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Marin foi ligado à ala radical da ditadura, dizem arquivos do regime

11/04/2013

Em sua carreira política, o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e do COL (Comitê Organizador Local), José Maria Marin, teve ligação com a ala mais radical do governo militar, conexões com órgãos de vigilância e de repressão e fez elogios ao regime. É o que revelam documentos dos arquivos da ditadura obtidos pelo UOL Esporte.

 

A reportagem pesquisou mais de 100 papéis relacionados ao dirigente nos arquivos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), do SNI (Sistema Nacional de Informação), órgãos que reuniam as investigações do regime, e na Assembleia Legislativa. A partir desta quinta-feira, será publicada uma série de reportagens sobre a atuação dele como político nos anos de chumbo.

 

O início da carreira de Marin foi aos 31 anos, como vereador em janeiro de 1964, pouco antes do golpe militar. Elegeu-se pelo PRP (Partido de Representação Popular) com base política em Santo Amaro, bairro da zona sul de São Paulo. Em 1966, foi para a Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido do governo.

 

A partir daí, iniciou sua ascensão com a ajuda do núcleo do regime. A ficha de Marin no SNI conta que ele chegou à presidência da Câmara de Vereadores graças a manobras nos bastidores do Ministério da Justiça, cujo titular era Gama e Silva, e de militares. O jurista foi o redator do AI-5 (Ato Institucional-nº5), que cassou direitos políticos e instituiu o período mais negro da ditadura no fim de 1968.

 

"Na verdade, a eleição de Marin resultou de um esquema montado pelo Dr. Luis Roberto Alves da Costa, chefe do gabinete do ministro da Justiça, com o apoio de correntes militares", relatou o SNI. Alves da Costa foi descrito como "truculento" e bem relacionado "nos meios políticos e policiais".

 

Uma análise do SNI, anterior à votação na Câmara, descreveu Marin: "É considerado fraco por seus pares. Consta que sua candidatura tem apoio de círculos militares e de elementos ligados ao ministro da Justiça." E, depois, o organismo analisou seu trabalho à frente da Câmara: "todos os atos de Marin (...) são "sugeridos" pelo esquema que o elegeu presidente da Casa".

 

É importante lembrar que políticos alinhados com o regime militar também eram alvos dos órgãos de investigação do governo. Dados sobre eles são mais confiáveis porque não têm influência da leitura política. Caso os investigados tivessem tendências esquerdistas, poderiam ser cassados.

 

A ficha de Marin completa no SNI, que concentrava informações dos aparelhos de vigilância, foi feita em 1978 quando se tornou candidato a vice-governador.  O político era descrito como "integrado" com a "Revolução de 1964" e com posição ideológica "democrata" – era a denominação dada pelo regime para quem o apoiava. Tanto no SNI quando no Dops não houve registro de atitude "subversiva" dele (contra o governo).

 

Sua fidelidade foi essencial para a ascensão, mas ele trocou de corrente entre os governistas. O documento do SNI contou que ele traiu Luis Roberto Alves da Costa, que o levara à presidência da Câmara dos Vereadores, para se aliar ao prefeito biônico Paulo Maluf. Assim, Alves da Costa passou a trabalhar contra Marin e até sugeriu que ele poderia ser cassado, o que nunca ocorreu.

 

Até porque Gama e Silva saiu do ministério no final de 1969. E Marin se manteve próximo da cúpula militar. Foi à posse do general Emilio Garrastazu Médici, que depois virou presidente, no comando do III Exército. Na década de 70, como deputado estadual, houve novas conexões com órgãos de vigilância e repressão.

 

Na campanha à assembleia, no final de 1970, Teresa de Carvalho pediu proteção ao Dops por ter sido "prejudicada e ameaçada" por Marin. Motivo: fazer campanha para outro candidato, Agnaldo Carvalho. O Dops não registrou ter tomado medida para atendê-la.

 

Em maio de 74, o político da Arena fez loas ao delegado Rubens Liberatori por sua nomeação à chefia do DEIC (Departamento de Investigação sobre Crime Organizado). Com Liberatori no comando, o DEIC efetuou a chamada "Operação Camanducaia".

