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Educação Contextualizada em pauta no Ceará

14/04/2015

Se ler Paulo Freire é empolgante para quem é apaixonado por uma educação pública, gratuita e de qualidade, é no mínimo revigorante conhecer na prática o que se debate em ambientes acadêmicos, militantes e populares sobre como deveria ser uma escola comprometida com a transformação das/os sujeitas/os e da própria realidade.



Foi para trocar esse tipo de energia que educadoras/es e agentes Cáritas de várias partes do Brasil participaram do Intercâmbio Nacional de Educação Contextualizada, realizado nos últimos dias 25 a 27 de março, nos sertões dos Inhamúns-Crateús, no Ceará, com objetivo de vivenciar a experiência exitosa nesse modo de ser de escolas públicas acompanhadas pelo núcleo regional da Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (Resab) e Cáritas Diocesana de Crateús (CDC).

Pelo fato da Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido (ECCS) ser uma das ações mais consolidadas da CDC, foi aproveitado o evento para fazer também o início do ano celebrativo pelos 10 anos de existência desta instituição, na celebração de abertura do primeiro dia. Ainda na primeira parte do encontro o educador Elmo de Sousa Lima, docente da Universidade Federal do Piauí e a educadora Edineusa Sousa, formadora do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Aplicada (IRPAA), ajudaram as/os participantes a refletirem sobre a conjuntura da educação no Brasil e no Semiárido. O segundo dia foi momento da vivência onde a experiência é realizada de verdade, ou seja, nas comunidades e escolas que abraçaram o desafio de aceitar que “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”, como filosofara Paulo Freire.

Desde 2002 a região vive o desafio de promover a ECCS. Inicialmente na Escola Família Agrícola (EFA) Dom Fragoso, depois algumas escolas da rede municipal do município de Quiterianópolis passou a experimentar um modelo piloto em 2004, inicialmente para dar suporte à EFA. Logo em seguida essa vivência foi descontinuada, por falta de vontade política da gestão pública. “Diferentemente do que ocorreu em Tamboril, que desde 2007 não quebrou o processo e atualmente 100% dos colégios da zona rural vivem essa proposta”, explicou Adriano Leitão, coordenador da CDC. Ele também é coordenador do projeto “Educação Contextualizada no Sertão do Ceará”, patrocinado pela Petrobras. Graças a este, além de Tamboril, e Nova Russas (onde a proposta fora outrora apoiada pelo Projeto Dom Helder Câmara), houve expansão para as escolas municipais de Independência, Ipaporanga, e o retorno a Quiterianópolis. Quatro dessas cidades foram visitadas.

Tamboril - A Educação Contextualizada em Tamboril efetiva-se como um jeito de ser, de fazer educação, nesses quase oito anos de vivência dessa proposta, que tem contribuído para a mudança de postura dos educadores/as, educandos/as, confirmada por meio da teoria e prática, anunciando uma educação libertadora, que considera os saberes dos sujeitos, com suas especificidades. São visíveis os avanços ao longo do tempo nos vários aspectos. Os planejamentos da ECCS primam a qualidade, considerando a multidimensionalidade dos temas trabalhados nas formações e de contextualização dos materiais didático e paradidáticos, cruzando com os programas educacionais existentes (PAIC, PNAIC, MAIS EDUCAÇÃO, Etc.), em vista de um processo de ensino aprendizagem que se aproxime o máximo da realidade.

“Deu tão certo que na última eleição municipal, a comunidade exigiu de todos os candidatos a continuidade da proposta no município. Desde o ano passado a ECCS já é uma política pública, pois, assim como em Nova Russas, foi aprovada lei municipal que garante adotar os princípios da Educação Contextualizada em toda rede municipal de ensino.”, afirma Gilson Araújo, membro da Secretaria Municipal de Educação de Tamboril. A perspectiva é que até o fim desse mandato do Poder Executivo municipal, as quatro escolas da zona urbana que ainda faltam aderir à proposta o façam. Entretanto, existem muitos desafios a serem superados, tais como: Ainda existem educadoras/es que apresentam resistência; dificuldade de integração entre alguns membros da secretaria de educação; o currículo do material didático continua descontextualizado; formação deficiente de alguns e algumas docentes, etc.

Quiterianópolis - Um grupo de 10 agentes Cáritas visitou a Escola Manoel Rodrigues do Nascimento, que trabalha a educação contextualizada com os alunos (as) da educação infantil ao ensino médio. Ela fica localizada na comunidade Santa Maria em Quiterianópolis, a 105 km de distância da cidade de Crateús. A implementação do projeto “Água Fonte de Vida” começou em meados de 2005, com o processo de formação modular dos professores (as), através de parcerias com a CDC, a Prefeitura Municipal e o IRPAA. No período de 2007 a 2012 houve uma paralização do projeto e só retomaram em 2013, com a ampliação do projeto para 13 polos de 6º a 9º ano, com 75 educadoras/es e 840 educandas/os, graças ao projeto patrocinado pela Petrobras.

