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O pré-sal, o Brasil e o mundo

31/01/2014

Diversificar os investimentos em energia abre portas para um modelo de desenvolvimento mais limpo e alinhado com o século 21

De Sergio leitão, d
o Greenpeace

O artigo "O pré-sal e o Greenpeace", do jornalista Igor Fuser, é bastante oportuno ao permitir que um debate sobre os impactos do pré-sal se inicie - o que não aconteceu até agora, apesar da gravidade da situação e dos alertas do Greenpeace. Nesse espírito, os seguintes pontos merecem ser levantados:

1) O Plano Decenal de Energia prevê que entre 2013 e 2022 serão investidos 1,15 trilhão de reais no setor energético: 72,5% vão para o setor de petróleo e gás, apenas 4,9% serão direcionados a biocombustíveis e 3% a novas renováveis, como eólica, biomassa e PCHs. Por mais que o petróleo seja ainda necessário no mundo, cabe questionar se o Brasil, país periférico como escreve Fuser, deve concentrar maciçamente seus investimentos nesta área.

Há riscos estratégicos nesta decisão. Apenas para citar uma questão atual, não há avaliação se o investimento nesta área se justifica em função da concorrência vinda da exploração do "gás de xisto" americano, que pode fazer com que os preços se realinhem, inviabilizando o pré-sal.

Se os recursos econômicos para fazer o desenvolvimento nacional avançar são tão limitados e podem não se materializar totalmente, apostar todas as fichas em uma única área pode comprometer nosso futuro. Por outro lado, diversificar os investimentos em energia abre portas para um modelo de desenvolvimento mais limpo e alinhado com o século 21.

2) É preciso arbitrar se o Brasil afinal é ou não um país periférico no contexto global. Fazemos conversas de gente grande sobre investimentos. Temos um dos maiores PIBs do mundo. De devedor do FMI, viramos credor. Nesse contexto, equiparar nossas escolhas energéticas a vizinhos periféricos é contraditório.

Além disso, é equivocado qualificar o pré-sal como a "bala de prata" que vai solucionar os imensos problemas sociais do país, começando pela falta de saúde e de educação universais e de qualidade. Será que não existe mais desigualdade no país causada pela concentração de renda nas camadas mais ricas da sociedade nem pelo mau uso dos recursos disponíveis? Concordaremos com o economista Delfim Netto, que quando ministro da Fazenda da ditadura dizia que, para resolver as desigualdades do país, precisamos primeiro crescer o bolo para então reparti-lo?

3) Os custos ambientais precisam ser expostos, explicitados e incluídos na análise de risco da exploração do pré-sal. Os blocos mapeados entram em conflito com áreas prioritárias de conservação de biodiversidade no Brasil.

Apesar disso, o plano de contingência contra acidentes apresentado no ano passado é mero documento de trabalho, vazio de ações ou estratégias concretas. Como lembra Fuser em seu artigo, a exploração de petróleo em alto-mar está longe de ser uma atividade sem riscos - aliás, no mesmo dia que o artigo foi publicado, um vazamento aconteceu na plataforma P-7, na Bacia de Campos. O impacto potencial para o ambiente é gigantesco.

5) O efeito dos gases-estufa provenientes da queima do petróleo é global: não importa se o consumo aconteceu dentro ou fora do Brasil pois, como disse o ex-presidente Lula, a Terra não é quadrada.

O país deve produzir 5 milhões de barris de óleo por dia em 2020, segundo o Plano de Negócios 2011-2015 da Petrobras. Esse óleo queimado representa 784,7 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera - atmosfera essa que não respeita fronteiras geográficas.

Também vale lembrar que, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, órgão ligado à ONU, os mais pobres são os mais vulneráveis aos efeitos perigosos da alteração climática, começando por eventos climáticos extremos. O pré-sal pode ser aquele remédio que cura uma pneumonia, mas faz a úlcera sangrar.

7) Ainda que os planos iniciais do governo sejam exportar a maior parte da produção do pré-sal (e as emissões de gases-estufa relacionadas, como se isso fizesse sentido uma vez que o planeta é um só), os estímulos dados à indústria automobilística mostram que tudo pode mudar.

Em 2012, as emissões vindas do setor de transporte responderam por quase metade (47%) dos 437 milhões de toneladas de CO2 equivalente gerados pela produção e pela geração de energia no Brasil. As metas de mitigação no setor de transporte, incluindo o plano de mobilidade urbana, são tão pífias que acabam por reforçar que o futuro do Brasil é ter mais engarrafamentos alimentados por mais petróleo. É esse o país que queremos no futuro?


Fonte: Brasil de Fato

 

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