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Embrapa investe apenas 4% do orçamento em agricultura familiar

31/08/2012

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) se apresenta publicamente como uma instituição que tem como missão “viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, em benefício da sociedade brasileira.” No entanto, interesses comerciais parecem sobrepor a função assumida pela estatal. É o que alerta o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf), Vicente Almeida. 

Ele diz que há relatos de que a Embrapa estaria ingressando no continente africano para representar interesses de grandes corporações, como a fundação Bill Gates. Além disso, falta incentivo para projetos na área de agroecologia. Segundo Almeida, embora a agricultura familiar seja responsável por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, somente 4% dos recursos aplicados na empresa no ano passado foram destinados para pesquisa no setor.

A Embrapa, fundada em 1973, está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. É considerada uma das principais empresas no desenvolvimento de pesquisas na região tropical. Em entrevista a Radioagência NP Vicente Almeida analisa o papel desta empresa pública que detêm a 4ª maior reserva genética de alimentos de origem animal e vegetal. 

Vicente, qual a importância de uma estatal do porte da Embrapa?

Temos aí aproximadamente 1 bilhão de pessoas em situação de insegurança alimentar no mundo. Temos uma outra crise que é a crise energética, com a possibilidade de trazer soluções energéticas na área de agricultura sustentável. E também temos a crise ambiental e aquecimento ambiental. Então, toda a tecnologia desenvolvida hoje pela Embrapa pode ser usada para solução de boa parte dos problemas que estão aí causando para a população mundial transtornos e danos, às vezes, irreversíveis.

E qual tem sido o investimento da Embrapa nas pesquisas em agroecologia?

A gente percebe que o recurso destinado para a Embrapa nesse campo, por exemplo, é insignificante. O ano passado ela teve um aporte de R$170 milhões em pesquisa e [foi destinado] para agricultura familiar apenas 4% desse recurso, o que demonstra claramente que a agricultura agroecológica quando está presente dentro da empresa é apenas de uma forma marqueteira. É apenas para dizer que consta, mas não existe dentro da empresa e as próprias falas do diretor presidente da empresa em entrevistas em nenhum momento aponta como uma das prioridades da empresa o investimento em pesquisa para a agricultura familiar.

Qual é o papel da agricultura familiar? Por que ela merece ser tratada como prioridade?

A agricultura familiar e agroecologia é o que sustenta a população brasileira, 70% da alimentação, hoje, que vai para a nossa mesa vem da agricultura camponesa e da agricultura familiar. Então, esse é um desafio que o governo brasileiro, os movimentos sociais e o movimento sindical têm. Então, a gente precisa apontar esses equívocos na condução da política dentro da empresa de forma muito firme, no sentido de cobrar do Estado brasileiro o retorno devido a esse segmento tão fundamental e importante para o desenvolvimento da agricultura brasileira e para a segurança e soberania alimentar do povo.

As parcerias da Embrapa com laboratórios dos Estados Unidos e da Europa são positivas para o Brasil?

Nós ainda não temos elementos suficientes para demonstrar com clareza os impactos dessa cooperação internacional da Embrapa, o que nós temos são informações que apontam para um nível de repetição preocupante do mesmo modelo de pesquisa que está sendo implantado aqui e em outros países. Especialmente na África, a gente tem tido contato com trabalhadores do Itamaraty, com movimentos dos camponeses na África onde a Embrapa atua e temos ouvido relatos preocupantes em relação à condução da empresas nesses espaços.

Então, o que a gente na verdade cobra nesse momento é maior transparência em relação a execução dessas pesquisas que têm sido feitas em nível internacional e uma análise mais detalhada dos impactos delas. Se elas estão indo para efetivamente contribuir com a cultura local, com o fortalecimento das comunidades locais, com o fortalecimento da segurança e soberania alimentar desses povos ou se ela está indo, na verdade, como ponta de lança em um processo de internacionalização dessa agricultura nesses países, fortalecendo, na verdade, as empresas multinacionais e esse grande mercado de sementes e de alimentos que está se tornando o mundo.   

Você pode dar mais detalhes dessas denúncias?

Eu tenho relatos que a Embrapa estaria sendo ponta de lança da fundação Bill Gates na África ou da Monsanto e de multinacionais para representar interesses dessas corporações e não interesses legítimos das comunidades locais. E relatos que apontam também para devastação da biodiversidade local, com a mesma implantação da chamada Revolução Verde, que foi implantada aqui no cerrado brasileiro, lá na savana africana, repetindo os mesmo erros, como a devastação ambiental, perda da biodiversidade, expulsão de comunidades locais. 

Como você interpreta a decisão da Embrapa de descontar dos salários dos trabalhadores os dias parados em razão da última greve?

Ela [a Embrapa] tem se posicionado de uma forma muito equivocada no processo de negociação, rechaçando todas as propostas apresentadas pelos trabalhadores, e ainda se posicionando de forma a retirar os direitos e benefícios já conquistados anteriormente. Além de tudo isso, ela ainda não apresenta proposta econômica que vá para além da mera reposição da inflação. Com essa proposta, os trabalhadores avaliaram que era uma proposta muito rebaixada e desrespeitosa inclusive aos trabalhadores e eles rejeitaram por unanimidade. E como retaliação a essa decisão, a Embrapa não prorrogou os efeitos dos acordos coletivos vigentes, ou seja, todos os trabalhadores hoje da Embrapa encontram-se sem amparo dos direitos da já conquistados nesses últimos 23 anos de existência do nosso sindicato.

 

Fonte: Radioagência NP, por Daniele Silveira

 

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