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FSM: os desafios do altermundialismo pós-mobilizações

21/08/2013

Os militantes sociais que acompanham desde sempre os processos do Fórum Social Mundial (FSM) sabem que o modelo iniciado em Porto Alegre em 2001 está esgotado. O mundo era outro, os governos eram outros e os movimentos sociais eram outros. O FSM nasceu em contraposição ao Fórum Econômico de Davos que era a universidade do pensamento neoliberal, do estado mínimo, da crise dos projetos com dimensão social ou ambiental. Hoje, Davos não é referencia nem paradigma para nada. Sequer os “espertos” que ainda frequentam aquele evento conseguem refletir e autocriticar as suas próprias ideias. Por isso, não há mais nenhuma necessidade de se manter um fórum para contrapor Davos. A agenda neoliberal se esgotou por si mesma, ou melhor, se esgotou porque era mesmo o engodo que o FSM denunciava.

 

Por outro lado, a crise do modelo econômico neoliberal aprofunda-se mundo a fora. A Europa está envolta numa crise sem precedentes o que amplia as violações aos direitos sociais e trabalhistas dos próprios europeus e as violações dos direitos humanos dos não europeus residentes naquele continente. O fascismo e a homofobia crescem em sociedades que se entendiam como avançadas e modernas. O modelo europeu da terceira via, uma via social democrata que não condenava o modelo capitalista mas tinha um olhar para o social, está em profunda crise. Em parte a crise do modelo tem como origem o fato de que só era possível um estado de bem estar social na Europa se mantidas as desigualdades com os demais continentes. A barbárie se estala naquelas sociedades a cada dia que passa. Não se vislumbra uma luz no final do túnel num curto prazo, vide o massacre no Egito ocorrido nesta semana.

 

As outras potências – EUA, Japan e China – tratam de cuidar de seus problemas internos e de tentar manter o domínio sobre os mercados externos. Nada indica que haverá um refresco nos processos de controle militar promovido pelos EUA sobre vários territórios mundo a fora. Pelo contrário, imagina-se que as garras da águia estão se voltando para a América Latina com olhos focados na Amazônia e no Aquífero Guarani. A primeira a maior floresta tropical e o segundo o maior reservatório de água doce do Planeta. Tempos difíceis se vislumbram por aí.

 

A questão é que com as crises nacionais dos países da Europa e da África e do contexto interno dos EUA e da China, as articulações altermundialistas também sofrem uma grande crise e, dentro dela, o próprio processo do Fórum Social Mundial. Embora as edições de 2009 em Belém do Pará, de 2011 em Dakar e de 2013 em Túnis tenham sido excelentes do ponto de vista da participação de antigos e novos movimentos sociais, o processo de articulação internacional frente as novas dimensões da crise civilizatória estão patinando e não se vislumbra num curto espaço de tempo uma retomada efetiva.

 

As agendas que mobilizam os movimentos sociais pelo mundo são de caráter nacionais ou mesmo regionais. Muitas delas, de caráter temático. Não surgiram novas agendas e nem mesmo outras formas de enfrentar as crises econômica, social e ambiental. A maioria dos movimentos sociais estão cuidando de suas tarefas e agendas próprias sem uma maior capacidade de articulação com as agendas internacionais. O próprio processo de cooperação internacional norte-sul tão importante para fortalecer sujeitos autônomos em cada país está minguando, quase que encerrando completamente. Esta crise do altermundismo atinge o FSM e, mais particularmente o próprio Conselho Internacional que em Túnis não conseguiu resolver seu dilema de ser ou não ser.

 

O Brasil, por sua vez, entrou no calendário das mobilizações internacionais a partir dos novos fenômenos de junho. Embora ainda não haja a possibilidade de uma compreensão mais precisa do que isto significa, a realidade inquestionável é que o quadro anterior de movimentos semi-cooptados pelas políticas sociais do Governo não é mais uma verdade absoluta. Há no país vários novos atores e movimentos sociais que não comungam com o caráter e a velocidade das mudanças implementadas pelo Governo Federal. Isto coloca novos ingredientes na discussão das agendas nacionais e internacionais e pressiona para uma nova inflexão do papel e do caráter dos processos ligados ao FSM, dentre eles, o Fórum Social Temático de Porto Alegre.

 

Programado para os dias 23 a 26 de janeiro de 2014, a realização desta edição do FSTemático2014 cumpre um papel fundamental para reconectar os movimentos e organizações do FSM com estes novos sujeitos e atores, muitos deles, nascidos por dentro dos próprio eventos do FSM, como é o caso do MPL e do Fora do Eixo. Caberá a nós a capacidade de recriar os processos do Fórum Social de forma a incluir os novos atores e as novas formas de luta e de expressão social que estão a enriquecer nosso cotidiano democrático.

 

Apenas para não deixar passar batido, há um tema que os processos do FSM precisam enfrentar que é a questão dos partidos políticos e dos governos democráticos. Não se trata de discutir a cooptação da sociedade civil ou a partidarização dos movimentos sociais. A questão é que, mesmo prá quem defende uma sociedade sem partidos, tal medida precisará ser aprovada por alguma instância democrática. Assim, as agendas que reivindicam a radicalização de democracia com o lema democracia real já precisam dialogar com os representantes dos partidos políticos de esquerda para que as propostas destas agendas sejam incorporadas aos processos políticos em andamento.

 

A ausência deste diálogo leva a fragilização das agendas, como é o caso que vivemos hoje no Brasil em relação a reforma política. É preciso avançar na consolidação da democracia e para isso urge que seja consolidada uma hegemonia em prol da participação direta da cidadania na gestão das coisas do bem comum.

 

Mauri Cruz é advogado socioambiental com especialização em direitos humanos, professor de pós-graduação, diretor regional da ABONG e membro do Comitê de Organização do FSTemático2014.

 

 

Fonte: Sul21

 

 

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