ABONG -  - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

associe-se

conheça nossas associadas

Procure pelo nome em um dos campos abaixo:

selecione
selecione

Ou faça aqui uma busca detalhada:

selecione
selecione
selecione
selecione
  • APOIO

    • Fundação Ford
  • REDES

    • Plataforma Reforma Política

Gênero e sexualidade: precisamos de uma ação pedagógica para a pluralidade

22/09/2015

Relato do 1º Círculo de Cultura interno do Cefuria, realizado no dia 27 de agosto, com o tema gênero de sexualidade.

Círculo de Cultura_Gênero e Sexualidade

O trailer do documentário “Kátia”, que conta a história da primeira transexual eleita para um cargo político no Brasil, abriu o 1º Circulo de Cultura interno do Cefuria. Os pouco mais de 2 minutos sobre a vida de Kátia Tapety instigaram o debate sobre “Gênero e Sexualidade”, que contou com assessoria de Xênia Mello, integrante do PSOL, do Conselho Municipal dos Direitos da Mulheres de Curitiba e do Movimento do Bem Nascer. O encontro é o primeiro de muitos Círculos de Cultura que virão, voltados aos integrantes da equipe interna, da coordenação e do conselho do Cefuria, para aprofundamento da formação.

Para começar a conversa, a assessora apresentou o conceito de gênero a partir da teoria de Joan Scott: é um elemento que constitui as relações sociais, baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, se configurando como a primeira forma de significar as relações de poder. “A gente vive e nasce num mundo que é anterior a nós, em que regras sociais já estão estabelecidas”.

Mesmo antes da fala, já fazem parte da história de cada um/a as marcas de gênero, como por exemplo os tipos de roupas e cortes de cabelo de homens e mulheres. Também é um forte exemplo a divisão entre o ambiente público, aberto aos homens, e o privado, para as mulheres. Não à toa, as mulheres começaram a votar no Brasil apenas em 1932, há menos de um século.

Xênia Mello

Xênia Mello, integrante do PSOL, do Conselho Municipal dos Direitos da Mulheres de Curitiba e do Movimento do Bem Nascer

Nesta construção das marcas de gênero, os homens estão nos espaços institucionais de decisão, de produção de lucro, não assumindo papel de responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidado com os filhos. Já o predomínio do espaço privado, da casa e da família, é naturalizado como sendo das mulheres. “Essas diferenças vão significar relações de poder. A produção do lucro é do ambiente externo, já o trabalho da mulher, dentro de casa, não é remunerado e não gera lucro”, explica Xênia Mello.

Utilizando a pesquisa de Jaqueline de Jesus, pesquisadora de Universidade Nacional de Brasília – UNB e umas das primeiras professoras transexuais do Brasil, a assessora fala da questão de gênero a partir dos espaços em que circulamos: é um conceito político e relacional – papel que se vai exercer dependendo do ambiente de referência. Exemplo disso é o ambiente do Estado, que não é um ambiente permitido às mulheres quando é possível uma apologia ao estupro, como o caso dos adesivos para carro em que a presidenta Dilma é alvo de machismo.

Identidade de gênero

Se o gênero é o que nos define como masculino e feminino, a identidade de gênero é a nomeação, a reivindicação de cada sujeito como identidade. Neste sentido, a assessora explica que a nomenclatura transgênero diz respeito às pessoas que reivindicam a identidade de gênero diferente daquilo que foi nomeado ao nascer. Já o termo cissexual é empregando quando a identidade de gênero é conforme aquilo que foi nomeado ao nascer.

O preconceito e a violência sofrida pelas pessoas transexuais são cotidianos. Por, na maioria das vezes, não serem acolhidos na família e na escola, e não serem aceitos no mercado de trabalho, cerca de 90% das travestis e transexuais brasileiras sobrevivam da prostituição segundo estimativa do Coletivo TransRevolução.

Em 2014, foram 84 assassinatos desta população, segundo dados do Coletivo. A falta absoluta de acesso a direitos e a constante violência faz com que a expectativa de vida de travestis e transexuais no Brasil seja de aproximadamente 30 anos, enquanto a média de vida da população é de 74,6 anos, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estes dados levam o Brasil ao vergonhoso topo do ranking mundial de assassinato de pessoas trans.

Como forma de resistência à perseguição que sofreram durante a ditadura militar, as pessoas trans desenvolveram uma linguagem própria, baseada na língua Iorubá, de origem africana. Estes termos próprios são utilizadas atualmente e estão no vocabulário de Kátia Tapety, quando, no documentário, diz mostrando o documento: “A identidade é a cara deocó”, se referindo à foto masculina na sua antiga carteira de identidade.

katia-620

Cena de ‘Kátia’ (Foto: Reprodução / Divulgação)

Sobre a distinção entre as diversas indentidades trans (como transexuais e travesti), Xênia Mello é enfática em dizer que, para uma relação de respeito e igualdade com as pessoas trans, precisamos respeitar a intimidade de cada um: “Assim como as pessoas heterossexuais não falam sobre a sua intimidade sexual, não é necessário que a gente saiba se a pessoa trans fez ou não cirurgia para mudança de sexo”. Por isso, é importante estabelecer uma relação de respeito à forma como a pessoa deseja ser chamada.

