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Ocupação de terra na zona sul de São Paulo propõe ‘nova vida’ a famílias

20/01/2014

São quatro cômodos. Uma sala, onde três crianças brincavam, com dois sofás de dois lugares e um móvel para televisão. Dois quartos, um para o casal e a filha Daniele, de 3 anos, outro para os dois meninos, Marcos, 6, e Daniel, 5. Deixar o calçado na porta é fundamental, porque a casa tem carpete em todos os aposentos. No fundo, uma lavanderia, ainda a céu aberto, com uma caixa d'água de 500 litros que serve a cozinha e o banheiro, que já está no contrapiso. Para Juciara Maria de Jesus, de 24 anos, que chegou há dois meses com o marido Domingos Souza, de 33, a felicidade que sente não pode ser descrita.

 

“Melhorou para todos nós, principalmente para as crianças. Tinha móveis que eu nem podia usar na outra casa, porque não cabia, e ficou amontoado na minha sogra...”, dizia Juciara, quando parou a descrição entre um sorriso tímido e olhos marejados, olhando Daniele brincar na sala e os meninos desaparecerem correndo pela porta da frente.

 

Antes, ela vivia em uma casa de dois cômodos, no Jardim São Rafael, extremo sul de São Paulo, pagando R$ 400 de aluguel. O salário de R$ 1,3 mil do marido, trabalhador da construção civil, sempre minguava antes do fim do mês e a situação parecia não ter perspectiva de melhora. Mas, há um mês, a família se mudou para a nova casa, que levou dois meses para ser construída.

 

No entanto, a descrição não trata de uma residência convencional, de alvenaria, menos ainda de uma construção do programa Minha Casa, Minha Vida. A moradia de Juciara é um dos 600 barracos distribuídos em uma área de 84 mil metros quadrados, feitos de madeirite, pontaletes e telhas, na ocupação Jardim da União, no bairro Mangue Seco, no Grajaú, extremo sul da capital. “A gente morava num porão. A casa era abaixo do nível da rua, mofava muito, e não tinha onde as crianças brincarem. Agora é tudo diferente. Nós adoramos esse lugar”, relata Juciara.

 

Não que os problemas sejam inexistentes. As telhas, em geral doadas, têm rachaduras e as goteiras são frequentes. Quando chove forte, a enxurrada ainda passa pelas laterais de muitos barracos, que estão direto no chão de terra. Por isso a maior parte dos moradores investiu em fazer, ao menos, o contrapiso dos barracos.

 

No barraco ao lado vive o cunhado dela, Edinaldo Souza, de 28 anos, com a esposa Maria Edneuza, de 33, e o filho Davi, de apenas 3 meses. “Melhorou 100% a nossa vida. A casa agora é muito maior e, o mais importante, não pagamos mais aluguel. Aqui vamos criar melhor o nosso menino”, disse, ao ser questionado sobre a situação do pequenino. Edinaldo morava em dois cômodos “apertados”, no Jardim Varginha, pagando R$ 300.

 

A ocupação tem pouco mais de três meses e foi iniciada em 12 de outubro do ano passado. Boa parte dos moradores são remanescentes da ocupação em um terreno no Jardim Itajaí, iniciada em 27 de julho, a cerca de cinco quilômetros da nova área. Após seis despejos, sendo o último cheio de relatos de truculência, sumiço de pertences, uso de força excessiva pela Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana, com bombas de efeito moral e balas de borracha, as famílias decidiram mudar de local.

 

À época do despejo, a subprefeita da Capela do Socorro, Cleide Pandolfi, afirmou que não iria permitir uma nova favela na região. Porém, essa ocupação, visitada na quinta-feira (16) pela RBA, passa ao largo do estereótipo.

 

Há uma série de regras de organização que estão sendo observadas para evitar que a área se torne um amontoado de gente. “Hoje não entra mais ninguém. Os arquitetos que nos apoiam disseram que dá para distribuir 514 moradias. Além disso, fazemos vistorias todo dia para garantir que não tem barraco fechando rua ou algum amontoado de gente”, explica Mariano. Todos os moradores foram cadastrados em uma lista de controle. Cada grupo tem um coordenador, que é escolhido pelos vizinhos e fica dois meses nesta fundação.

