, só na aparência, só é possível com alteração do modelo de sociedade. 

Nós vemos que essa luta fica mais forte, mais intensa no dia 8 de março. Apesar disso, muito ainda se faz o uso inadequado desse dia, como um dia de embonecar a mulher, além de uma série de deturpação do que é o dia 8 de março. Para gente, o dia 8 de março é um dia internacional de lutas, uma vez que os nossos direitos de igualdade não foram alcançados e não serão alcançados nessa sociedade. 

Além disso, a história tem mostrado que quando os trabalhadores e as trabalhadoras sem colocam em movimento, eles obtém conquistas. Não podemos esquecer que somos a maioria da população. Acho que a gente precisa ter essa concepção e acreditar que podemos ser muito mais feliz do que somos na sociedade atual e pra isso, temos que nos organizar, nos colocar em movimento. 

A luta não pode ser só pela Reforma Agrária. A luta tem que ser por uma transformação social não só do MST, mas também de outras organizações e de outras mulheres que não estão ainda engajadas em nenhuma organização. A gente precisa se dispor a fazer trabalho de base, a se movimentar para garantir essas conquistas.

A luta da mulher do campo está separada da luta da mulher urbana?

Sem dúvida é preciso uma unificação. As ações do dia 8 de março desse ano já revelam essa indicação. Em vários estados, as ações das camponesas vão acontecer junto às trabalhadoras urbanas. Por exemplo, o tema do Pinheiro, um tema que está bastante presente, uma ação que aconteceu no estado de São Paulo, no município de São José dos Campos, mas que representa também a luta dos movimentos sociais de uma maneira geral. 

Nossa luta é contra a repressão do Estado, contra a repressão aos trabalhadores. Isso mostra que não é uma luta somente do campo ou que há diferenças na luta do campo e da cidade. O caminho é esse. A própria ação que aconteceu nessa terça-feira (6), no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, da ocupação do Ministério da Fazenda, foi uma ação do MST, da Via Campesina e das trabalhadoras urbanas. Várias outras ações também estão nessa direção.

De que forma as camponesas pretendem contribuir para a construção da soberania alimentar no país?

A partir de 2006, a ação que nós realizamos na empresa Aracruz, no Rio Grande do Sul, foi um marco tanto da mudança na forma da luta do dia 8 de março como também uma luta que revelou as alterações no meio rural. Hoje, nós temos um campo organizado para o capital, que não garante a soberania alimentar. 

A ação de 2006 revelou um campo com pouca gente, de reprodução do capital e para empresas do agronegócio. As mulheres se organizam para dizer que não é esse o campo que nós acreditamos. Defendemos um campo que garanta a soberania alimentar, que seja um espaço da reprodução da vida e não da reprodução do capital. 

Qual o papel da mulher na luta pela Reforma Agrária?

Tem uma canção que diz “ser mulher, a luta vai pela metade”. Nós acreditamos nisso. Além disso, tem uma questão na base material da luta das mulheres que ajuda a puxar o Movimento para uma ofensiva ousada, uma vez que a exploração das mulheres trabalhadoras é dupla. Ela é dupla no sentido de que é uma exploração da classe, mas também há uma violência contra a mulher. A nossa manifestação da luta também é dupla. 

Acredito que essa dupla exploração puxa as mulheres para ações mais ousadas e com isso ajuda a puxar o interior das organizações, sejam elas do campo ou da cidade. Acho que toda vez que as mulheres se põem em movimento dentro das organizações, elas ajudam as organizações a trilhar por um caminho de ofensiva, que é o caminho dos trabalhadores.

 

Fonte: Página do MST, por Vanessa Ramos

 

PALAVRAS-CHAVE

  • PROJETOS

    • Novos paradigmas de desenvolvimento: pensar, propor, difundir

Rua General Jardim, 660 - Cj. 71 - São Paulo - SP - 01223-010
11 3237-2122
abong@abong.org.br

design amatraca