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Mulheres roceiras, mulheres doceiras e as muitas mulheres que convivem numa só

11/08/2015

A mão que lavra a terra é a mesma que transforma os alimentos que cultivou em doces, geleias e compotas. Da dureza à doçura, as mulheres têm papel fundamental e estratégico na agricultura. Os versos de Cora Coralina, doceira, poeta e agricultora, partilham a ideia de que várias mulheres convivem numa só: “vive dentro de mim a mulher cozinheira (…); a mulher do povo (…); a mulher roceira, (…), trabalhadeira, madrugadeira, bem parideira, bem criadeira (…)”. Cora, também conhecida como Cora Coragem, retornou a sua terra-natal aos 67 anos para começar a produzir doces. E foi aos 76 que começou a escrever. Militou em diversas causas a favor da mulher, entre as quais, o voto feminino. Sua história é revivida repetidas vezes sem perder a força e graça na vida de mulheres do campo.

É o caso de Dona Juju, de 69 anos, moradora do município de Magé, Região Metropólitana do Rio de Janeiro. De família de agricultores, nasceu e foi criada na roça. Já foi cozinheira, costureira, garçonete, serviu cafezinho na rádio Tupi, onde até fazia comentários no ar, mas foi na lavoura que encontrou motivação e prazer. Juju conta das dificuldades em ser reconhecida como agricultora tanto pelo sindicato rural como pelas entidades governamentais de assessoria técnica. O caminho para se manter na roça começou pelos doces. Numa cozinha comunitária, junto com as amigas Lourdes e Guida, transformou sua colheita em geleias e compotas.

Em 2008, vislumbrou a chance de apresentar sua produção doceira na Feira da Agricultura Familiar e da Reforma Agrária (FENAFRA), promovida pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), e que também tem o nome de Brasil Orgânico Sustentável. Foi a partir deste evento que se aproximou do que ela chama de “articulação”, ou seja, pessoas que incentivaram e auxiliaram a firmar os passos no caminho escolhido: plantar e fazer doces. Uma dessas pessoas é Marcio Mendonça, Coordenador do programa de Agricultura Urbana da AS-PTA. “Os doces fizeram sucesso, as agricultoras venderam muito e se sentiram empoderadas por participar de uma feira nacional. Fazem referência até hoje sobre esse ocorrido”, lembra Mendonça.

Hoje, com a cozinha Colher de Pau, ela produz mais de 23 tipos de doces e farinhas, como as de berinjela e quiabo. “Se me tirar da roça, não sobrevivo. É lá que planto, colho e cozinho”, diz Juju. A amiga Guida acrescenta que “vive aprendendo e ensinando porque todo dia aprende alguma coisa”. O ponto de encontro dessas roceiras e doceiras é na feira, outro espaço de convívio e reconhecimento de suas capacidades e autonomia. Como feirantes, trocam receitas, ideias e saberes. O relacionamento com os fregueses é estimulante, pois se sentem valorizadas. “Sou grata a Deus. Já fiz curso de tudo e aproveito toda a chance que tenho. A gente fica com vontade de fazer o melhor. A feira é um lugar de troca de agricultura e cozinha”, diz Neuza Benevides, de Guapimirim. Cecília Cantalejo, também de Guapi, reconhece que às vezes dá um desânimo, mas logo emenda na conversa: “Deus me dá força. Na dificuldade a gente vai aprendendo, o cliente vai gostando e a gente fica feliz”.

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Roceiras, doceiras e poetas


Mesmo em meio aos vários papéis que exercem no dia a dia, essas guerreiras não perdem a força nem o riso. Sempre sorriem quando olham para o futuro. E se são indagadas sobre o que é ser agricultora, as roceiras, doceiras e feirantes, descobrem-se poetas. A poesia também é para comer. Se a comida alimenta o corpo, as palavras alimentam a alma. O escritor amazonense Aníbal Beça compara o fazer doce com o fazer poemas: “o fruto palavra/ de doce mascavo/ repuxa viçoso/ no tacho da boca/ mel caramelado”. O poeta português Agostinho Silva escreve que “a quem faz pão ou poema/ só se muda o jeito à mão/ e não o tema”. Por isso, as mulheres da roça, do doce, da feira, também são da prosa e da poesia. Basta uma folha de papel e uma caneta e logo saem os versos e declaração de amor aos seus ofícios:

