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1º de Dezembro: um dia para lembrar a vulnerabilidade das mulheres frente ao HIV/AIDS

02/12/2014

Dados do Boletim Epidemiológico 2013 do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais do Governo Federal indicam que, de 1980 até 2012, o Brasil registrou 236.212 casos de mulheres com AIDS, o que corresponde a mais de 35% dos casos existentes no país. Em 2013, mais de 5 mil mulheres foram diagnosticadas com a doença.

Às vésperas do Dia Mundial da AIDS, 1º de dezembro, e passados mais de trinta anos do primeiro diagnóstico no Brasil, as mulheres soropositivas ainda enfrentam inúmeras barreiras, tanto na prevenção quanto no tratamento da doença.

No país, a diferença entre o número de homens e de mulheres soropositivas tem diminuído de forma significativa. Se em 1989, a cada 6 casos de AIDS entre homens havia 1 entre as mulheres, em 2012, último dado disponível, essa diferença caiu para 1,7 caso em homens para cada caso em mulheres.

O Boletim chama atenção para o fato de a maioria dessas mulheres ter se contaminado em relações estáveis, o que indica uma falha na prevenção entre os casais. 

“Muitas mulheres têm dificuldade de negociar o uso do preservativo em uma relação sexual, o que faz com que não utilizem nenhuma proteção. Com isso acabam correndo um risco maior de transmissão do HIV e outras DSTs”, alerta a infectologista Mariliza Henrique Silva, do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Sem proteção, as mulheres entram em situação de duplo perigo, uma vez que, por fatores biológicos, elas estão mais propensas à contaminação pelo HIV. A infectologista Mariliza explica que isso ocorre porque a mucosa da vagina é uma área mais propensa à penetração do vírus e a superfície de contato do órgão genital feminino é maior se comparada à masculina.


Outros fatores aumentam a vulnerabilidade das mulheres

Para se proteger, as mulheres precisam vencer a cultura machista que as revitimiza. “A responsabilidade quanto à prevenção das DSTs é sempre colocada para a mulher. Nas relações heterossexuais, o homem se recusa a usar preservativo e isso acaba interferindo nos direitos da mulher de decidir”, explica Marinalva Santana, coordenadora do  Grupo Matizes, uma organização de Teresina que defende a livre orientação sexual e os direitos dos LGBTs. Uma alternativa de proteção, caso o parceiro se negue a usar a camisinha, é optar pelo preservativo feminino.


A Lei Maria da Penha também protege do HIV/AIDS

Para a ativista Nair Brito, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, a violência, tanto psicológica quanto física, também é um fator de risco para as mulheres. “Muitas relatam que foram coagidas a fazer sexo sem proteção porque são casadas com um homem que as agride, mas que sustenta a casa. Essa submissão financeira, psíquica e social também vulnerabiliza as mulheres. A presença contínua da camisinha em todas as relações em um casamento fixo ainda é uma questão não resolvida”.

Para Nair, que atua na área há 22 anos, é preciso fortalecer as mulheres para que mudem seu posicionamento diante das imposições do parceiro. Isso pode ser feito por meio de grupos que forneçam orientação e alternativas para que elas criem uma nova perspectiva de autossustentação. “As mulheres estão se descobrindo como sujeitos de direitos e essa proteção da Lei Maria da Penha é um avanço em para a redução da vulnerabilidade, ajuda a criar novos horizontes e fortalecer as mulheres”.


Lésbicas também devem se proteger

Nas relações homoafetivas entre mulheres também é preciso se prevenir. “Entre os casais de mulheres existe também o risco de contaminação pelo vírus HPV. O que orientamos sempre é que faça sexo com preservativo, seja oral, anal ou vaginal. Recomendamos que não compartilhem vibradores, mas, caso façam, utilizem o preservativo. O risco de contágio do vírus HIV é menor, mas existe”, explica a infectologista Mariliza.

Apesar disso, a ativista Marinalva Santana lembra que o estudo “Saúde sexual e reprodutiva de mulheres que fazem sexo com mulheres”, desenvolvido pela ginecologista Andrea Rufino com 582 mulheres lésbicas em cinco capitais revela que, nas principais práticas sexuais entre mulheres, o sexo vaginal com os dedos (97%) e o sexo oral (95%), o preservativo é deixado de lado. Menos de 7% delas utiliza algum mecanismo de proteção. No uso de vibradores, a proteção é mais frequente (cerca de 60%).