 

A Rede de Comunidades do Extremos Sul de São Paulo, que organiza a ocupação, está negociando com a prefeitura de São Paulo e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) para estabelecer moradias populares na área. Em outra frente, em parceria com a Usina – coletivo de arquitetura –, a Rede está desenvolvendo um projeto habitacional compatível com o terreno e a área verde.

 

Enquanto isso, os moradores vão construindo um novo bairro. A rua de entrada é larga, assim como as que cortam as áreas centrais dos dez grupos. Cada barraco pertence a um desses grupos e tem numeração própria. Todos os barracos têm energia elétrica, puxada de um dos três pontos em que os eletricistas locais fizeram ligações gerais. A água encanada também é encontrada em todas as moradias, no mínimo, em uma pia na cozinha. Alguns barracos têm até chuveiro elétrico.

 

A energia passa por postes improvisados, a cerca de três metros de altura. Alguns têm lâmpadas para iluminar a passagem. Pendurado em um dos pontos de energia, o eletricista Deilson Alves de Oliveira, 40 anos, que há 20 trabalha no ramo, passava uma nova fiação pelo terreno. “Estamos distribuindo melhor para não ter risco. Conseguimos doação dos próprios moradores e arrecadamos dinheiro fazendo bingos. Com isso pudemos comprar a fiação adequada para evitar queda de energia e perigo de incêndio”, explicou.

Os banheiros se destacam. Item problemático pelo risco à saúde, a maioria aqui está no contrapiso e tem descarga. Os que não têm o dispositivo mantêm tambores com água e um baldinho para garantir o serviço. A limpeza deles não deixa nada a desejar. Todos os moradores fizeram fossas sépticas e não há qualquer rastro de esgoto correndo pelo terreno.

 

Além do esgoto, o lixo também tem recebido atenção, tanto que a área é bem limpa. Há lixeiras coletivas distribuídas pela ocupação e todos sabem o dia que o caminhão passa. “Nos fins de semana fazemos mutirões para garantir a higiene”, disse Mariano. Porém, ainda há problemas. É grande o número de locais marcados pela queima de resíduos, como forma de dar fim ao que ficaria acumulado. “O caminhão de lixo não vem até onde está a ocupação e precisamos mudar a cultura de se livrar do lixo de qualquer jeito, o que leva um tempo”, justifica.

 

“Temos muitas crianças e a maior parte da área está no chão batido. Não dá para deixar a sujeira se espalhando por aí. Queremos viver bem”, resumiu Mariano.

 

Viver bem inclui comer bem. E nesse ponto os moradores do Jardim da União estão investindo e trabalhando, num retorno às origens. “Meus pais plantavam. Muitos aqui vieram do interior, trabalharam na agricultura”, explicou a acompanhante de idosos Maria Lucineide Ferreira, que terminava o plantio da segunda horta comunitária da ocupação.

 

A primeira, já em fase de colheita, tem alface, cebolinha, coentro, escarola, abóbora, maxixe, pimentão, algumas ervas medicinais e até pés de melancia. Sem usar agrotóxicos, os moradores têm feito compostagem com as sobras de alimentos consumidos.

 

“A horta não é particular, é para a comunidade. Todo mundo ajuda e come. E por isso mesmo, ninguém bagunça”, contou Raimundo Rodrigues, que também tem um bar, onde vende produtos de limpeza, doces e salgadinhos, e a 'marvada' cachaça, que, claramente, não pode faltar.

 

“Veja mais uma branquinha, então, que agora nós vamos fazer um som”, pede um morador, antes de correr para os instrumentos que ele faz questão de mostrar para a reportagem. A ideia é mobilizar um carnaval na ocupação e criar uma bateria de escola de samba, guardadas as proporções. Mas, enquanto não fica oficial, os moradores vão se divertindo, inclusive as crianças.

 

Segundo o coordenador Mariano Pereira de Moraes, 43 anos, cada pessoa tem ajudado com o que sabe. E o local é uma verdadeira mina de profissões: há pedreiros, eletricistas, encanadores, mecânicos, músicos, agricultores, cuidadores de saúde, cozinheiras, costureiras, grafiteiros e até professor de espanhol que está dando curso gratuito no terreno. “Mas ele trabalha de dia. As aulas são na segunda à noite e sábado à tarde.”

