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Rio + 20 pra quem?

29/05/2012

Muito se tem falado sobre a Rio+20 que se realizará em junho. São articulações envolvendo membros dos governos, empresas de grosso calibre aproveitando- se do evento para promover seu marketing responsável e sustentável, são um sem-número de ativistas, intelectuais e cientistas se posicionando diante das perspectivas do encontro junino. Mas até agora, poucos apontam para o cerne do problema. A ONU, desde 1972, busca colocar na pauta dos governos o debate acerca das condições do planeta. A Eco-92 foi um momento importante nessa caminhada. Dalí se estabeleceram princípios e metas, as quais deveriam ter sido objeto de reflexão e ação daqueles que se comprometiam com os objetivos do Encontro que completa 20 anos. Nesse período, um conjunto de outras iniciativas pipocou pelo planeta, mas quase nada de concreto se fez. Deixando de pensar nas expectativas para falar da realidade, o modelo da ONU não pode ir além. Ou seja, nada. A lógica da articulação das Nações Unidas é criar uma estrutura de governança global que, a partir da criação de consensos se estabeleçam metas que os Estados nacionais possam implementar.

 

Formalmente os governantes até assumem responsabilidades e se declaram comprometidos com causas relacionadas à sustentabilidade, à preservação dos recursos naturais, das florestas, da água, da superação da pobreza, enfim, com um conjunto de temas que são consensuais em sua generalidade. Ninguém, nem mesmo os barões do agronegócio e os ícones do pensamento conservador e reacionário no Brasil é capaz de formular teses explicitamente contrárias às florestas e aos povos indígenas. No entanto, em cada país as metas são negociadas com o capital privado local, que impõe suas exigências e submete todos os acordos, transformando-os em letra morta. Infelizmente, nossos exemplos somente forçam essa tendência: são os megaprojetos, que atendem aos interesses do grande capital, avançando sobre os direitos das populações na cidade e no campo; é a sanha do agronegócio que impõe suas condições predatórias sobre a terra, mercantilizando tudo e todos; são os mais de R$ 60 bilhões em renúncias fiscais que o capital privado arranca dos cofres públicos em nome da manutenção do emprego etc. Da questão central pouco se trata. É possível falar em preservação das condições de vida no planeta sob o modelo econômico vigente? Sustentabilidade é um conceito aplicável sob o capitalismo? É sustentável construir um consenso no meio de tantos conflitos e interesses de classes?

 

Os grupos ambientalistas têm capacidade de intervir e alterar a situação sem uma ampla mobilização popular e sem construir um diálogo com os movimentos sociais? As lutas dos trabalhadores e suas organizações podem continuar ignorando os vínculos entre a luta ambiental e as lutas de classes? O grande capital ocupa os espaços e debate, a partir de sua lógica, os temas ambientais e ao fazê-lo submete-os aos seus interesses. Utiliza-se das mais variadas estratégias para segmentar mercados, oferecendo produtos responsáveis, que causam menos impactos ambientais, divide as responsabilidades ao tratar o indivíduo como co-responsável pela degradação ambiental, negociam créditos de carbono em bolsas, vendem seus logos e mantém suas marcas convenientemente distantes das cadeias agressivas. Criam agora uma nova era, a da economia verde, onde o capital privado assume responsabilidades pelos bens da natureza que passariam a ter um preço, transitando de bens comuns para bens privados, dependentes da lógica privada do lucro. É o fechamento do ciclo iniciado com os cercamentos dos campos comuns na Inglaterra nos séculos 16/17 estendendo-o em escala global. Os críticos do atual estado de coisas têm poucas opções de ação no interior da Rio+20. Ainda que exista alguma possibilidade de diálogo, ele está morto de nascença já que o Zero Draft, que é o documento proposto para o debate, condensa essa visão corporativa do problema ambiental.

 

A Cúpula dos Povos que será realizada em paralelo à Rio+20 reunirá a percepção dos movimentos sociais, dos trabalhadores, dos povos originários, enfim, daqueles que são os mais atingidos pelas mudanças climáticas e pelos processos de destruição em curso. O desafio maior é a articulação entre a crítica e a ação, permitindo a inclusão das pautas ambientais no cotidiano dos movimentos sociais. A superação do economicismo e do corporativismo das pautas sindicais e do ambientalismo sem perspectiva popular pode representar uma nova etapa nas lutas sociais, capacitando-os para o enfrentamento com o capital nessa nova fase. Embora a reunião paralela possa ter uma importância estratégica, o desafio é tornar tal articulação uma agenda concreta de ação, onde as lutas locais permitam a criação de uma sintonia entre os vários movimentos sociais e, ao mesmo tempo, construam alternativas ao capitalismo de qualquer cor, que resgate os bens-comuns, turbine a luta classista dos trabalhadores, promova a defesa dos direitos humanos, dos povos originários, dos biomas e das condições da vida como a conhecemos. Esse talvez seja um bom começo.


José Roberto Cabrera é diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro) Campinas.João Zinclar é repórter fotográfico

Fonte: Brasil de Fato, por José Roberto Cabrera e João Zinclar.

 

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