As lésbicas ainda enfrentam inúmeras barreiras no sistema de saúde, desde a ausência de uma escuta qualificada pelos profissionais de atendimento à falta de cobertura dos planos. Para Marinalva Santana, os LGBTs e as mulheres negras sofrem mais para conseguir um tratamento adequado no sistema público de saúde.

“A conclusão da pesquisa da professora Andrea Rufino é de que a proteção não acontece por vários fatores, seja por desinformação ou por manter uma relação monogâmica e homossexual, muitas acham que não estão sujeitas à contaminação, não só pelo HIV, mas por outras DSTs também. AIDS não escolhe idade, raça, sexo, orientação sexual; mas, obviamente, grupos discriminados sofrem mais com a contaminação”, afirma Marinalva. Entre os casos de AIDS entre mulheres notificados em 2012, 53,4% eram de mulheres negras.


Efeitos colaterais afetam autoestima e afastam do tratamento

A partir da segunda metade da década de 90, o surgimento de diversos medicamentos anti-retrovirais fez cair o índice de mortes por AIDS. Porém, os efeitos colaterais dos medicamentos ainda afastam muitas pessoas do tratamento. A lipodistrofia, que deixa pernas, braços, nádegas e rosto finos, e abdome, tórax e nuca com concentração excessiva de gordura, traz efeitos negativos, como a perda da autoestima de homens e mulheres.

Nair Brito toma os medicamentos há vinte anos, uma rotina que ela admite não ser nada fácil. No trabalho com outras mulheres soropositivas, Nair percebe como a lipodistrofia e as disfunções hormonais afastam várias do tratamento. “A nossa reivindicação há vários anos é que seja feito um estudo para saber por que isso acontece e se existem drogas que podem ter um efeito diferente. Hoje, as drogas são iguais para homens e mulheres, na mesma dosagem. Os homens também sofrem efeitos colaterais, mas para as mulheres isso tem aparecido muito mais”.

Esses efeitos podem comprometer ainda mais a vida de mulheres que já são obrigadas a vencer diariamente o preconceito por serem portadoras do vírus HIV ou por terem AIDS. “A sociedade tende a vê-las de forma ainda mais enviesada do que quando se trata de um homem que apresenta HIV/AIDS. Esses olhares são carregados de vários preconceitos, como o de que a mulher é omissa e, portanto, teria dado motivo para se infectar. São várias ideias equivocadas e preconceituosas que refletem exatamente o pensamento machista da nossa sociedade”, analisa a coordenadora do grupo Matizes.


Casais sorodiscordantes e prevenção da contaminação do bebê

Quando o HIV/AIDS foi descoberto, era impossível para uma mulher soropositiva ou com um parceiro soropositivo pensar em ter filhos. Hoje, apesar de existirem tratamentos que tornam isso possível, a dificuldade está em garantir o acesso a todas as mulheres.

O registro de HIV em gestantes e recém-nascidos tornou-se obrigatório a partir de 2000. Segundo estimativa do Departamento de DST e AIDS do Ministério da Saúde, em uma gravidez em que a mulher é soropositiva as chances de infecção do bebê são de 20%, quando não há nenhum tipo de tratamento ou acompanhamento, o que traz também os riscos de contaminação no momento do parto ou durante o aleitamento.

Mas em situações em que a grávida segue todas as recomendações médicas, com o acompanhamento do pré-natal ao pós-parto, a possibilidade de infecção do bebê cai para níveis menores que 1%. Para auxiliar casais que têm ou não o vírus, em 2012 o Ministério da Saúde destinou 10 milhões de reais para estabelecimentos de saúde de Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife e São Paulo que realizam procedimentos de Atenção à Reprodução Humana Assistida, no âmbito do SUS, incluindo fertilização in vitro.

No caso de homens soropositivos, os tratamentos ainda são raros. Uma técnica recente, desenvolvida no laboratório da Faculdade de Medicina do ABC, limpa o sêmen, separando os espermatozoides do plasma, parte em que se concentra a maior carga viral do HIV.

Mesmo com avanços, resultado também das lutas de movimentos sociais envolvidos na causa, a ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas avalia que o acesso precário aos tratamentos pode levar casais sorodiscordantes a ter filhos de forma insegura, aumentando o nível de contágio.

“A vida [do casal] pode ser normal, mas é preciso que haja assistência e acesso, ou as pessoas vão se expor a riscos”.

Fonte: Agência Patrícia Galvão

 

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