Não falha também a realização de um culto evangélico toda sexta-feira, às 19h, na praça da ocupação. “Para acalmar os ânimos e agradecer por mais uma semana”, explicou Mariano.

 

A ocupação possui ainda dois barracões destinados às atividades socioculturais. Ontem funcionava a oficina degrafiti, que é para todas as idades. Os moradores pretendem ainda começar turmas de alfabetização, computação e uma rádio comunitária. Tem também uma cooperativa popular, que começa a ganhar corpo com costura e estamparia.

 

No caso da costura, a proposta é obter renda para as participantes. Falta apenas uma ligação de energia que suporte as três máquinas de costura, disse Helena de Melo Silva, 69 anos, que, junto com o parceiro boliviano, Firmino, dará aula para pelo menos 13 pessoas. “Já temos encomenda de bonés de lona, quando tiver as máquinas ninguém segura”, afirmou.

 

Helena contou que morava no Jardim Santa Fé, próximo ao acampamento, em um cômodo de uma casa que ocupou há 12 anos. Ela passou por todos os despejos da ocupação no Jardim Itajaí. Mas afirma que o processo não traumatizou. “Quanto mais expulsaram a gente, mais vontade deu de ficar na terra.”

 

A expressão gravada no rosto e os cabelos brancos não correspondem à empolgação dela ao falar da nova vida na ocupação. “Gosto de andar descalça, sentir a terra nos pés. Nunca me senti tão feliz como aqui. É uma loucura, mas é muito legal.”

 

O parceiro de Helena não estava na ocupação. Ele faz parte de uma pequena comunidade que existe no Jardim da União, com 20 bolivianos. A reportagem encontrou um compatriota dele, Juan Apaza Orellana, 34 anos, quatro deles vivendo no Brasil, construindo seu barraco com o filho Brad Alexander, de 11, nascido no Paraguai.

 

O sustento da família vem de uma pequena oficina de costura onde trabalham ele e a mulher. Os dois moram com os quatro filhos em uma casa de três cômodos, alugada por R$ 500, no Jardim Floresta. Um dos cômodos foi dividido para fazer a oficina. Na história deles fica claro que a situação de quem tenta conseguir uma casa própria é mais complexa do que parece. “Nós não passamos necessidade. Mas estamos presos à situação em que vivemos. Não temos condições de fazer um financiamento nas condições existentes hoje. Não quero ganhar nada, mas tem de ser de um jeito que possamos pagar”, explicou.

Uma dificuldade no processo de mudança dos moradores está relacionada à escola das crianças. Alguns moradores temem transferi-las de escola e sofrer um novo despejo.

 

Vitória, de 11 anos, filha do coordenador Mariano, vai continuar estudando na Escola Estadual Professor Carlos de Moraes Andrade, na Vila Brasília, onde a família morava. Já as irmãs Stefany (11) e Emilly (8) Ferreira das Neves vão estudar em uma escola próxima à ocupação. Estão só aguardando confirmação.

As crianças são as mais empolgadas em morar na ocupação. “Aqui a gente pode fazer tudo”, exclama Emilly, ressaltando que a casa “do bairro” não tinha quintal e a mãe não queria que elas fossem para a rua. “Aqui tem tanta coisa para fazer. Posso ir para a horta, no grafiti, na costura, no sarau...”, a lista segue e o sorriso da menina não deixa dúvidas que algo há diferente naquelas terras.

 

Outras ocupações

 

O movimento de ocupações no extremo sul de São Paulo começou em julho do ano passado. Em um mês surgiram 11 ocupações. Hoje restam quatro. Além da descrita nesta reportagem, o Jardim da Luta, no bairro Jardim Gaivotas, tem cerca de 600 famílias e está em negociação com a Caixa Econômica Federal.

A Povo Unido Para Vencer, no Jardim Lucélia, aguarda definição da prefeitura sobre o que fazer no terreno, que foi desapropriado na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) para a construção de um parque. E o terreno da Granja Onoda, onde fica a ocupação Recanto da Vitória, foi vendido à Caixa Econômica Federal, por aproximadamente R$ 9 milhões, e vai receber um empreendimento do Programa Minha Casa, Minha Vida, mas que não contemplará as famílias acampadas.

 

 

Fonte: Rede Brasil Atual, por Rodrigo Gomes

 

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