“Plantar mais, colher mais, vender mais. Ir em frente com Deus na frente”
“Ser agricultora é ser criadora, ser feliz e ser um pouco de Deus”.
“É ter amor por aquilo que faz”.
“É sempre ter esperança”.
“É a minha vida”.
“Quando estou na cozinha fazendo doce emano amor”.
“Quando estou na cozinha, estou feliz por estar aprendendo para levar algo diferente para a feira”.

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Nair Benevides, de 86 anos, a mais experiente do grupo e e mãe do agricultor Anysio, e das agricultoras Neusa e Orenir ensina: “A roça é o meu prazer. Mesmo com toda a dificuldade, a gente avança”. Além de dedicar a vida na roça, foi cozinheira de mão cheia, enxadeira de seu pai (função responsável por levar comida e café para os trabalhadores), entre outras tarefas do campo, que hoje também fazem parte da vida de seu filho e suas filhas.

Outras, como Clemilda Nazário, de Guapi, dizem que é grande a alegria de plantar, fazer o doce e ver as pessoas saborearem e dizerem “é o melhor doce que comi na minha vida. A gente planta com amor e faz com mais amor ainda”. Neuza concorda e diz que “quando faz doce está vivendo”. Se erra na receita, não tem problema: “vira outro doce. Plantar e preparar o próprio doce tem sabor diferente”. Na opinião de Dona Juju, as mulheres são mais conscientes, pois são mais sensíveis com o respeito e cuidado da natureza.

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Roceiras, doceiras, poetas e gestoras do ambiente


Essa consciência é destacada pela presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Maria Emília Pacheco. Ela considera as mulheres como produtoras de bens, gestoras do ambiente e portadoras de uma lógica não destruidora da natureza. Com isso, levantou a necessidade de empoderar as mulheres. Ela que também faz parte do núcleo executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) é autora dos primeiros textos que reivindica maior atenção à participação feminina na agroecologia no Brasil. Em 1997, ela atentou para a invisibilidade do trabalho da mulher na agricultura e a importância das outras atividades produtivas que elas desempenham na família, tais como os quintais, a criação de animais domésticos e demais tarefas consideradas secundárias em relação às culturas comerciais. A então presidenta do Consea propunha que os projetos agroecológicos evidenciassem os espaços de produção em que as agricultoras assumiam papel principal, reconhecendo-as como sujeitos produtivos.

De acordo com Renata Souto, assessora técnica da AS-PTA e que está à frente do trabalho com as mulheres na região metropolitana do Rio de Janeiro, o programa de Agricultura Urbana foi iniciado nos quintais das mulheres em 1999. A proposta consistia em incentivar o uso dos quintais domésticos e outros espaços dentro da comunidade para a prática da agricultura urbana. “O quintal é o lugar da segurança alimentar, da tradição, da complementação da renda da família e de estratégias de conservação da biodiversidade”, diz Renata. No lugar onde florescem frutos e folhas que alimentam e cuidam de suas casas, florescem as oportunidades para superar as condições desiguais das relações sociais de gênero.

Marcio Mendonça conta que no início a participação foi predominantemente feminina. “As mulheres são as pessoas que têm maior envolvimento com prática da agricultura nos quintais”, afirma. Segundo ele, o quintal, também conhecido como arredor de casa ou terreiro é domínio delas, expressão de sua criatividade e resistência. “Há muitos casos em que elas são as principais responsáveis pela manutenção econômica da família. Em especial, naqueles em que a família não segue o padrão homem-mulher- filhos. Muitas são as chefes de famílias que cuidam sozinhas das crianças. Em outras situações, vivem oprimidas dentro da própria casa na sociedade machista. As mulheres encontram nos quintais o espaço para a externalização dos seus sentimentos”, afirma.

