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Desmobilização dos protestos não desanima movimentos, que já articulam ações pós Copa

07/07/2014

A pouco mais de uma semana da final da Copa do Mundo Brasil Fifa 2014, a sociedade civil organizada já articula a continuidade do movimento de oposição após o megaevento. Confrontado durante os jogos com um grande aparato policial do Estado, que reprimiu manifestações populares com violência institucional e disseminou junto com setores da mídia comercial forte discurso ideológico para deslegitimar e criminalizar as vozes dissonantes, os movimentos sociais preparam, agora, mais uma etapa no contínuo embate entre as forças hegemônicas do Poder Público e a resistência popular.

Em entrevista à Adital, o jornalista Roger Pires, integrante do Comitê Popular da Copa do Estado do Ceará e midiativista, elenca ações sobre as quais o movimento deverá se debruçar. Primeiramente, ele relembra que houve várias violações aos direitos humanos entre diversos grupos sociais, e a articulação popular deverá buscar mitigar esses danos por meio de plano de reparação às pessoas atingidas. Além disso, chama a atenção para a necessidade de auditoria dos gastos da Copa.

Outras demandas, aponta Pires, são aperfeiçoar as redes de proteção a crianças e adolescentes e discutir a banalização da repressão da polícia. O midiativista destaca ainda que as questões evidenciadas no processo de organização e execução da Copa do Mundo deverão repercutir na percepção de representação política da população e, portanto, nas eleições 2014, cuja campanha já se inicia neste mês de julho para a escolha de presidente, governadores, deputados federais e senadores. "A gente vê que as pessoas não estão satisfeitas”, avalia.

Durante as três primeiras semanas de jogos do Mundial, o número de participantes nos atos de rua decresceu sensivelmente se comparado ao mês anterior à abertura da Copa, provocando uma reconfiguração nas ações do movimento. "A partir do momento em que se percebe o recrudescimento da repressão sobre uma manifestação de rua tradicional, é de se esperar que sejam buscadas novas táticas que tentem promover uma maior mobilização popular, sem expor as pessoas à violência da polícia militar”, avalia Tiago Almeida, membro do Comitê Popular da Copa de São Paulo, em entrevista à Adital.

De acordo com ele, há uma intencionalidade clara na proposição de táticas diferentes das consolidadas, mantendo o atravessamento do discurso opositor nas estruturas hegemônicas de poder. Com isso, ações lúdicas como intervenções teatrais, a Copa Rebelde dos Movimentos Sociais (com jogos de rua), enterros simbólicos e panfletagem nas FanFests mantêm o espaço propositivo. "Os megaeventos, enquanto aparelhos do sistema capitalista, semeiam, inevitavelmente, táticas que colocam em questão a ordem econômica imposta, como os black blocs. As ações populares têm tomado formas diversas e estão em plena reconfiguração”, analisa Tiago.

Construção político-ideológica e força militar

Na avaliação de Tiago Almeida, o enfraquecimento da mobilização se deve a um movimento ideológico e repressivo do Estado. "Cresceu muito a quantidade de propagandas pró-Copa produzidas pelos governos federal e estadual. Esse movimento, que fortalece o caráter festivo, ufanista e contagiante do evento, coloca o amor pelo futebol e pela nação como prioridade e mobiliza as pessoas para apoiarem incondicionalmente a seleção”, analisa.

Segundo ele, ao mesmo tempo, o forte investimento em um arsenal repressivo contra quem questionasse a Copa nas ruas foi determinante para a evasão da participação popular nas ruas. "Foi levado a cabo o lema ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’, retomado da ditadura: nossas opções se reduziram a apoiar a Copa e torcer pela seleção ou ir às ruas protestar contra as violações de direitos humanos sob o risco de ser agredido fisicamente pela polícia, ir para a prisão, sofrer processos judiciais ou ter acusações mediante inquéritos ilegais, o que têm sido visto em cidades como São Paulo, Porto Alegre (Estado do Rio Grande do Sul), Goiânia (Goiás) e Rio de Janeiro”, aponta Almeida.

Imagem da Copa e dos movimentos sociais


Encaminhando-se para a última semana dos jogos, Almeida avalia que os movimentos populares estão mais organizados e contam com legitimidade por parte considerável da população brasileira. "Creio que o reconhecimento da Copa da Fifa como articuladora de violações de direitos, como à moradia, ao acesso ao espaço público e à cidade, ajudou a promover essa maior organização e legitimidade, demonstrada principalmente por movimentos de moradia, que têm ocupado indiscriminadamente centro e periferia”, indica o ativista.

Consonante, Roger Pires diz acreditar que o movimento perdeu adesão nos atos de rua, porém ganhou na circulação de ideias. "Por mais que não tenha havido tanto apoio em quantidade, o engajamento é qualitativo. As pessoas envolvidas têm histórico de luta, militância, inclusive sabendo o que pode acontecer com a repressão desmedida”, ressalta.

Membro do Comitê Popular da Copa do Rio de Janeiro Mario Campagnani diz acreditar que houve uma mudança estrutural na forma como a população brasileira observa a Copa do Mundo. "Se você perguntar a qualquer um se acredita que o Mundial trouxe benefícios para o país, seja de direita ou esquerda, fã de futebol ou não, rico ou pobre, a resposta é não. As pessoas continuam a torcer pela seleção, é claro, mas não têm mais uma visão inocente sobre como a Copa foi montada”, explica, em entrevista à Adital.

Indagado sobre as diferenças entre a mobilização social das Jornadas de Junho de 2013, durante a Copa das Confederações no Brasil, que levaram milhares de pessoas às ruas, e a decrescente adesão popular aos atos de rua observada durante o Mundial no último mês, Mario pondera: "Acho que junho de 2013 foi algo fora da escala, que pode voltar a acontecer, é claro, mas também não pode ser o parâmetro para as mobilizações. O que está sendo feito nas ruas hoje ainda é muito importante”.


Fonte: Adital

 

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