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Católicas lançam campanha contra discurso “conservador” da Jornada Mundial da Juventude

23/07/2013

Com uma expectativa de público superior a 2 milhões de  pessoas, a JMJ (Jornada Mundial da Juventude) será realizada no Rio de Janeiro, entre os dias 23 e 28 de julho. Considerada um dos maiores eventos do ano, a jornada vai marcar a primeira visita oficial do papa Francisco ao Brasil.  O evento, tratado no clima de festividade, promete receber uma atenção especial da mídia, além de já contar investimentos do poder público estimado na casa dos R$ 120 milhões.

 

No entanto, nem todos veem na JMJ motivos para comemorar. Para a entidade Católicas pelo Direito de Decidir, organização não governamental feminista, a vinda do papa pode significar um momento “preocupante” para o debate em torno de políticas públicas sobre o aborto e direitos de homossexuais, além de representar um “retrocesso” na discussão da liberdade sexual dos jovens.

 

(Reprodução)

 

Para criar um contraponto ao discurso defendido na JMJ, a Católicas pelo Direito de Decidir lançou a campanha “O Papa vem aí? O que muda na sua vida?”, composta por uma série de vídeos que discutem “outras possibilidades” de se posicionar em relação à visão defendida pela alta cúpula da Igreja Católica. Confira abaixo a entrevista com Valéria Melki Busin , uma da organizadoras do grupo.

 

Fórum – Como surgiu a ideia da campanha? Qual o objetivo?

 

Valéria Melki Busin - A campanha “O Papa vem aí, o que muda na sua vida” é uma série de vídeos que aborda temáticas que vão do Estado laico, passando pelo direito ao aborto e pelo comportamento sexual. Ela foi criada com o objetivo de oferecer um discurso de resistência à mensagem conservadora, direcionada para os jovens, que ganha ainda mais visibilidade e é reforçada com a realização da JMJ (Jornada Mundial da Juventude) no Rio de Janeiro.

 

A ideia das Católicas pelo Direito de Decidir é produzir um contra-discurso àqueles que defendem uma moral sexual ultrapassada, do preconceito ao amor homossexual e da interferência da religião na elaboração de leis e políticas públicas. É preocupante a Igreja Católica defender um discurso que coloca os jovens em riscos ao proibir o sexo sem camisinha ou uso de anticoncepcionais. Queremos oferecer à juventude a possibilidade de pensar a partir de outros pontos de vista sobre essas mesmas questões, mostrar que existem várias possibilidades de ser católico e ser religioso.

 

A ideia não é fazer uma lavagem cerebral, mas oferecer informações para que esses jovens possam ter elementos para decidir como vão agir.

 

Fórum- Quanto vídeos? Quais as temáticas?

 

Valéria -Ao todo, são cinco vídeos, que produzimos com apoio do Elas – Fundo de Investimento Social. Até agora já disparamos três, um sobre a legalização do aborto, a questão homoafetiva e a da importância da defesa do Estado laico. Os dois próximos vídeos, que serão divulgados semana que vem, vão abordar, separadamente, o sexo antes do casamento e uso de camisinha.

 

Cada vídeo faz uma pergunta diferente, mas sempre relacionada com aquilo que percebemos serem pontos chaves do discurso conservador defendido pela Igreja Católica. São temas cruciais, em relação aos quais, ao invés de avançar, ela só retrocede e impõe aos jovens uma vida sexual reprimida, a exposição a doenças sexualmente transmissíveis ou ainda serve para reforça r um discurso de homofobia.

 

Fórum – O que muda com a vinda do Papa? Aumento do conservadorismo?

 

Valéria – O Papa Francisco traz algumas coisas bem complicadas. Em termos de figura pública, ele é muito mais carismático que Bento XVI, se mostra como alguém simples e mais humilde, demonstra ser mais voltado para as pessoas mais humildes, preocupado com justiça social, que é algo que também defendemos. Por outro lado, o Papa Francisco reforça o pior do conservadorismo católico em relação aos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Um exemplo disso é o Manual de Bioética para Jovens, que será distribuído na JMJ. Ele diz que uma mulher que fique grávida em decorrência de estupro deve levar a gravidez até o fim! Não fala sobre prevenção de gravidez e ainda informa, incorretamente, que pílula anticoncepcional é abortiva. Isso será entregue aos milhares de jovens que estarão presentes no encontro, o que é péssimo, coloca a vida dos jovens em risco, pois não lhes dá a oportunidade de tomar decisões fundamentadas em informações corretas para se proteger. Por isso, a vinda dele significa um retrocesso na discussão da moral sexual e dos direitos reprodutivos, pois a mensagem dele vai reverberar bastante na mídia. O alcance que esse discurso terá nos preocupa porque é contra essa mensagem que nos lutamos.

 

Fórum – Vocês esperam fazer uma disputa de discurso na JMJ?

 

Valéria – O nosso objetivo não é doutrinar as pessoas, não queremos fazer lavagem cerebral em ninguém. Obviamente, nos esforçamos para que mais gente pense como nós, que veja o mundo da forma como o enxergamos. Mas a ideia da Católicas é oferecer informação e conhecimento para que as pessoas sejam autônomas e tomem suas decisões bem informadas, conscientes. No domingo que antecede a JMJ, pretendemos estender algumas faixas em frente de algumas igrejas com mensagens sobre o tipo de igreja que a gente espera.

 

É importante ressaltar que a proibição do aborto e a homossexualidade não são dogmas da Igreja católica pois não são questões de fé. São temas da lei eclesiástica, que é o conjunto de normas feitas pela mais alta hierarquia católica relativas a moralidade que católicos devem seguir no seu dia a dia, portanto podem ser discutidos pelos fiéis.

 

Há um conceito importante no catolicismo que afirma que, quando você se encontra perante uma situação de dúvida, a melhor decisão que você pode tomar é aquela que é feita de acordo com os recursos da sua consciência. E ninguém pode ser considerado mau católico por isso. Isso faz parte do documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II. Infelizmente já faz algum tempo que a mais alta hierarquia católica não se ‘lembra’ disso.

 

Fórum – As igrejas, no Brasil, respeitam o Estado laico?

 

Valéria – Não, algumas igrejas não respeitam a laicidade do Estado. Uma coisa é fazer parte da discussão pública – quanto mais grupos tenham representantes, melhor para a democracia. Outra é querer impor, para toda a população, o que uma religião acredita ou entende como certo, é ter uma bancada religiosa que legisla de acordo com os interesses da sua denominação religiosa.

 

Também não vale o argumento de que maioria dos brasileiros são católicos ou cristãos. Democracia não é a imposição da vontade da maioria sobre uma minoria, democracia significa a defesa dos direitos humanos e a defesa da cidadania para todas as pessoas. Portanto, entendemos que participar do debate público é correto, convencer as pessoas com argumentos também. Agora, não faz sentido fazer uma lei para coagir alguém a agir de acordo com essa ou aquela crença religiosa, as pessoas devem aderir às crenças religiosas pelo que elas acreditam, porque querem seguir o seu coração e não por força de uma lei. Interferir nas políticas públicas de acordo com uma religião não é uma medida aceitável, é antidemocrático. Por exemplo, caso o aborto seja legalizado, quem quiser seguir a orientação da Igreja e não abortar, continua podendo levar sua gravidez até o fim. O problema é que hoje não há possibilidade de escolha para quem não acredita na crença religiosa que proibe o aborto, colocando a vida das mulheres em risco.

 

Fonte: Revista Fórum

 

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