Roceiras, doceiras, poetas, gestoras do meio ambiente e empoderadas

mulheres

De acordo com a assessora Renata, o feminismo é a base deste trabalho desenvolvido pela AS-PTA, tendo como ponto de partida as experiências cotidianas. Essa metodologia é utilizada na região Metropolitana do Rio de Janeiro e no Polo da Borborema, na Paraíba, onde a organização também atua. “O despertar é no dia a dia e consideramos que dar visibilidade às experiências é o caminho inicial, que abre as portas para todas as questões que o feminismo traz. O processo de formação é dinâmico e contínuo”, esclarece. Renata aponta a necessidade de construir e fortalecer os espaços de diálogo e auto-organização, de onde emergem temas comuns às mulheres, próximos de sua realidade, que abrem caminho para a construção da autonomia e o enfrentamento dos desafios.

Na região metropolitana do Rio de Janeiro as cozinhas e as feiras agroecológicas apoiadas pelo Projeto Alimentos Saudáveis nos Mercados Locais, com o Patrocínio da Petrobras por meio do programa Petrobras Socioambiental, têm cumprido este papel de espaço de encontro e reflexão onde se apura a dimensão social e política da mulher na agricultura; onde elas experimentam a autonomia de comercializar diretamente para o consumidor o que produzem e obterem renda da atividade. “Nos espaços de comercialização, elas cultivam e processam os alimentos e se reinventam. Levam a diversidade de suas roças, a criatividade com que cuidam de seus quintais, trocam experiências e tornam visíveis o seu trabalho”. Daí a importância dos encontros coletivos com as mulheres, partindo da experiência delas para tratar os problemas invisíveis ou ocultos.

E mulheres que marcham, sempre em frente

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Na Paraíba, quem está à frente do trabalho com mulheres é Adriana Galvão, assessora técnica da AS-PTA, que reforça o viés metodológico da organização para atuar com a complexidade envolvida na presença da mulher no campo. “Essa opção metodológica fez com que construíssemos na Paraíba um forte movimento de mulheres. Em março desse ano, saímos nas ruas do município de Lagoa Seca com mais de 5 mil mulheres na Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia”, destaca. A marcha é uma atividade realizada desde 2010 pelo Polo da Borborema, um fórum de sindicatos e organizações da agricultura familiar que congrega 14 municípios e mais de cinco mil famílias do Agreste da Borborema, que conta com a assessoria da AS-PTA.

Na Paraíba, o trabalho teve início em 2002 a partir de um diagnóstico sobre o trabalho produtivo das mulheres, quando se construiu o conceito do Arredor de casa. Em 2003, o Polo da Borborema constituiu a Comissão de Saúde e Alimentação, espaço onde se passou a organizar o trabalho produtivo e a participação social e política das mulheres. Adriana comenta que a instituição passou a indagar como que a agroecologia tem influenciado na superação das desigualdades. E em 2007, a AS-PTA passou a problematizar junto à rede de agricultoras-experimentadoras sobre as desigualdades. “O propósito é que elas se reconheçam em suas capacidades, aprimorando suas habilidades produtivas. O quintal, espaço antes invisível, passa a ser visto como um local produtivo e de visibilidade. Mais fortalecidas, passam também a problematizar sua vida e sua condição como mulher”, explica. Os encontros regulares com a Coordenação Ampliada do Polo também possibilitam momentos de formação e problematização das desigualdades. “Utilizamos instrumentos pedagógicos como a literatura de cordel, vídeos, teatros, vídeo-novelas e dinâmicas, buscando desnaturalizar as desigualdades e todas as formas de violência contra a mulher, com foco na justiça social”, esclarece a assessora.