Assim como as travestis e transsexuais, a mulheres cisgeneras já também foram tratadas como doentes no passado, quando se rebelavam contra a imposição do marido ou a obrigatoriedade dos pais de se casarem forçadamente.

Feminismo

“O feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente”. Com essa afirmação, a assessora inicia a relação entre o debate de gênero e sexualidade com o feminismo. Fazendo um resgate da origem do feminismo no Brasil, Xênia aponta que o movimento surge dentro da academia, no início do século passado, entre as mulheres ricas e branca que tinham acesso à universidade – coisa para poucos neste período.

A posição social das primeiras feministas fez com que o olhar para as desigualdades de gênero fosse a partir de um privilégio de cor (branca) e de classe (rica). O que vivemos hoje é uma apropriação do feminismo pelas mulheres negras, da periferia e do campo, com o recorte necessário.

Esta reflexão sobre o ponto de vista e a posição social de cada um/uma de nós explicitou a necessidade de reconhecermos que, muitas vezes, não sabemos qual é a realidade da outra pessoa, que dificuldades enfrenta no dia a dia. Um exemplo utilizado foi a diferença entre a vida de uma mulher que tem iluminação pública nas ruas do bairro onde mora e uma que não tem. Em que medida o acesso a este serviço público interfere no cotidiano, da disposição para sair de casa à noite estudar ou participar de movimentos sociais, por exemplo? Por isso, ser uma mulher de classe média, moradora da cidade, possibilita privilégios, acesso a serviços públicos, que a mulher camponesa ou da periferia, em geral, não tem.

Machismo

“Se você tem uma realidade em que as mulheres são violentadas, mortas diariamente, é porque não está se reconhecendo a humanidade das mulheres”. E o cenário de violência é gritante: somente entre junho e agosto deste ano, 17 mulheres foram assassinadas no Paraná – crimes caracterizados como feminicídios, quando são em decorrência do gênero. Este dado alarmante, que pode ser ainda mais, faz parte de um cenário de forte violência contra as mulheres no estado: o Paraná está em terceiro lugar no ranking da violência contra as mulheres. O município de Piraquara está na segunda colocação no quadro nacional de feminicídios. Em âmbito mundial, o Brasil ocupa a vergonhosa 12º posição.

Sexualidade

Com o aprofundamento da conversa, chegamos ao conceito de sexualidade, explicado por Xênia Mello como o desejo sexual de cada pessoal, que é fruto de diversos fatores, e não uma “escolha” deliberada. “Não importa de onde venha o desejo, a sexualidade. O que importante é reconhecer esse afeto como algo legítimo e respeitar”.

Para transformar esta cultura de preconceito que atinge as mulheres e todas as pessoas com orientações sexuais diferentes da heterossexualidade, a assessora afirma a necessidade de investirmos em uma outra formação desde a infância: “Quando a gente é criança, a gente é um quadro em branco, livre de preconceito e das normas. Ninguém nasce homofóbico, machista, racista, mas é formado a partir do ambiente em que é criado”.

Relacionamentos abusivos

Há situações em que a mulher sofre violência e permanece vivendo com o agressor, ou que vizinhos e parentes não fazem denuncia. Para Xênia Mello, estas relações contínuas de violência são fruto da relação familiar estabelecida desde a infância: quando a criança aprende a conjugar o amor com violência, como se pudessem andar juntos; por aprender que é possível resolver problemas através da violência, e não do diálogo; e pelo fato da criança, quando castigada por algum erro que cometeu, ser responsabilizada pela violência que sofre. Por isso, muitas vezes a mulher se permite viver relações abusivas e tem dificuldade de sair delas.

Ação pedagógica para a pluralidade

Debates como este têm como objetivo melhorar a nossa ação como educadoras/es populares, junto aos diversos públicos os quais o Cefuria atua. Com olhar para a mudança das nossas práticas cotidianas, a partir da reflexão, a assessora propõe uma ação pedagógica que leve à pluralidade:

- Precisamos ter a humildade de perguntar como a pessoa gosta de ser tratada/chamada. Não importa a roupa que a pessoa usa, sempre é mais respeitoso e acertado usar o termo “você”, por não indicar identidade de gênero;

- É necessário que reconheçamos, como educadores/as populares, nosso lugar de fala e de privilégio;

- Todas/os podemos errar, mas é preciso reconhecer as contradições, os erros, as limitações. Quando isso acontecer, não podemos ser arrogante, e sim admitir que podemos errar e corrigir, pedir desculpas;

- É fundamental reconhecer os repertórios de vida, incentivar o reconhecimento e acolhimento. Esta prática esta ligada a saber ouvir e valorizar a fala do/a outro/as.

Fica o desafio contínuo de aprofundamento do debate para o avanço de práticas que contribuam para o respeito às questões de gênero e sexualidade. Para o Cefuria, esta missão é reforçada considerando os públicos com os quais trabalhamos. Na economia solidária, um dos principais eixos de trabalho do Cefuria, Xênia Mello vê uma das forma de revolucionar as relações de gênero: “A vivência da economia solidária é uma estratégia política de enfrentamento à violência de gênero”.

Fonte: Cefuria

 

PALAVRAS-CHAVE

  • PROJETOS

    • Novos paradigmas de desenvolvimento: pensar, propor, difundir

Rua General Jardim, 660 - Cj. 81 - São Paulo - SP - 01223-010
11 3237-2122
abong@abong.org.br

design amatraca