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México pede ajuda na busca por estudantes

02/12/2014

Desde o dia 26 de setembro, 43 estudantes mexicanos têm paradeiro desconhecido. Os jovens eram normalistas com idades entre 18 e 21 anos, alunos da escola rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, conhecida por sua formação crítica e por ser um núcleo socialista campesino. Os normalistas haviam viajado para a cidade de Iguala, em 26 de setembro, com o objetivo de encontrar meios para participar da Marcha que marca o Massacre de 02 de outubro de 1968 (conhecido como Massacre de Tlalelolco). O grupo encheu alguns ônibus, com o objetivo de direcioná-los para a capital. Foi quando a polícia de Iguala, sem nenhum tipo de diálogo, cercou os estudantes e abriu fogo contra eles. Seis pessoas morreram e 25 ficaram feridas. Os 43 desaparecidos estavam em um ônibus que foi cercado pela polícia. De acordo com testemunhas, os estudantes foram levados em microonibus pela polícia, alguns já feridos. O fato mergulhou o governo do presidente do país, Enrique Peña Nieto, em grave crise e atraiu os holofotes da mídia internacional. Até o momento, 74 pessoas foram presas, entre elas o ex-prefeito de Iguala José Luis Abarca e sua esposa, María de Los Angeles Pineda. Foi criado um Fórum Global México e a Ferida do Mundo, com o objetivo de divulgar internacionalmente o caso, além de denunciar as violações de direitos humanos que estão ocorrendo no país. Integrante deste movimento, a mexicana Alejandra Lobato escreveu o artigo abaixo para o Canal Ibase. As semelhanças com o Brasil não são poucas, especialmente se levarmos o fato de que a escola rural Raúl Isidro tem uma formação de cunho político voltada para o mundo rural. No Brasil, multiplicam-se os assassinatos de lideranças camponesas. Na América Latina, não são poucas as tentativas de silenciar a população. Vale a pena pensar este cenário como um todo e também as peculiaridades do governo mexicano, que levam à ocultação de informações do que tudo indica ter sido um massacre de 43 estudantes.

Alejandra Lobato*
Para o Canal Ibase

México - 43 alunos desaparecidos

Depois de 43 estudantes normalistas terem desaparecido em Iguala (Guerrero, México) em virtude da ação da polícia municipal e da prefeitura local, o povo mexicano está mostrando sua revolta. Multiplicam-se protestos ante o tempo que agora vivemos, agitado, corrupto e violento demais. Estas respostas têm acontecido em muitas partes do mundo, inclusive no Brasil, como no fórum “México e a ferida no mundo”, que conjuga diferentes ações em contexto acadêmico com manifestações de rua. Estes atos são para sensibilizar outros países a aumentar a pressão sobre as autoridades e organizações de direitos humanos de todo o mundo para procurar justiça neste caso.

Na madrugada do dia 27 de setembro, alunos da escola rural “Escuela Normal Rural Isidro Burgos”, em Ayotzinapa, foram mortos a tiros pela polícia local sem portarem armas ou cometerem qualquer ilegalidade. Eles foram para Iguala, onde estava acontecendo um evento político organizado pelo prefeito da cidade, José Luis Abarca. Ao que tudo indica, foi ele quem deu a ordem à Polícia para capturá-los. O que se sabe até o momento é que policiais locais se juntaram com uma poderosa facção, conhecida como Guerreros Unidos, para atacar os alunos. Três alunos morreram no ataque, junto com mais três pessoas que não tinham relação com eles. Mais tarde, 43 alunos foram sequestrados por autoridades locais e estaduais. Eles estão desaparecidos até agora, sem que haja resposta alguma do governo sobre isso. (Entenda a cronologia do caso)

A primeira resposta do governo do presidente Enrique Pena Nieto foi a criminalização dos estudantes. Depois, como não teve o resultado esperado, o governo mexicano mobilizou um número enorme de pessoas para procurar os alunos desaparecidos. As famílias, logicamente, não acreditam no governo e também foram em busca de seus filhos. Durante a operação de busca oficial, foram descobertas covas clandestinas com 62 restos mortais de pessoas que não são os alunos. Fica no ar a pergunta: quem são aqueles corpos?