Destaca-se ainda a atuação da AS-PTA no Comitê Ana Alice, que foi constituído para o enfrentamento da violência contra a mulher. O nome do comitê é em homenagem a uma jovem militante que foi estuprada e assassinada em 2012, crime que será julgado no dia 18 de agosto próximo. A participação em outras frentes de luta renova o ânimo e as forças. Por isso, Adriana cita que o Polo está se organizando para participar da Marcha das Margaridas, que ocorrerá entre os dias 11 e 12 de agosto, em Brasília. Esta marcha é uma organização política das trabalhadoras rurais em favor do desenvolvimento sustentável com “justiça, autonomia, igualdade e liberdade”.

A assessora sinaliza as mudanças que vêm ocorrendo, entre as quais, a ocupação feminina nos 14 sindicatos que compõem o Polo, chegando a ter participação de 50% de homens e 50% de mulheres na Coordenação Executiva do Polo. “Percebemos que as lideranças masculinas estão sensibilizadas. Mas é um processo de luta contínuo. A revolução não está pronta. Temos muitos avanços, ora retrocessos, mas a marcha segue em frente”, declara. Para Marcio, coordenador do programa de Agricultura Urbana, a visão machista prevalece na sociedade, apesar dos avanços conquistados. “Aos poucos é preciso que as mulheres ocupem mais espaços nas associações, nas igrejas, nas cooperativas. É preciso que os homens reconheçam o papel das mulheres e que as próprias rompam com as relações de subjugação, de exploração, e de falta de reconhecimento”, complementa.

Adriana acrescenta a experiência da última Marcha que foi capaz de envolver no processo de preparação a Secretaria de Educação para formação de professores da zona rural. Com isso, levam-se para a sala de aula os temas pertinentes à realidade das agricultoras. Outra parceria importante é com o Centro de Referência da Mulher para encaminhar casos de violência doméstica. “Como resultado claro desse trabalho, as mulheres passam a enxergar que elas têm direitos e não mais aceitam uma vida marcada pela violência”, conclui.

Com base em pesquisas sobre o campesinato, a presidenta do Consea, Maria Emília, demonstrou que a distribuição do produto do trabalho tende a ser mais igualitária nos sistemas agrícolas, como o modelo agroecológico, em que a mulher participa das decisões do planejamento e da forma de dispor os produtos. Ela também apontou evidências de que quando se amplia a geração de renda familiar com presença feminina, aumenta as opções estratégicas, criando-se, assim, condições para que elas tivessem maior autonomia e poder de decisão.

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De acordo com a pesquisadora em desenvolvimento sustentável, Emma Siliprandi, a invisibilidade feminina na agricultura familiar está vinculada às formas como se organiza a divisão sexual do trabalho e de poder no modelo de produção industrial, em que o homem comanda a unidade produtiva. Embora as agricultoras trabalhem no conjunto da atividade (preparo do solo, plantio, colheita, criação de animais, transformação de produtos e artesanato), só são reconhecidas pelas atividades consideradas extensão do seu papel de esposa e mãe (preparo dos alimentos, cuidado com os filhos). E, ainda assim, como status inferior, não tem o mesmo peso das ocupações masculinas.

O reconhecimento da mulher na produção de alimentos vem sendo reivindicada e discutida com maior abrangência tanto nas organizações da sociedade civil, entidades intergovernamentais e Estado. Em junho de 2015, foi realizado o Seminário Regional de Agroecologia na América Latina e Caribe, que resultou num documento oficial com compromissos de fortalecer a produção familiar, camponesa e indígena, além da segurança alimentar por meio da agroecologia. As mulheres e os jovens foram apontados como os guardiões da biodiversidade, especialmente das sementes e das raças crioulas.

Essa é uma luta constante, em que as mulheres, tal como escreveu Cora Coralina, vão descobrindo as muitas mulheres que convivem numa só. É a roceira, a doceira, a gestora do ambiente, a empoderada, a militante, a engajada, a guerreira, a batalhadora e vencedora, que estão sempre em marcha.

Referências bibliográficas

SILIPRANDI, Emma. Um olhar ecofeminista sobre as lutas por sustentabilidade no mundo rural. In: Agricultura familiar camponesa na construção do futuro. Rev. Agriculturas, pp 139-151. Ed. AS-PTA, Rio de Janeiro, 2009.

Fonte: ASPTA

 

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