 

Segundo o livro "Crianças e Adolescentes", cerca de 90 menores foram detidos no centro de São Paulo e depois postos em um ônibus policiado para o interior. Na rodovia, perto de Camanducaia, a polícia os expulsou, os despiu e os agrediu. Liberatori foi responsabilizado pela operação por chefiar o departamento. Em sua defesa, alegou que os policiais tinham agido à sua revelia.

 

No discurso, Marin revelou ser próximo a ele e ter frequentado seu gabinete. "Ninguém em São Paulo desconhece o trabalho, a honradez, principalmente o grande idealismo do dr. Rubens Liberatori", disse.

 

Foi também em 1975, em outubro, que o político fez dois discursos pedindo providências sobre a TV Cultura porque algumas reportagens não retratavam corretamente o governo. Dizia que os programas causavam "intranquilidade" nos lares de São Paulo. Pouco depois, o jornalista da emissora Vladimir Herzog, que era comunista, foi preso e assassinado pelo DOI-Codi, organismo de repressão.

 

No mês seguinte, o político do Arena pediu uma audiência no SNI, como informa relatório do próprio órgão. Não há nenhuma explicação nos documentos sobre o teor da reunião.

 

Um ano depois, em 1976, na assembleia, foi a vez de Marin elogiar o delegado Sergio Paranhos Fleury, um dos líderes do instrumento de repressão do Dops. "Não só honra à polícia de São Paulo, como também há muito é motivo de orgulho inclusive à população de São Paulo", discursou.

 

Também se mantinha alinhado ao governo federal e contrário à abertura política rápida. Em 1975, rechaçava a criação de terceiro partido, além do MDB e o Arena , posição igual a do então presidente Ernesto Geisel, a quem fez elogios. Foi mais explícito na exaltação ao regime militar em discurso em 31 de março de 1977, aniversário de 13 anos do golpe.

 

"Há 13 anos ocorreu o grande movimento revolucionário, em que o povo teve participação ativa. Para salvar este país que se encontrava à beira do caos", defendeu.

 

"Os períodos conturbados ficaram distantes para dar lugar a um período de paz e tranquilidade e permitir um maior progresso e desenvolvimento, tendo como base a segurança e a responsabilidade de todos os brasileiros", discursou na assembleia. Para Marin, os benefícios do golpe eram "indiscutíveis", não podendo restar dúvida sobre isso.

 

Tornou-se vice-governador pela Arena, em 1978, na chapa encabeçada por Paulo Maluf. Mas os indícios de sua ligação com aspectos mais truculentos do regime não cessaram como mostra um relatório do CISA (Inteligência da Aeronáutica), de 1980, sobre assalto ao jurista Dalmo Dallari Gama.

 

Defensor da democracia, Dallari foi espancado e acusou grupo paramilitar de direita. Ainda afirmou que o então vice-governador Marin tinha ligações com a agressão. O político negou e prometeu que o Dops, o órgão acusado de repressão na década de 1970, iria apurar o caso.

 

Já como governador, após a renúncia de Maluf, Marin passou a ser protegidos por policiais do Dops. O departamento de polícia registrou cada viagem ou participação do político em eventos públicos, como revelam os boletins do órgão. O objetivo era identificar se havia protestos contra o governador e contra o regime.

 

Questionado pelo UOL Esporte sobre os fatos relatados nos arquivos da ditadura, Marin se negou a falar sobre o assunto. Em texto à "Folha de S. Paulo", afirmou que era do partido do governo, mas que era "sabido por todos (...) que os deputados não tinham o menor poder sobre os órgãos do Estado". Completou:

"Ninguém deve negar a própria biografia. E a minha vida pública sempre foi (...) pautada pelos princípios republicanos que até hoje me guiam", disse, afirmando ter aprendido que "liberdade e justiça" devem andar juntas.

 

Marin ainda ressaltou que, como governador, extinguiu o Dops de São Paulo. Quando o departamento acabou, a abertura política estava próxima e aparelhos repressivos perdiam a força. Estava perto do fim o período de "paz e tranquilidade", nas palavras do atual cartola da CBF.

 

Fonte: Uol

 

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