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Documento da Rio+20 ameaça direito à água

19/06/2012

O chefe da delegação da Bolívia nas negociações da Rio+20, Rene Orellana, ex-ministro da Água, alertou para o não reconhecimento, no documento oficial da ONU, do direito humano à água como expresso em resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas. "Estranhamente, apareceu no texto que o direito humano à água se reconhece no marco da água necessária à saúde mental e física. Os povos do mundo e a vida em geral dependem da água. E não se pode limitá-la como direito à saúde mental. Aqui temos um erro grave e um problema que devemos resolver. O direito humano à água precisa ser reconhecido."

 

Orellana também criticou a proposta de priorizar financiamentos a países que implementem o modelo de "economia verde". Ou seja, de privilegiar os governos que aceitem "essa economia verde com enfoque privatizante da natureza". Para ele, "é preciso respeitar a diversidade de modelos de desenvolvimento dos povos e governos do mundo. E essa diversidade também deve ter direito a financiamento internacional, apoio técnico e transferência de tecnologia."

 

Outro capítulo preocupante do documento de 50 páginas e 240 parágrafos, diz Orellana, é o que trata dos recursos para os projetos. "Alguns países desenvolvidos querem substituir a cooperação internacional por investimentos privados. Ou pela caridade privada, como sugeriram textualmente alguns. Isso é vergonhoso e insultante. Não podemos aceitar uma afronta desse tipo." A cooperação internacional é dever dos países desenvolvidos que, como destaca o ex-ministro, atingiram seus níveis atuais de qualidade de vida e industrialização com base nos recursos naturais dos países em desenvolvimento, na contaminação do planeta e no aquecimento global. "Eles são responsáveis por 75% das emissões históricas de gases efeito estufa e têm obrigação de prover a cooperação no  desenvolvimento."

 

A Bolívia pediu a inclusão de um parágrafo estabelecendo expressamente que a mudança nos padrões de consumo e produção seja feita, prioritariamente, pelos países desenvolvidos. "Não é possível que tenhamos um planeta em que esses países desperdicem 700 milhões de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a três vezes o alimento produzido na África Subsaariana", comparou o ex-ministro, que esteve ontem (17) na Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo. "É uma vergonha que tenhamos um bilhão de famintos, em comparação a 300 milhões há 30 anos. O que mudou no componente social? Queremos soluções claras e concretas para esses problemas." Nas negociações em curso na Rio+20, não só a Bolívia e a Aliança Bolivariana para os Povos da América (Alba), que reúne Venezuela, Antigua e Barbuda, Bolívia, Cuba, República Dominicana, Equador, Nicarágua, San Vicente e Granadinas, mas também o G77 tem atuado com críticas duras à abordagem privatizante da economia verde, que pretende inserir recursos naturais como ativos econômicos nas cadeias produtivas do mercado.


FOTOS DAS ATIVIDADES DA CÚPULA DOS POVOS PODEM SER SOLICITADAS PELA IMPRENSA, DURANTE TODO O EVENTO, A JOÃO ROBERTO RIPPER, NO E-MAIL: ripper@imagenshumanas.com.br

 

 

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