Entretanto, apesar desse hiato no processo, a primeira etapa do projeto rendera frutos para o município. Atualmente fornecem alimentos para a merenda escolar através do PNAE agricultoras e agricultores familiares que produzem hortaliças, legumes e criam pequenos animais em quintais produtivos. “Muitos educadores e pais de alunos que eram beneficiados pelas formações sempre foram agricultores. Isso permitiu uma melhor organização do espaço do terreno e nos levou a fazer uma produção agroecológica. Como a Cáritas não estaria conosco pra sempre e os projetos são finitos, decidimos criar então a Associação dos Agricultores Familiares em Quintais Produtivos de Quiterianópolis (ASAFAQ)”, explicou Carlos Gonçalves, educador e agricultor. Atualmente vários quintais de membros da ASAFAQ servem de laboratório vivo e orgânico para as escolas hoje revivendo essa proposta.

Ipaporanga - Em Ipaporanga o desejo de viver uma educação contextualizada partiu das bases da sociedade civil, a partir da demanda da comunidade. Inicialmente a cidade não seria contemplada pelo projeto. Mas lideranças locais, em parceria com a Paróquia Sagrado Coração de Jesus buscaram então um diálogo com a CDC, e atualmente cinco escolas no município atuam na perspectiva da ECCS, sendo quatro no campo e uma na cidade, com 33 educadores/as, 789 educandos/as nas modalidades do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental e que estão sendo acompanhados pela Cáritas desde 2014.

Um tempo curto que já apresenta grandes resultados, como apresentou a professora Rosinha do colégio E. E. F. José Domingos de Morais, que diz em seu cordel sobre o reconhecimento em ser do Semiárido e defender uma educação que parta do chão onde a gente pisa. “Não é difícil contextualizar as coisas do meu sertão, é só caprichar na alegria e fazer com dedicação!”. O modelo de ensino proporcionou às/aos educandos/as novas descobertas a partir da contextualização com seus territórios. “Ficamos surpresas ao descobrir coisas da nossa região que antes a gente não via, antes estudávamos algo que não era nosso, hoje vemos coisas da nossa convivência e desejamos que outras pessoas também vivam essa experiência” afirmam as alunas e representantes do grêmio estudantil da escola Valdemar de Alcântara, Analica Brandão (7° ano) e Lays Lima (9° ano). Entre as descobertas estão 13 olhos d’água, para os quais agora toda comunidade busca mecanismos de preservação.

EFA - A Escola Família Agrícola Dom Fragoso foi fundada em 2002, depois de ser sonhada por camponesas e camponeses nas Escolas Populares, uma das ações de formação realizadas para lideranças locais pelas pastorais do campo. Esse modo de viver a igreja, pobre com os pobres, possui ligação direta com o bispo que dá nome à EFA. Fragoso chegou à Diocese de Crateús em 1964, ano de fundação desta igreja particular, e desde então incentivou uma formação contextualizada e para convivência com o Semiárido. Contudo, havia a necessidade de esse tipo de perspectiva de educação popular também ser vivenciada nas escolas formais. Daí, com a liderança de Padre Machado, Irmã Siebra e tantas e tantos outras/os o sonho se tornou realidade. Atualmente a EFA é a maior referência no Ceará em ECCS.

Todos os conteúdos são contextualizados. “Nós adotamos aqui a Pedagogia da Alternância.

Os educandos passam 12 dias no Tempo Escola e 18 dias em casa. Mas na comunidade eles irão dialogar com a comunidade sobre algum tema gerador, e trazer pra nós o diagnóstico tirado lá. Isso é parte do Plano de Estudo (PE). A partir dele, nós iremos trabalhar a contextualização dos conteúdos. Todos eles”, afirma Diassis Silva, ex-educando e hoje monitor da escola. Cerca de 17 unidades produtivas servem de laboratório e “como trabalho de conclusão de curso elas e eles desenvolvem o Projeto Vida, Família e Comunidade, no qual desenvolvem no mínimo três unidades produtivas do próprio ambiente familiar. Somos a única EFA do Brasil a adotar esse mecanismo de avaliação”, se orgulha Eliane Amorim, educadora. Atualmente, o quarto ano de estiagem e dificuldades financeiras são o maior desafio da instituição.

Conclusão - “Foi bom perceber como a vida pulsa no Semiárido, também através da ECCS”, avaliou Patrícia Amorim, secretária executiva da CBRC. Assim como ela, Luiz Cláudio Mandela, membro da coordenação colegiada da Cáritas Brasileira, também observou a importância do encontro para o caminho já percorrido e ainda a ser enfrentado pelas Cáritas do Brasil, especialmente do Semiárido. “Foi muito bom também termos podido participar da celebração dos 10 anos da Cáritas de Crateús”, observou. Já Alessandro Nunes, membro da colegiada da CBRC, analisou como as experiências visitadas e os/as próprios (as) participantes do intercâmbio saem fortalecidas/os desse processo. “Eu acho importante a sistematização desses encontros porque a gente sai fortalecido e animado pra vivenciar essa experiência em nossas dioceses”, concluiu Verônica Carvalho, agente da Cáritas Diocesana do Crato.

Fonte: IRPAA, por Eraldo Paulino, da Cáritas

 

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