No dia 7 de novembro de 2014, depois de 48 dias sem saber dos estudantes e já depois de muitos protestos da população, o Procurador-Geral Jesús Murillo Karam, explicou em conferência de imprensa – com uma montagem e narrativa similar as de séries policiais -, que é muito provável que os 43 alunos tenham sido assassinados e depois incinerados num aterro sanitário. Ao final da entrevista, ele falou: “fiquem tranquilos, vamos seguir procurando os estudantes, porque ainda não temos certeza”. Esta linha de investigação deixa de lado nomes de políticos e diversas figuras públicas, que se aposentaram de uma hora para outra.

Esta versão oferecida pelo governo tem sido questionada pela Equipe Argentina de Antropologia Forense, que teve acesso às provas (graças à pressão que as famílias e as sociedades mexicana e internacional exerceram). Esse grupo de especialistas  afirma que não há nenhuma prova científica de que os restos encontrados no aterro sanitário pertençam aos alunos ausentes e que informações mais confiáveis só são possíveis depois de uma análise das amostras, mas isso vai levar meses para estar disponível.

Mas esta tragédia não é um ato isolado. O partido que agora nos governa nasceu no poder, chegou ao poder fazendo alianças com diferentes grupos políticos e poderosos. Depois de 70 anos na liderança do país, saiu e voltou com uma proposta de governo à direita. Em seu segundo período, começou a chamada “guerra contra o narcotráfico”. Desde então, nossas notícias são cada vez mais violentas e cada vez é mais explícita a relação entre o governo e os grupos criminosos. Aumenta também a resposta violenta por parte do governo, que quando não sabe o que fazer opta por reprimir e silenciar quem não está contente.

A importância dos meios midiáticos massivos para dar esta informação tem sido forte, mas não podemos esquecer que são eles também quem legitimam muitas das ações do governo. Na campanha presidencial de 2006, as grandes mídias do México dedicaram-se a difundir medo sobre a chegada da esquerda na presidência. Ao assumir a presidência, Felipe Calderón teve que dedicar esforços para se legitimar e começou um forte discurso de luta contra o narcotráfico em que as políticas de tolerância eram um ponto central e, aproveitando-se da lógica da guerra, as mortes começaram a ser vistas como danos colaterais.

O governo criminaliza, contribuindo para o aumento da violência; banaliza as agressões; minimiza a importância dos direitos humanos; desumaniza quem são mortos nestes atos e implementa uma política do medo.

A justiça é cada vez mais lenta, quando dá resultados de fato, e a população cada vez acredita menos no governo e na mídia.

No domingo 16 do novembro, o presidente do México afirmou que o governo tem o direito de exercer legitimamente a violência. Isto, dito neste contexto, só faz com que as pessoas se sintam ainda mais ameaçadas por seu governo, que sabemos ser corrupto e aliado com o narcotráfico. É por tudo isso que sentimos a necessidade de compartilhar e divulgar informações corretas, deixando claro que não foi só uma desaparição, senão a gota d’agua de uma série de atos absurdos e violentos onde a justiça é vista como inalcançável.

Enquanto este artigo era escrito, já havia novas notícias por parte da polícia mexicana. Depois de uma manifestação pacífica, 11 pessoas foram presas e levadas a uma prisão federal, acusadas de tentativa de homicídio e terrorismo. A velocidade com que as coisas estão acontecendo não permite manter a cabeça fria, mas é preciso se questionar sobre as atitudes do governo e os atos violentos que se sucedem. Precisamos separar quem faz e quem diz que faz. Não podemos esquecer nem ficar olhando para o televisor, não podemos voltar às novelas nem ao Teleton, não podemos comprar as verdades que nos vendem, não podemos só nos sentarmos e esperar. Ainda há muito caminho por andar e com certeza não vai ser fácil.

*Alejandra é integrante do grupo RJ Brasil do Fórum Global México e a ferida do mundo

 

 

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