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Déjà vu: intolerância e preconceito na Europa

27/09/2010

Por Vânia Fialho*

 

As medidas de Nicolas Sarkozy para controlar a violência e garantir o bem viver do cidadão francês e a sua surpresa diante da reação do Parlamento Europeu por ele ter escolhido como alvo os ciganos estiveram veiculadas em todos os meios de comunicação na semana que passou. No foco da questão estão os Rom, ou Roma (se quisermos respeitar a forma plural da língua), os Sinti e outras etnias que são genericamente chamados de ciganos. Aliás, essa é a primeira briga: cigano é deveras pejorativo, segundo alguns representantes dessas etnias na Europa.

 

Mesmo que, no Brasil, a categoria de ciganos venha sendo utilizada recentemente de forma a positivar um movimento e reivindicar respeito e garantias constitucionais pautadas na diversidade da nossa sociedade, o que vemos no cotidiano, seja lá em que continente for, é preconceito e total intolerância com esses grupos sociais.

Causa-me surpresa o espanto que só agora parece ter atingido os que se ocupam de criar e tentar garantir a unidade da União Européia. Apesar da visibilidade que a França ganhou com essa questão no momento, é necessário ampliar o ângulo de visão e perceber que não se trata de uma iniciativa isolada dentro do que pretende ser a Comunidade Européia.

 

O apoio do primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi à Sarcozy dá-nos outro indício. São constantes as denúncias junto ao Parlamento Europeu das iniciativas de vários países membros, baseadas em preconceitos, que associam os Rom e Sinti à criminalização. Desde 2008, a Itália, por exemplo, atua a partir de um “pacote de segurança” que prevê o fim dos campos (acampamentos) rom e sinti. O mais grave é que nenhum destino é proposto para aqueles que são expulsos dos acampamentos.

 

Para se ter idéia da questão, optei pela situação italiana, da qual estive mais próxima no primeiro semestre do corrente ano, para que seja possível perceber que o problema não está centrado na França. A impressão que tenho é mesmo que a Itália já vinha se antecipando nesses procedimentos arbitrários. A população Rom e Sinti, segundo dados não oficiais, totaliza entre 120 e 150 mil pessoas, sendo que cerca da metade é de cidadãos italianos[ii][1]. Mas esse dado parece não importar: são todos considerados estrangeiros.

 

Uma sondagem feita na Itália e publicada no jornal La Republica[iii][2], mostra que a presença dos Rom e dos imigrantes é um problema que deve ser tratado como prioridade para 70% dos italianos com medidas que promovam a expulsão desses indesejados. O outro dado importante é que a aversão diante dos que são “diferentes”, “estrangeiros”, “extracomunitários” recai de forma mais enfática sobre os Rom. São constantes atitudes que demonstram a intolerância, como os ataques com bombas caseiras e formas de bloqueio nas entradas dos campos, indicando o desejo de mantê-los afastados. Por parte do poder estatal, em Milão, no ano de 2010, houve o despejo de 272 campos Rom.

 

Mas existem outras estratégias desse mesmo preconceito: as políticas direcionadas a esses grupos na Província de Milão partem de um modelo pré concebido do que seria um Rom ou Sinti, definem seu estilo de vida, preconizando o nomadismo e um conjunto de elementos culturais no intuito de essencializar qualquer comportamento dessas etnias, ou seja, seriam por sua “natureza” potenciais criminosos. Se, por um lado, os acampamentos ilegais (chamados abusivos) devem ser desfeitos, os acampamentos regulares vivem sobre os ditames do Estado que define o tempo máximo que cada família pode ali permanecer, desconsiderando todos os laços de parentesco, solidariedade e percursos históricos vivenciados. Além disso, os campos são conformados como verdadeiros guetos, cercados, vigiados com câmeras, tudo financiado pelos cofres públicos. Em outras palavras: violência e preconceito oficializados.

 

Este é o rápido balanço que se pode fazer: a intolerância está colocada de forma muito mais disseminada do que se pode imaginar, a cultura de direitos humanos não atinge todos e com base numa constatação estarrecedora podemos afirmar que “jà vimos isso antes”.

 

*Doutora em Sociologia, Professora Adjunta da UPE – Universidade de Pernambuco, membro do NDIS – Núcleo de Diversidade e Identidades Sociais/UPE e Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. Desenvolve atualmente pesquisa sobre as políticas direcionadas aos Rom e Sinti na Itália, em parceria com a Universidade de Milão-Bicocca.

 

 

[1] Cfr. M. Cermel. Rom e Sinti: cittadini senza patria?, In _______(org) Le minoranze etnico-linguistiche in Europa. Tra stato nazionale e cittadinanza democratica, Padova 2009, 148.

 

[2] PERSANO, Bruno.I Rom peggio degli extracomunitari :"Sono un pericolo. Via i campi" . Disponível em:< http://www.repubblica.it/2008/05/sezioni/cronaca/sicurezza-politica-3.>. Acesso em 08 mai  2010.

 

Fonte: GAJOP


 

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