A Abong – Organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns, rede que reúne cerca de 250 organizações da sociedade civil com atuação em múltiplos territórios e agendas, manifesta seu veemente repúdio à escalada de agressão militar promovida pelo governo dos Estados Unidos contra a soberania da República Bolivariana da Venezuela. As recentes operações, que resultaram em bombardeios e na trágica perda de vidas civis, constituem uma violação inaceitável dos direitos humanos.

O sequestro do chefe de Estado venezuelano e de sua esposa, executado por autoridades estadunidenses, configura uma grave ruptura do Direito Internacional e aos preceitos da Carta das Nações Unidas, ferindo os princípios fundamentais de autodeterminação dos povos e da não-ingerência em assuntos internos.

Para além do episódio da detenção forçada, sustentada por acusações arbitrárias e desprovidas de respaldo jurídico, observa-se um processo continuado de estratégias violentas de intimidação conduzido nos últimos meses, que incluem investidas contra embarcações, a disseminação deliberada de desinformação e a produção de pânico moral, sempre sob a alegação genérica de combate ao narcotráfico.

Esse conjunto de práticas, distante de se restringir a um conflito bilateral, resulta num cenário de agravamento da instabilidade regional, em um contexto particularmente sensível, marcado pela realização de processos eleitorais ao longo de 2026 em diversas nações da América Latina, ampliando os riscos ao ambiente democrático local. Trata-se da atualização de mecanismos imperialistas e neocoloniais motivados por questões geopolíticas e econômicas, explicitamente associadas à disputa por recursos naturais estratégicos, como o petróleo.

Tal dinâmica se expressa, de modo concreto, por meio dos interesses explicitados pela autocracia liderada por Donald Trump, que buscam o domínio de espaços soberanos e apropriação de bens naturais — como a biodiversidade amazônica, minerais críticos centrais para a indústria tecnológica e energética, entre outros ativos essenciais —, aprofundando uma lógica de espoliação que marca a história do continente.

Nesse cenário, intensifica-se também a vulnerabilidade de organizações da sociedade civil, de jornalistas e de defensoras e defensores de direitos humanos, que passam a atuar sob um ambiente marcado pela criminalização e cerceamento do espaço cívico. Afinal, a convergência entre práticas de coerção e manipulação do debate público cria condições propícias à repressão e à restrição das liberdades fundamentais, comprometendo o exercício pleno da cidadania, do direito à livre organização e da liberdade de imprensa.

Entendemos que esse movimento se insere numa estratégia mais ampla de enfraquecimento do multilateralismo, evidenciada pela decisão recente do governo dos Estados Unidos de se retirar de dezenas de organismos vinculados às Nações Unidas. Tal gesto compromete mecanismos históricos de cooperação internacional, aprofunda assimetrias de poder e enfraquece instâncias essenciais à salvaguarda de distintos segmentos sociais, de suas comunidades e de seus territórios frente a práticas autoritárias conduzidas por Estados.

Diante desse panorama, a Abong expressa sua sincera solidariedade ao povo venezuelano e reitera seu compromisso com a democracia como modelo de governança global. Em toda nossa trajetória, temos como missão central a valorização e a defesa das organizações da sociedade civil, por reconhecer que a livre associação e autonomia desse campo é condição indispensável para a existência democrática, para a resolução de quaisquer conflitos e para a defesa dos povos em sua pluralidade.

Nesse sentido, ao subordinar países a projetos unilaterais de poder, a atual perspectiva das grandes potências, assentada na defesa de um mundo fragmentado em zonas de influência, mostra-se incompatível com a soberania dos Estados, com a autodeterminação dos povos e com a complexidade das relações globais contemporâneas. A Abong, assim, reafirma sua posição internacionalista fundada na cooperação entre os povos, no respeito ao Direito Internacional e na importância da sociedade civil compreendida como sujeito político vital para a promoção dos direitos humanos e do Bem Viver.