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O que estamos vendo são operações de guerra contra manifestações

07/07/2014

Polícia e Exército nas ruas. Helicópteros sobrevoando as cidades. Tropas de choques sempre a postos. Cavalaria. Veículos especiais. Desde o início da Copa do Mundo, estas são cenas cotidianas nas cidades-sede e, com isso, uma forte onda de repressão se instalou diante de qualquer tentativa de mobilização e protesto social

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“Como as polícias tiveram grandes dificuldades em conter não só as grandes mobilizações de 2103, mas também as manifestações em comunidades revoltadas contra assassinatos de jovens pela polícia, enchentes ou falta de serviços essenciais, o Estado optou por investir no aparelhamento repressivo ao invés de resolver os problemas que motivam as manifestações”, afirma, em entrevista, Igor Moreira Pinto, integrante do Movimento de Conselhos Populares do Ceará e da rede Jubileu Sul Brasil.

Já são centenas os casos de violação, apreensão e detenção de manifestantes que protestam motivados pelos vários questionamentos que rondam a realização do mundial. E a pergunta provocadora, ressalta Igor, continuará atual: Copa para quem?

Confira a entrevista.


A truculência, abuso e violência policial seguem nestas manifestações para a Copa 2014. De alguma forma, os movimentos sociais já estavam preparados para esse momento, já esperavam que houvesse todo esse aparato, levando em conta as de 2013?

igor1Igor Moreira Pinto - Na verdade, houve um esforço articulado entre a grande mídia, os órgãos de repressão do Estado e a indústria armamentista transnacional para que se criasse um clima de guerra que justificasse o gigantesco investimento feito. Diziam que era para combater “black blocs” que ameaçavam a Copa, mas na verdade todo esse aparato se volta contra os trabalhadores em luta, as comunidades e movimentos sociais que lutam pelos direitos à cidade.

Então, como as polícias tiveram grandes dificuldades em conter não só as grandes mobilizações de 2103, mas também as manifestações em comunidades revoltadas contra assassinatos de jovens pela polícia, enchentes ou falta de serviços essenciais, o Estado optou por investir no aparelhamento repressivo ao invés de resolver os problemas que motivam as manifestações. Juntando isso com a escalada do autoritarismo, esperávamos sim um clima de guerra contra as manifestações. Só que nós não queremos guerra, nem nunca nos propusemos a usar a violência na luta por direitos e liberdade que caracterizam os movimentos sociais. Nós vamos pra rua pra denunciar, reivindicar e não guerrear, e o que estamos vendo são operações de guerra contra manifestações.

É possível tirar daí qual será o legado deixado pela Copa no que diz respeito à criminalização das manifestações e movimentos sociais?É possível tirar daí qual será o legado deixado pela Copa no que diz respeito à criminalização das manifestações e movimentos sociais?

Igor Moreira Pinto – Enquanto as denúncias e reivindicações dos movimentos são quase ignoradas, a grande mídia e os governos fizeram dos “black blocs” uma cortina de fumaça, superestimando esse fenômeno com uma megaexposição nas coberturas e discursos, apresentando à sociedade uma falsa ameaça para justificar a criminalização e a repressão dos movimentos populares. A grande mídia prefere silenciar a expressão dos movimentos que questionam a estrutura social e política do Brasil, bem como comunidades que lutam por direitos civis frente à violência que parte do próprio Estado e extermina pessoas, viola residências, abusa, reprime cidadãos.

O grande objetivo de todo essa operação midiática, que usou histericamente a defesa da Copa pra justificar as escaladas autoritária e armamentista do Estado, é controlar e reprimir as lutas de trabalhadores de setores estratégicos da economia, movimentos que lutam por terra, território, recursos naturais, moradia, transporte, entre outros movimentos sociais, além é claro das populações pobres, principalmente urbanas, que têm se rebelado cotidianamente neste último ano em comunidades, bairros, ruas e avenidas das cidades brasileiras.

Com o início do Mundial, há uma clara tentativa da mídia em desqualificar as manifestações, na verdade sempre houve, mas parece agora mais latente…Pode falar mais sobre isso?

Igor Moreira Pinto – A mídia sofreu muito em termos de descrédito a partir de junho de 2013. A sua capacidade de pautar a sociedade caiu muito. Certamente a Copa é uma grande oportunidade de recuperar parte de sua influência sobre as opiniões, sem ser confrontada por visões críticas quanto à sua cobertura. A Copa no Brasil e a seleção são perfeitas para criar uma homogeneidade dócil e sob fácil controle das instituições que foram desmoralizadas em 2013, como a própria mídia tradicional, inclusive encobrindo os conflitos cotidianos, coisa que não vinha conseguindo fazer ultimamente.

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Para isso era necessário isolar a voz dos insatisfeitos, sobretudo os atingidos pelas remoções, despejos, intervenções arbitrárias, perseguições… Assim se tornou muito difícil para essas pessoas e seus movimentos se expressarem, pois o conteúdo de suas manifestações não aparecem na mídia, e ainda têm que enfrentar a repressão policial legitimada pelo discurso midiático e seus rótulos. Mas essa homogeneidade patriótica é etérea, não existe de fato em canto nenhum a não ser na tv, se desmanchará ao fim da Copa, e a diversidade da sociedade, com seus conflitos, continua se manifestando nas ruas e outras esferas de lutas, transformando a cultura política brasileira.

Dentro de todo esse contexto sobre o qual conversamos que significado ou re-significado tem o “Copa pra quem”?

Igor Moreira Pinto – Ao contrário da evocação patriótica- futebolística durante o espetáculo da Copa, o questionamento a quem ela serviu continuará super atual após o evento. Será a hora de questionar quem paga a conta e quem se beneficiou com a farra de recursos públicos, projetos supérfluos ou mal executados, as próprias remoções e outras alterações nas cidades para satisfazer interesses do mercado imobiliário.

Ao mesmo tempo, continuarão as resistências aos projetos elitistas que despejam e removem, impactam as vidas das pessoas de diferentes formas, sem trazer contrapartidas em qualidade de vida para as cidades. Também continuarão as lutas por transporte público e outros serviços urbanos essenciais à vida dos cidadãos e que devem ser garantidos como direitos, mas são tratados como mercadoria, não atendem a população a contento e ainda espoliam através de altas taxas e tarifas cobradas por empresas concessionárias. Lutas por moradia, por infraestrutura urbana e social não param de crescer em todo o país. Além das lutas pela democratização das instituições, como regulamentação social da mídia e desmilitarização da polícia por exemplo.

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Então, ao continuar questionando Copa pra quem, continuaremos combatendo o endividamento público para investimentos de interesses privados, as decisões autoritárias de intervenções nas cidades, a limitação de direitos e o estado de exceção. E em relação ao evento em si, acho que a sociedade terá sim muitas contas a acertar em termos de gastos públicos, abuso do poder e repressão, atribuição de responsabilidades.


Fonte: Rede Jubileu Sul Brasil

 

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